O inglês Joseph Losey construiu, ao longo de quatro décadas, uma carreira bastante singular. Ele venceu a Palma de Ouro, em 1971, pelo extraordinário “The Go-Between” (tem crítica no site), mas seus trabalhos, em geral, são bastante subestimados. “Figures in a Landscape”, 1970, estrelado por Malcolm McDowell e Robert Shaw, é um filme curioso.
Mac e Ansell fogem da prisão num desconhecido país da América Latina e tentam retornar à sociedade. O roteiro, escrito pelo próprio Shaw, foca na dinâmica entre os personagens, nos perigos que os circundam e na busca por sobrevivência. Quando o filme começa, eles já estão por aí, correndo, com os braços amarrados. A câmera se atenta aos passos dos protagonistas, estabelecendo, desde o início, um clima de inquietude e tensão – nesse sentido, a trilha sonora também é essencial. De imediato, notamos que há uma certa animosidade no ar, realçada pelo contraste de personalidades. Mac é experiente, explosivo e gosta do posto de liderança. Ansell, embora pareça mais esperto, é jovem e demonstra uma vulnerabilidade maior. Mesmo com seus personagens à solta, Losey não cria falsas expectativas. Os planos abertos e as tomadas aéreas apresentam uma região montanhosa, de difícil acesso, na qual não se vê uma saída. Eles caminham, mas não saem do lugar; é como se a posição de prisioneiro fosse uma condição contínua. Não há liberdade e Losey, ao explorar a geografia labiríntica do local, deixa isso claro.
O “inimigo” é um helicóptero que, invariavelmente, persegue os protagonistas. Nunca vemos os rostos dos pilotos, o que confere um caráter animalesco à máquina, que, assim como em “Duel”, de Steven Spielberg, é retratada como um monstro. Na medida em que narrativa é desenvolvida, as situações ganham contornos grandiosos, afundando a dupla numa espiral de conflitos. Mac passa a falar tanto da esposa, que podemos sentir, ainda que ele não admita, que não há esperança. A cada diálogo sobre o passado, os prazeres cotidianos e a vida em civilização, percebemos o principal intuito de Losey: mostrar que o humano é naturalmente frágil, incapaz de viver como um animal largado. A sequência em que eles são obrigados a passar por uma estreita plantação, sucedida por uma enorme explosão, tem uma lógica quase de videogame: a cada movimento, o nível de dificuldade sobe. As diferentes temperaturas e texturas, indo da fumaça escura para a chuva e depois para a neve, salientam o árduo percurso dos protagonistas. O helicóptero ganha o apoio de soldados que se comunicam somente através dos disparos das armas. Além da geografia labiríntica, Mac e Ansell lutam contra algo muito maior do que eles próprios: impessoais, os inimigos representam o Estado e a impossibilidade de fugir da imagem de “foras da lei”. Eles estão fadados a uma prisão eterna; não à toa, o final é tão frustrante – no bom sentido.
Shaw e McDowell se entregam inteiramente, oferecendo performances físicas formidáveis. Dito isso, a maioria das interações, a não ser aquelas em que notamos um certo grau de “insanidade”, não empolgam, dizendo pouco sobre os dois. O problema maior é do roteiro, não dos atores – neste caso, é, sim, de um dos atores; afinal, Shaw o assinou. “Figures in a Landscape” é um filme direto e visualmente poderoso. O ritmo pode até soar repetitivo, mas o terço final retoma a força inicial.



