Douglas Sirk construiu uma carreira baseada em melodramas estonteantes e devastadores. “There’s Always Tomorrow” é um de seus projetos mais pessimistas e, considerando o ano em que foi lançado – 1956 -, à frente de seu tempo. Sirk sempre tocou em vespeiros da burguesia americana e, aqui, o alvo é a família tradicional, perfeita no papel e problemática na prática.
Clifford Groves é gerente de uma loja de brinquedos. Sua casa, aconchegante e espaçosa, é composta por Marion, sua esposa, e seus três filhos. A fim de celebrar uma data especial, ele compra ingressos para o teatro, na certeza de que Marion ficará lisonjeada. A realidade é uma situação de indiferença, na qual Clifford é basicamente ignorado por todos, incluindo a esposa, que, fiel ao seu papel materno, se comprometeu a levar a caçula ao balé. A chegada em casa, em vez de representar um sopro de energia e afeto, suga as aspirações do protagonista, que não consegue mais diferenciar os brinquedos que idealiza de si mesmo – ambos realizam ações programadas e repetidas. Por acaso, naquela noite, surge Norma Vale, velha amiga e colega de trabalho de Clifford. Bem-sucedida no mundo da moda e vivendo em Nova Iorque, ela aproveita os dias na Califórnia para se reencontrar com o passado.
Ao mencionar que foi acompanhado ao teatro, Marion nem se preocupa em perguntar com quem. São interações sem qualquer entusiasmo, entre pessoas com diferentes visões sobre a vida adulta, mas que, aos olhos da sociedade, devem se manter unidos até que a morte os separe. “Após 20 anos de casamento, o marido não vibra mais com nada”, afirma Marion, num tom de contentamento. Norma até foi casada; todavia, por medo da solidão, não por amor. Ela se mantém aberta aos encantos de encontros improváveis e sabe que só amou uma pessoa. Enquanto Marion usa roupas que cobrem seu corpo praticamente inteiro e que denotam um desinteresse em atrair o marido, Norma, até por ser estilista, tem figurinos modernos e suntuosos, que salientam o seu desejo de viver algo especial. Marion não luta pela felicidade; sua passividade é tanta, que nem a manutenção de uma imagem cristalina parece ser uma bandeira. Ela representa a mulher que, ao cumprir todos os requisitos impostos pela sociedade, simplesmente relaxou e passou a sobreviver, esquecendo-se de que é a vivência que nos torna humanos completos. Seus dias giram em torno de listas de supermercado, lavanderia e tarefas maternas. A mulher que abalou as estribeiras de Clifford não existe mais, pelo menos, não neste momento.
O roteiro faz do acaso um grande “aliado”, unindo o protagonista e Norma numa viagem que, inicialmente, era a trabalho. O passeio de cavalo pelo deserto, a piscina, a dança ao som de “Blue Moon” e as risadas descompromissadas acordam Clifford, que percebe que ainda é capaz de ser feliz. Vinnie, primogênito dos Groves, decide fazer uma surpresa ao pai; no entanto, graças a um mal-entendido, começa a suspeitar que sua mãe está sendo traída. O protagonista, antes ignorado, servindo somente para patrocinar saídas a lazer, passa a ser vítima de uma frieza ainda maior e de uma investigação minuciosa. Em uma sequência definitiva, Clifford e Marion discutem sobre o casamento e a falta de novidades que rege seus cotidianos. Ela fala em despesas, acreditando que o ciclo natural é este mesmo; ele quer retomar o controle sobre a própria vida e voltar a tomar passos mais arriscados. As sombras, protagonistas na narrativa, são essenciais nesta sequência, marcando o rosto de Clifford e deixando o de Marion “mais visível” – o conflito existencial entre descontentamento e aceitação. Os filhos, em vez de optar pelo diálogo e de notar a atual falta de empatia, fazem o possível para afastar Norma, julgando o pai em cada olhar. Vinnie, o mais afetado pelo caso, justamente por estar numa fase de transição e acreditar num modelo firme de paternidade, é quem é mais devorado pelas sombras, que, neste caso, o afastam da verdade e da real complexidade da história.
A chama do amor do passado pode se sobressair? É possível ser rebelde em tempos ociosos? Eles sabem que precisam um do outro, mas também tem noção de que são pequenos demais para o tamanho da maré que está prestes a atacá-los. Sirk destaca a proximidade entre Clifford e Norma a partir de close ups e planos no qual a proximidade corporal é reveladora. No triste adeus, não são eles que choram, mas a janela, que, ao fundo, recebe uma intensa chuva. “O trágico de envelhecer é que já não se pode ser tão imprudente”. O corrimão, que forma uma espécie de grade, continuará prendendo Clifford à sua rotina vazia. Cabisbaixo, ele precisa se reerguer para ser o provedor que os Groves esperam.
Fred MacMurray e Barbara Stanwyck, que já haviam trabalhado juntos nos clássicos “Double Indemnity”, de Billy Wilder, e “Remember The Night”, de Mitchell Leisen, reafirmam a química que sempre demonstraram em cena. São performances sensíveis, em que os mais variados sentimentos são apresentados da maneira mais pura e honesta possível. Eu consigo imaginar perfeitamente Tom Hanks, com seu carisma e aura de bom moço, no lugar MacMurray.
“There’s Always Tomorrow” é uma obra prima que ainda ressoa na contemporaneidade.



