Tom Ripley e Philippe Greenleaf, grandes amigos, estão prestes a velejar pela Itália. Ambos são americanos e o segundo é de uma família de prestígio, dona de uma enorme riqueza. Philippe não tem interesse em tomar conta dos negócios do pai e apresenta ao protagonista o seu modo de vida europeu, que se baseia, basicamente, em pequenos truques e idas a bares e festas. Tom é contagiado pelo senso de despreocupação e imaturidade do amigo. Marge, namorada de Philippe, se junta à trupe.
Gradativamente, seu interesse pela presença do amigo diminui, levando-o a atitudes deselegantes e grosseiras. Tom deixa de ser bem-vindo e parece um pobre coitado, no entanto, e a primeira cena deixa isso nítido, ele sabe exatamente o que está fazendo. Philippe não está lidando com um jovem menos perspicaz, pelo contrário, Tom é quem está no comando, tendo planejado tudo minuciosamente muito antes de entrar no barco. A rivalidade é inusitada, assim como a abrupta amizade que fingem ter restabelecido. A fim de se livrar de Marge, o protagonista coloca brincos no bolso de Philippe. Tom fala em tom de ironia que o mataria, afinal, tem o extrato de sua conta e conseguiria forjar sua assinatura facilmente. É exatamente isso que acontece. Com extrema frieza e precisão, o protagonista se livra do “amigo”, assume sua identidade e coloca as mãos em sua fortuna.
Obviamente, as coisas se tornam complicadas na medida em que quem conhece Philippe sente a sua falta e determinados personagens, involuntariamente, entram no caminho de Tom e precisam ser “apagados”.
O roteiro deixa de ser apenas sobre ganância e um golpe bem elaborado, inserindo uma trama policial, na qual Tom é obrigado a ser, simultaneamente, ele mesmo e Philippe. O protagonista precisa estar em uma cidade para enviar cartas mentirosas para Marge e em outra para atender os detetives que desejam encontrar o “desaparecido”, principal suspeito pelo assassinato de Freddy – um dos personagens “apagados”. Tom vai além do esperado, se adapta aos percalços que surgem, o que pouco importa, seu único intuito é sair com todo o dinheiro. O trabalho artesanal que realiza para falsificar o passaporte e a assinatura são dignos de um homem obstinado e talentoso, que está um passo à frente daqueles que o perseguem. Não à toa, somente o espectador tem noção do que está acontecendo. Quando Tom percebe que, em algum momento, as constantes idas e vindas ficarão evidentes, decide assinar uma “carta de suicídio”, deixando todas as suas posses para Marge. No pouco tempo em que vemos o casal junto, notamos que Philippe não nutre um afeto maior pela namorada, inclusive menospreza o seu trabalho, expondo sua total falta de sensibilidade e personalidade egocêntrica e mimada.
Tom se aproveita da vulnerabilidade de Marge, que havia se aproximado dele nos últimos dias e a seduz; diferentemente, do amigo, com muita calma e carinho. O protagonista não precisava mais forjar uma identidade, sua nova parceira era, por direito, a herdeira da riqueza que sempre desejou. O plano é executado com um raro brilhantismo, todavia, chegamos ao desfecho. Não direi o que acontece, apenas elogiarei a inteligência do diretor, que, mesmo optando por uma interessante reviravolta, não deixa o espectador ver Tom em maus lençóis. Sua imagem irretocável é mantida em nossas mentes.
“Plein Soleil” é um dos filmes mais exuberantes que já assisti. Rodado na Itália, a fotografia explora as belas paisagens de diferentes cidades. Os tons quentes não estão exclusivamente a serviço da estética, também cumprem uma função importante: ainda que seja difícil de admitir, torcemos por Tom desde o início. Ele é o “nosso herói” e sua trajetória é movida por sucesso. Claro que a tonalidade muda em sequências mais tensas e “perigosas”, no entanto, a essência vibrante e aprazível é mantida quase que inteiramente. As cores usadas nos créditos iniciais para caracterizar os personagens são perfeitamente inseridas. Verde para Tom – misterioso, cerebral, trocas constantes de identidade -, vermelho para Philippe – morto brutalmente -, roxo para Marge – vulnerável e frágil.
A direção de arte acerta principalmente nos espaços em que o protagonista se encontra – luxuosos e grandiosos. Quieto e falsamente cordial, ele se infiltra onde deseja viver. O contraste entre o barco e a imensidão do oceano é simbólico – Philippe pode humilhá-lo, mas quem “vence a guerra” é Tom. Quando a polícia fica em sua cola, ele se muda para um apartamento simples – pequeno, cores frias -, assumindo um papel, já que os quartos de hotel em que ficava faziam jus a sua ambição e ganância.
A não ser no período em que Marge se encontra solitária e deprimida – o que rapidamente passa -, os figurinos são leves e abertos, reforçando o calor italiano e a agilidade da trama.
A trilha sonora é igualmente insinuante e bela, complementando magnificamente o visual e a história que está sendo contada.
Os quadros concebidos por René Clement são magistrais – seu ápice é justamente em Taormina, onde o assassinato acontece. Ele apresenta a Itália e sua diversidade, enfatizando paisagens exuberantes, mares límpidos, arquiteturas antigas e praças movimentadas. Clement se mostra bastante sábio ao construir tensão de uma maneira sutil e sugestiva. Close ups e planos-detalhe surgem nos momentos ideais, como, por exemplo, quando Tom precisa convencer alguém com seu passaporte falsificado e quando a faca que ele utiliza para matar Philippe é rapidamente destacada.
Os artifícios são os mesmos para ressaltar a aproximação entre personagens e igualmente eficientes. Sabemos que Marge se encantou por Tom, não por palavras declamadas, mas pela intensidade dos quadros e dos olhares.
Vale destacar a forma delicada que Clement a introduz – tocando suavemente um violão -, salientando sua natureza insegura e sensível.
O diretor também arquiteta formidáveis sequências de fuga; monta cenários angustiantes, colocando o protagonista em inferioridade numérica. Algumas vezes pensamos que não haverá escapatória, entretanto, o diretor consegue manter Tom à frente dos demais sem perder a lógica espacial.
Dito isso, quem realmente carrega o filme é Alain Delon, que vive o protagonista como um jovem charmoso, manipulador, calculista e carismático. O ator oferece uma performance riquíssima, calcada na farsa, na presença de várias personas. Tom é imaturo, engraçado, inteligente, ganancioso, seguro e sedutor. Nenhum empecilho é impossível de ser driblado. Sabemos exatamente quando ele está interpretando um personagem e quando reage genuinamente a uma situação – medo e surpresa, principalmente. Nos tornamos próximos de Tom, seus cúmplices e não podemos negar, como mencionei acima: por mais canalha que seja, o adoramos.
“Plein Soleil” é uma obra marcante por seu visual, performance central e trama elaborada. Um filmaço que precisa ser redescoberto.

