Ron Fricke (2011)
Em 1982, Godfrey Reggio lançou “Koyaanisqatsi”, um documentário experimental sobre um mundo se desintegrando, num processo de criação e destruição do universo; de expansão e exploração de novos espaços. O filme é um fluxo constante de imagens, sem diálogos, apresentadas em diferentes ritmos, amparadas pela trilha sonora labiríntica de Philip Glass. Ron Fricke, montador, diretor de fotografia e roteirista de “Koyaanisqatsi”, iniciou a carreira na direção em 1985, com “Chronos”. Em 2011, ele lançou “Samsara”, provando ser capaz de fazer algo tão provocador, complexo e belo quanto Reggio.
No budismo, o termo “Samsara” significa uma série ininterrupta de mutações a que a vida é submetida; uma espécie de ronda infernal de que o indivíduo só se liberta quando alcança o nirvana. Em outras palavras, trata-se do constante devir: um encadeamento trágico de causas e efeitos que se prolonga indefinidamente, conduzindo sempre ao sofrimento e à dor. É essencial entender tal conceito para compreender o filme? Não, até porque “Samsara”, antes de ser racionalizado, deve ser sentido. É uma dessas experiências sensoriais raríssimas. Todavia, Fricke amarra sua narrativa (se é que podemos dizer que há uma) a esse princípio budista. Existe um arco muito bem definido, indo do sublime, do sagrado e da natureza ao caos urbano, ao processo global de industrialização e à violência, retornando, no fim, ao início – a ideia de um ciclo eterno. Fricke trabalha com contrastes e assimilações; sua montagem está sempre elaborando discursos, provocando o espectador com transições fortíssimas.
O mundo apresenta diferenças culturais, geográficas, demográficas e políticas; no entanto, dentro dessas diferenças sistêmicas, existe um padrão: as religiões, por mais distintas que sejam, são colocadas num patamar celestial. O mesmo vale para a natureza: países diferentes trazem consigo belezas diferentes e igualmente hipnotizantes. Indonésia, Egito, Tailândia, Índia, Myanmar, Japão, China, Namíbia, Turquia, Mali, Brasil, Estados Unidos, Itália, França, Etiópia… a partir dos contrastes, Fricke cria, ao mesmo tempo, uma unidade e um universo de possibilidades. São imagens lindíssimas de paisagens que eu, muito provavelmente, nunca verei pessoalmente. Da destruição causada pelo furacão Katrina, em Nova Orleans, ele nos leva ao Palácio de Versalhes, detalhando seus cristais e paredes em dourado. Vamos do intimismo do batismo, relacionado ao nascimento, à colossal Notre Dame, de Reims, exposta por meio de contra-plongées. Na primeira parte, Fricke estabelece um tom etéreo, uma paz que invade a alma do espectador – algo traduzido pela trilha sonora, que remete a uma meditação.
A primeira “reviravolta” ocorre quando estamos diante de uma tribo etíope, observando costumes, vestimentas e rostos com muita minúcia, até que, repentinamente, somos transportados para a agitação urbana – da calmaria ao conflito. O mundo mudou, do Ocidente ao Oriente; dos Estados Unidos à China e ao Japão. Computadores, salas de trabalho que evidenciam o fenômeno da padronização, avanço tecnológico capaz de produzir réplicas humanas, os monumentos artificiais de Dubai e Abu Dhabi, shoppings, metrôs abarrotados, produção em larga escala, lixo eletrônico, crueldade animal… Fricke é um poeta visual. A partir da aceleração das imagens e da câmera lenta, ele destaca o frenesi, a autodestruição e a banalidade do cotidiano robotizado – a trilha sonora está sempre em sincronia com o ritmo visual. A civilização abandonou a pureza, abraçando prazeres imediatos e estímulos vazios. O mundo se expande. Sem espaço suficiente, alguns lugares crescem verticalmente, resultando em favelas de dimensões impressionantes. Do cemitério, vamos a uma fábrica de armas de fogo – a montagem é o meio pelo qual Fricke questiona e impõe sua visão. Em determinado momento, vemos, por meio de time lapse, pessoas devorando hambúrgueres e bebendo refrigerantes em um restaurante de fast-food; o corte seguinte nos direciona a uma consulta na qual o médico atende um paciente com obesidade.
Fricke fomenta um ritmo propositalmente desconfortável, guiando o espectador pela modernidade. O retorno ao sagrado é conceitual. O deserto, em sua vastidão, sintetiza perfeitamente o que acabamos de assistir e o caráter cíclico adotado pelo cineasta. “Samsara” é um filme ambicioso, de temas inesgotáveis, mas sua dimensão essencial é a experiência audiovisual. Fricke viaja pelo universo para nos lembrar a verdadeira essência do cinema.




