O diretor coreano que levou o Leão de Prata em Veneza 2026
Lee Chang-dong faz cinema como quem escreve romance: devagar, com poucos títulos, mas nenhum descartável. Em quase trinta anos de carreira, dirigiu apenas sete longas, e cada um é tratado como acontecimento. Foi romancista antes de ser diretor, foi Ministro da Cultura da Coreia do Sul no meio do caminho, e em 2026 voltou a Veneza para levar o Leão de Prata, vinte e quatro anos depois de já ter ganhado um por lá.
Do romance ao cinema
Nasceu em Daegu, na Coreia do Sul, em 1954. Formou-se em Literatura Coreana e construiu nome primeiro como escritor, publicando contos e novelas premiadas ao longo dos anos 80 e 90 antes de chegar ao cinema. Essa origem na literatura nunca saiu do trabalho dele: os filmes do Lee têm a paciência e a densidade de personagem de um bom romance.
Entre 2003 e 2004, ele ainda foi Ministro da Cultura e do Turismo da Coreia do Sul, onde defendeu as cotas de tela que protegem o cinema nacional. Poucos diretores no mundo carregam um currículo tão fora do comum.
A dor de gente comum
O cinema do Lee Chang-dong é sobre gente comum diante de uma dor que não passa. Luto, culpa, desejo, injustiça social. Ele filma devagar, sem pressa de explicar, e confia que o espectador vai sentir antes de entender. Não tem vilão nem lição de moral, tem o peso da vida caindo sobre pessoas normais.
Foi assim em Oasis (2002), em Secret Sunshine (2007), que rendeu à atriz Jeon Do-yeon o prêmio de Melhor Atriz em Cannes, em Poetry (2010) e em Burning (2018), o thriller silencioso que o recolocou no centro das atenções do cinema mundial.
De Cannes a Veneza
A lista de prêmios do Lee é das mais respeitadas do cinema asiático. Em Veneza, ganhou o Leão de Prata de Melhor Direção por Oasis, em 2002. Em Cannes, levou o prêmio de Melhor Roteiro por Poetry, em 2010, e o prêmio da crítica internacional (FIPRESCI) por Burning, em 2018. E em 2026 voltou a Veneza para ganhar o Leão de Prata, o Grande Prêmio do Júri, por Possible Love.
O retorno com Possible Love
Possible Love marca o retorno do Lee depois de oito anos sem dirigir. O filme acompanha dois casais de vidas opostas, um operário demitido e a mulher, uma documentarista e o marido, que se cruzam durante a gravação de um documentário e esbarram nos próprios desejos escondidos. É Lee no território de sempre: classe social, desejo e o que as pessoas não dizem.
A estreia em Veneza terminou com mais de seis minutos de aplausos de pé, e o filme foi escolhido para representar a Coreia do Sul na disputa pelo Oscar. Aos 72 anos, com apenas sete filmes, Lee Chang-dong segue provando que quantidade nunca foi o ponto.




