O crítico de cinema que virou o diretor mais radical da França
Ele escreveu na Cahiers du Cinéma aos 20 anos, inventou um nome a partir do próprio, dirigiu seis longas em quarenta anos e nunca repetiu a mesma fórmula. Pelo caminho, reconstruiu uma ponte de Paris e quase levou uma produção à falência.
Tem diretor que faz um filme por ano. Leos Carax fez seis em quarenta anos, e cada um deles parece ter sido feito por uma pessoa diferente. Entre um e outro houve silêncios de uma década, um escândalo financeiro que virou assunto nacional na França e um retorno que a crítica tratou como ressurreição. A história começa, no entanto, do outro lado da mesa: antes de dirigir qualquer coisa, Carax era quem escrevia sobre os filmes dos outros.
Quem é Leos Carax?
Leos Carax é um cineasta francês nascido em 22 de novembro de 1960, em Suresnes, nos arredores de Paris. Dirigiu seis longas-metragens desde 1984 e é considerado um dos nomes mais radicais e mais influentes do cinema francês contemporâneo.
O nome é invenção. Leos Carax é um anagrama formado com as letras dos primeiros nomes dele, Alex Oscar. A troca diz alguma coisa sobre o método: antes de filmar, ele reinventou a si mesmo.
Da Cahiers du Cinéma para trás da câmera
A carreira dele começou na crítica. Com cerca de 20 anos, Carax entrou para a redação da Cahiers du Cinéma, então comandada por Serge Daney, uma das revistas mais importantes da história do pensamento sobre cinema. A primeira crítica que publicou foi um elogio a Paradise Alley, de 1978, estreia de Sylvester Stallone na direção, o que já diz bastante sobre o tipo de olho que ele tinha.
Em seguida veio o salto. Dirigiu o curta Strangulation Blues em 1979, que levou o Grande Prêmio do festival de Hyères em 1981, e três anos depois estreou no longa com Boy Meets Girl, em preto e branco, com Denis Lavant no papel principal. Ali nasceu a parceria mais importante da carreira dele. Mauvais Sang, de 1986, veio logo depois e consolidou a dupla.
Os Amantes da Ponte Neuf, o filme que quase o derrubou
Em 1991, Carax quis filmar uma história de amor entre dois moradores de rua no Pont-Neuf, a ponte mais antiga de Paris. A prefeitura liberou dez dias de filmagem na ponte de verdade, e dez dias não bastavam.
A solução foi construir outra. A produção levantou uma réplica do Pont-Neuf e do entorno num lago em Montpellier, no sul da França. No primeiro dia de filmagem, Denis Lavant machucou gravemente o polegar, o que parou tudo por um mês. O orçamento estourou, a produção enfrentou dificuldades financeiras severas e o custo do filme virou caso nacional na imprensa francesa. Apesar disso, ou talvez por isso, Os Amantes da Ponte Neuf é hoje um dos filmes mais amados da carreira dele.
Pola X e o silêncio de treze anos
Depois do escândalo, Carax levou oito anos para lançar outro filme. Pola X, de 1999, é a única adaptação literária da carreira dele, baseada em Pierre, ou as Ambiguidades, romance de Herman Melville dos anos 1850.
O filme foi mal recebido e empurrou Carax para fora do circuito por mais de uma década. Entre Pola X e o longa seguinte passaram-se treze anos, interrompidos apenas por Merde, segmento dele no filme coletivo Tokyo!, de 2008, com Denis Lavant de novo.
Holy Motors e Annette: a volta por cima
Em 2012, Holy Motors mudou tudo. Denis Lavant interpreta onze personagens diferentes ao longo de um único dia, atravessando Paris numa limusine branca para cumprir compromissos que ninguém filma e ninguém assiste. O filme competiu em Cannes, levou o Prêmio da Juventude, tem 92% de aprovação no Rotten Tomatoes e foi eleito o melhor filme de 2012 pela Cahiers du Cinéma, a mesma revista onde Carax começou escrevendo.
Nove anos depois veio Annette, de 2021, musical em inglês com Adam Driver e Marion Cotillard, a partir de história e canções da dupla Sparks. É o único longa que ele dirigiu sem assinar o roteiro, e rendeu a ele o prêmio de Melhor Diretor em Cannes.
It’s Not Me: o cineasta respondendo a uma pergunta
O trabalho mais recente nasceu de uma pergunta. O Centre Pompidou perguntou a Carax “em que ponto você está?”, para uma exposição que acabou não acontecendo, e ele respondeu com um filme.
C’est pas moi, ou It’s Not Me, é um ensaio em primeira pessoa de cerca de 40 minutos, exibido na sessão Cannes Première em 2024. Mistura autoficção, imagens de arquivo e referências aos próprios filmes, e traz de volta Denis Lavant como o Monsieur Merde de Tokyo!. É Carax fazendo o que fazia aos 20 anos, crítica de cinema, só que usando cinema em vez de texto.
O que sobra
Repara no que une esses filmes: um ator que reaparece em quatro deles, uma Paris que nunca é cartão-postal, e a teimosia de quem prefere parar dez anos a entregar uma coisa morna. Carax não é um diretor produtivo e nunca quis ser. É o tipo de cineasta que existe pra lembrar que o cinema pode ser outra coisa, e que às vezes vale esperar uma década por isso.
