“Body Double” é o filme “mais De Palma” da carreira de Brian De Palma. Suas maiores obsessões estão aqui: o voyeurismo, Hitchcock, as marcas estéticas, a metalinguagem, a farsa e o sexo. O espectador é, por natureza, um voyeur. Aqui, De Palma traz um protagonista de fácil identificação; afinal, seu arco gira em torno do ato de observar uma mulher que vive num apartamento vizinho. O curioso é que, antes de chegar ao ponto de virada na trama, Jake é apresentado como um fracasso ambulante. Ele atua em filmes de terror de baixo orçamento, sofre de uma claustrofobia paralisante, vê a namorada na cama com outro homem e é obrigado a sair de casa.
Assim como James Stewart, em “Janela Indiscreta”, Jake só se torna um autêntico voyeur quando não há mais nada a se fazer. Ou seja, nas entrelinhas, De Palma nos chama de desocupados e pervertidos – a ofensa não chega a tanto, pois tenho certeza de que serve ao próprio diretor. Um dos inúmeros pontos que diferencia “Body Double” de “Janela Indiscreta” é que, ao contrário de James Stewart, Craig Wasson é um completo desconhecido, alguém que, pelo quase “anonimato”, se encaixa perfeitamente no papel do ator fracassado de filmes B. Os filmes de De Palma são perversos, dotados de um maneirismo que se estende às mais diversas escolhas. A residência, cedida por Sam, um colega, na qual Jake fica por uns dias é uma tirada ácida do cineasta e dos responsáveis pela direção de arte. Em Hollywood, se você é minimamente poderoso, sua casa é uma torre, com direito a teleférico. E, claro, não poderiam faltar outros elementos extravagantes, como, por exemplo, a porta vermelha e a cama giratória.
Sem emprego, namorada e dinheiro, Jake, por influência de Sam, passa a observar, com o auxílio de uma luneta, Gloria Revelle, a vizinha que, todas as noites, pontualmente, faz uma dança sensual na janela. O protagonista, além de empilhar infortúnios, prova ser dono de uma excitação comparável a de um cachorro no cio. Novos papéis? Não, Jake tem uma outra prioridade. O ápice dessa obsessão se dá na longa perseguição no shopping, que culmina num encontro na praia. Ali, De Palma usa todos os seus truques para nos envolver em um jogo de pique-pega, mantendo uma sintonia estilosa entre sua câmera e os personagens – tem espaço até para o já conhecido Split Diopter, sua marca registrada. Gloria, vestida de branco e usando óculos escuros sensuais, parece ter sido fruto da idealização de um cinéfilo que assistiu a clássicos do cinema Noir. Jake a persegue para protegê-la do vilão, um sujeito de aparência assustadora, colocando-se como o herói que salva a dama indefesa. Ao mesmo tempo, De Palma, em mais uma referência a Hitchcock – dessa vez a “Vertigo” -, ressalta a intensidade da claustrofobia sentida pelo protagonista, deixando claro que isso será relevante. Quando Jake e Gloria se beijam, ao som de uma trilha sonora propositalmente cafona, e a câmera gira ao redor dos dois, vemos o lado mais farsesco e cínico do diretor. Aquilo é o sonho molhado do voyeur que aspira ao heroísmo; é o maneirismo em sua máxima potência.
A prova concreta de que Jake é um espectador, não um herói, está na sequência de assassinato. Em vez de ligar para a polícia, ele fica parado, observando tudo, até ir lá e tentar manter o delírio vivo. O uso de montagem paralela é essencial ao potencializar a tensão – os enquadramentos inusitados e os imprevistos estabelecidos por De Palma dão um charme especial ao momento. Jake, então, percebe que não era Gloria quem dançava na janela, mas Holly Body, uma atriz pornô contratada por Sam, que matou a própria esposa e usou o colega como álibi perfeito. Sam é o diretor, dando a Jake o papel de mera testemunha. De Palma gosta tanto de brincar com as possibilidades da sétima arte, que insere uma espécie de clipe musical à narrativa, o que funciona justamente por se tratar de um filme que brinca com a estilização o tempo inteiro. No clímax, o diretor utiliza a metalinguagem para desmistificar a ideia do herói, tirando o espectador da imersão na tensão. O desfecho não poderia ser mais sarcástico e brilhante, levando Jake à sua realidade. Não existe triunfo, apenas uma maquiagem terrível de vampiro, num set que se assemelha a um porão. Nós somos Jake; somos o voyeur pervertido que se anima com as possibilidades. Sempre que os créditos sobem, voltamos à nossa realidade.
“Body Double” é diversão garantida. Outro filme que reafirma o talento irrefutável de Brian De Palma, o cineasta da Nova Hollywood com o maior domínio da linguagem cinematográfica.



