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A Short Film About Love (Krótki film o miłości, 1988)

“Não Amarás” é uma extensão do “Decálogo VI” – o mesmo ocorre com o “Decálogo V”, mais conhecido como “Não Matarás”. Kieslowski é um dos grandes pensadores da sétima arte. Seus filmes rejeitam rótulos simplistas, examinando o que há de mais verdadeiro e complexo na alma humana. “Não Amarás” é um prato cheio para os moralistas de plantão, que, em seus computadores ou cadernos, proferem condenações, não análises. O pensamento crítico exige um pouco de sofisticação e, principalmente, empatia. 

Kieslowski abre a narrativa com Tomek dormindo. Em outros filmes, isso talvez não significasse nada; todavia, aqui, dialoga com o caráter idealizador do protagonista. O sonho é um combustível, onde as coisas soam concretas e nos enchem de emoção. Solitário, Tomek mora com a mãe de seu único amigo, que está viajando. Ele trabalha nos correios, não tem grandes ambições e gosta de estudar línguas, num gesto que denota desconexão com o meio que habita. Seu único momento de prazer acontece em seu quarto, quando observa, por uma luneta, Magda, a vizinha do prédio da frente. É como uma sessão pornográfica? Não, Tomek usa o voyeurismo para potencializar suas fantasias amorosas. Magda é a receptora, a mulher que materializa suas idealizações. Claro que as ligações misteriosas, as interceptações de cartas e as notificações falsas são condenáveis, mas partem da ingenuidade de um jovem que está descobrindo as nuances da vida. Não à toa, enquanto ele observa sua musa, a trilha sonora evoca uma delicadeza que conversa com seu universo interior. Aquela é a sua visão subjetiva e singular de uma mulher que não conhece. 

“Por que as pessoas choram?”, Tomek pergunta à mãe do amigo. Esse é um momento definitivo, pois, em outras palavras, ela basicamente diz que a trajetória humana é um acúmulo de dores; queimamos o braço para esquecermos a dor de dente. Por esse ponto de vista, Tomek é quase um recém-nascido. Seu arco é sobre dores e desilusões irreversíveis. Magda, como acompanhamos pela luneta do protagonista, é uma mulher ferida pela convivência com homens tóxicos, que a visitam com intuitos estritamente carnais. Seu cinismo é um remédio que protege suas cicatrizes. O soco que um dos amantes de Magda dá em Tomek representa um marco inicial. Trata-se de uma ferida superficial, que, em poucos dias, passará. Cansado da distância e do terreno onírico, o protagonista, até para se explicar e provar que não é um tarado, decide se abrir para Magda. Obviamente, não é um movimento simples. Pressionado por ela, Tomek corre até o terraço e pressiona blocos de gelo sobre suas orelhas – uma forma linda que Kieslowski encontra para representar o respiro e a busca por coragem do personagem. Ele a convida para tomar sorvete. O diretor, então, corta para um plano acelerado de Tomek correndo, numa reação espontânea de pura alegria. 

Os figurinos são bastante reveladores. A formalidade de Tomek dialoga com seu nervosismo e inocência; enquanto o estilo despojado e solto de Magda reforça o fato de ela já ter estado naquela posição dezenas de vezes. As intenções são opostas. Tomek está ali para conversar e aproveitar o momento; Magda quer desmascará-lo, provando seu ponto de que o amor é uma mentira. Os toques físicos são distintos. Ele deseja entender o significado de algo tão íntimo, sem precipitações; ela pretende constrangê-lo, tornando tudo impessoal e descartável. Magda vence. O vermelho da poltrona, do quadro, da cama, do vidro do corredor e do pano que cobre a luneta é, também, o vermelho do sangue. É como se, naquela bacia cheia d’água, inundada de sangue, o amor que dominava Tomek escorresse para longe, morrendo diante de nossos olhos. Agora, sim, sua alma foi ferida, marcada para a eternidade. Sua noção fundamental foi subvertida e esse é um motivo forte o bastante para dar adeus. Magda, então, percebe que não estava diante de um pervertido, mas de uma raridade. Ele falava a verdade. Magda, que havia sido ferida no passado, feriu aquele que ainda prezava pela pureza. Ela passa a ser a voyeur; ela idealiza cenários em que seu choro é afagado pelo único que demonstrou carinho. Kieslowski ressalta seu arrependimento em enquadramentos nos quais a vemos encolhida, numa posição de dor extrema. Magda queria ter um Tomek para si; só duvidava de sua existência. 

Olaf Lubaszenko oferece uma performance contida, repleta de pequenas intenções veladas. Há nervosismo, ansiedade e ingenuidade em seus gestos. Seu rosto e sua entonação não mudam, refletindo a frieza polonesa. O mais fascinante no trabalho de Lubaszenko é o fato de conseguir trazer à superfície sentimentos que seu personagem está conhecendo. 

“Não Amarás” é uma obra-prima que precisa ser vista e revista inúmeras vezes. Kieslowski é, para mim, mais do que um diretor: um professor que eu nunca tive.

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