Philip Kaufman é um dos cineastas americanos mais subestimados que surgiu na década de 70. Entre 1978 e 1983, Kaufman dirigiu clássicos como “Invasion Of The Body Snatchers” e “The Right Stuff”, mas foi em 1979 que ele lançou a joia de sua coroa. “The Wanderers” reúne o que “Mean Streets”, “The Warriors” e “Scorpio Rising” têm de melhor, provando ser uma obra que entretém na mesma medida que nos faz refletir.
Nos primeiros minutos, Kaufman fomenta a textura inicial, apresentando um panorama de gangues rivais. Os corredores da escola são amontoados de jovens de diferentes tribos, definidas por suas etnias – os Wanderers, por exemplo, são formados por ítalo-americanos. Os figurinos, com destaque para as jaquetas de couro, marcam a década de 60 e diferenciam as gangues. Nas salas de aula, os professores são oprimidos pela animosidade dos alunos, que, segregados em suas respectivas tribos, geram tumulto e organizam brigas. Kaufman usa muito bem o meio urbano para instaurar o caos e um teor anárquico, concebendo planos em que seus personagens se situam em becos ou perto de fogueiras feitas em barris. A violência é pensada de maneira inteligente, combinando visceralidade e um aspecto cartunesco.
Kaufman não está interessado em fazer um novo “The Warriors”; seu objetivo é entender aqueles personagens, os motivos pelos quais eles optam por aquilo e oferecer, na medida do possível, um futuro mais alentador. Perry, um novato na escola, surge quando os Wanderers estão em desvantagem. Sua voz imponente é suficiente para assustar os “Baldies”, uma gangue mais barra pesada, em que todos os integrantes, liderados por Terror, são carecas. Outro momento que ajuda a sustentar uma aura mítica em torno de Perry é aquele em que sua enorme sombra surge ao lado de Joey. Kaufman, tendo noção do material que tem em mãos, recorre ao que chamamos de “Hangout Movie”, um subgênero que consiste, basicamente, em acompanhar as andanças de um grupo, sem uma trama central.
O cineasta desconstrói a ideia de marginalidade, mostrando que aqueles “trogloditas” são apenas jovens ingênuos que anseiam pela sensação de pertencimento. Nesse sentido, “The Wanderers” remete a “Mean Streets”. Nos sentimos amigos daqueles personagens, em suas tentativas de atrair mulheres, nas festas, na ebulição dos hormônios e quando cantam juntos no carro. Kaufman capta um espírito jovial, inserindo o espectador num cotidiano de prazeres e irresponsabilidades. Richie, líder dos Wanderers, Joey, Buddy e Perry são grandes amigos, o que é ressaltado a partir de verdadeiras interações e demonstrações de afeto, não de diálogos baratos.
Assim como em “Mean Streets”, esses personagens, embora estejam curtindo a juventude, estão à beira da vida adulta e precisam começar a assumir responsabilidades. Richie namora Despie, mas não pensa em algo a mais. O que uma gravidez representa? Chubby, pai de Despie, um mafioso local, é muito claro em relação a compromissos. Ninguém põe um bebê na barriga de sua filha e sai impune. As camisas floridas são símbolos do submundo criminoso e, ao ser presenteado com uma delas, Richie é “convidado” a adentrar tal universo. De certa forma, ele segue uma lógica similar a de Charlie, protagonista de Mean Streets. Em uma sequência que evidencia o poder dos mafiosos, Kaufman utiliza contra-plongées para enquadrá-los. O roteiro não é definitivo em relação ao futuro, mas é enfático ao dizer que, a partir de agora, as coisas serão diferentes. Perry e Joey, filhos de pais abusivos, talvez tentem a vida em outra cidade. A despedida de solteiro é uma celebração ou o início de uma vida opressiva? Mais relevante do que a mudança de rota é perceber que, de alguma forma, todos ali, no desfecho, estão mais maduros.
Nina, que rouba os corações de Richie e Joey, acaba sendo uma figura chave na narrativa. Ela prova que até os mais leais dos amigos podem brigar por uma mulher e oferece um olhar diferente sobre a juventude. Diferentemente dos Wanderers, Nina é culta e se interessa por temas mais profundos. No fim, quando Richie a segue até um bar, fica nítido que, mesmo mais maduro, ele ainda não está ao seu alcance e que faz parte de uma tribo quase oposta. A sacada genial está no artista que toca no folk bar: Bob Dylan, que canta “The Times They Are A-Changin’, que contrasta em termos de tom com as músicas tocadas anteriormente e sintetiza o arco dos personagens e o período no qual o país se encontrava – o luto pela morte de JFK. Richie não entra no estabelecimento e tenta falar com Nina; ele compreende que a janela é a barreira que os separa em mundos distintos.
As gangues são, na verdade, um esconderijo para a incapacidade de abraçar culturas e etnias diferentes. O ódio é inocente, partindo da incapacidade de perceber o óbvio. Todos ali (ou quase todos) são bons garotos que ainda não encontraram a própria voz e que carecem de afeto. No jogo de futebol americano, quando os Ducky Boys, uma quadrilha perigosíssima, aparecem, eles finalmente percebem que a união é o único caminho razoável. Bem e Mal se enfrentam, num duelo caótico. E, claro, eu não poderia deixar de citar a seleção musical, que, além de nos localizar temporalmente, constrói a atmosfera descontraída e jovial do filme – Kaufman engata um clássico atrás do outro, como a Jukebox que precisávamos. Eles podem até perder contato, mas serão Wanderers para sempre.
Ken Wahl e Tony Ganios são os grandes destaques do elenco, impressionando com o carisma e a fascinante presença de tela. Wahl deveria ter sido um ícone deste período – sinceramente, não sei o que aconteceu. “The Wanderers” é uma delícia de filme.



