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O cinema do alemão Christian Petzold é bastante intrigante. Ele assume convenções do melodrama e do thriller, mas faz questão de esvaziá-las. Seus personagens são solitários, perdidos e se expressam mais por olhares do que por falas. Suas narrativas são dominadas pelo silêncio, responsável por desenhar os cenários, e por uma encenação rígida (bem clássica). Nas mãos de Brian De Palma, Paul Verhoeven ou até mesmo Lawrence Kasdan, “Jerichow” seria uma tempestade de cores, tensão e desejos intensos. Pelas lentes de Petzold, temos um resultado completamente diferente.

Após ser roubado por um antigo colega, a quem devia dinheiro, Thomas é contratado para ser o motorista de Ali, dono de uma rede de bares. Não demora para que Thomas se interesse por Laura, esposa do patrão, com quem inicia um caso perigoso. A premissa é conhecida, mas é desenvolvida com a destreza de um autor que não abre concessões em relação à sua marca autoral. Aqui, o desejo sexual dialoga com o desejo por uma vida “mais livre”. Na medida em que Thomas e Laura se envolvem e se apaixonam, percebemos que qualquer final plenamente feliz será impossível. Laura é, além de esposa e funcionária, “prisioneira” de Ali, que arca com uma considerável dívida sua. Os amantes não podem simplesmente fugir e abraçar o momento, pois vivem num sistema de contratos inegociáveis, em que a hierarquia é muito nítida. Petzold estabelece tal conexão a partir de olhares rápidos e significativos, evitando diálogos, como se os personagens não pudessem expressar aquilo que sentem, envolvendo-se sexualmente por puro instinto e tesão. A narrativa é guiada pelo ritmo do protagonista, um homem pacato, quieto e leal (pelo menos, no trabalho). As conversas entre Mathias e Ali despertam uma certa tensão, ao mesmo tempo em que indicam um gradual aumento na cumplicidade. Mathias diz somente o necessário, enquanto o patrão fala sobre descontentamentos gerais. Não deixa de ser relevante o fato de Ali ser o mais expressivo do trio, demonstrando raiva, ciúmes e alegria sem qualquer receio – naquela cadeia, ele é o líder.

A subserviência dos funcionários é tamanha, que, ao ter a chance de mudar a situação, Mathias opta pela manutenção do sistema. Por que? Foi ensinado a seguir ordens, não a subvertê-las. É fascinante como Petzold encena tal momento, com os personagens em diferentes pontas, formando um triângulo. Os segundos que precedem a decisão do protagonista por salvar Ali e o plano do oceano em sua vastidão conferem profundidade ao que se passa em sua mente. Os amantes até planejam algo para eliminar o “inimigo”; no entanto, o diretor, nos últimos dez minutos, puxa o tapete e desafia o espectador a reavaliar o cenário. Passamos a ver Ali como um sujeito cuja acentuada insegurança advém de conflitos geopolíticos, da dificuldade de ser um turco em solo germânico, do medo da solidão e da iminência de algo terrível. “Vivo em um país que não me quer, com uma mulher que comprei”. Ele não deixa de ser um marido abusivo, mas ganha em complexidade, fugindo do arquétipo hollywoodiano – muitas vezes, simplista. Petzold termina o filme numa nota alta, sem que o espectador entenda totalmente o que sente por cada um ali, nem sobre o que acabou de acontecer.

Benno Führmann e Nina Hoss estão excelentes em seus papéis discretos e fervorosos. Dito isso, Hilmi Sözer rouba a cena, combinando ingenuidade, opressão e vulnerabilidade. Embora seja um de seus filmes mais acessíveis, “Jerichow” sintetiza a carreira de Christian Petzold.

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