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Tony Scott tem um histórico de elevar materiais base. Seu talento enquanto encenador da adrenalina e do calor potencializa roteiros que, em “mãos comuns”, não seriam tratados com a mesma astúcia. “Déjà Vu” é um caso à parte.

Munido de um conceito interessantíssimo e por uma trama de caminhos sinuosos, Scott nos presenteia com algo realmente especial. A explosão de uma balsa acarreta a morte de mais de 500 pessoas. Doug Carlin, agente da ATF (escritório de álcool, tabaco, armas de fogo e explosivos), é chamado para a cena do crime. Devido à sua perspicácia para enxergar elementos ocultos, Paul Pryzwarra, do FBI, convida-o para participar de uma equipe especial de investigação. 

Em “Enemy of the State”, Scott já havia apontado o dedo para a privacidade invadida pelo Estado. Aqui, eles utilizam um programa chamado “Snow White” que, teoricamente, provê imagens via satélite de quatro dias atrás. Por meio de uma análise paciente e criteriosa, o time não terá problema para encontrar o responsável pelo atentado. Doug tem informações de que Claire Kuchever, uma das vítimas, foi morta antes da explosão e jogada no fundo da baía para mascarar outro crime. Acompanhar seus últimos dias talvez seja a resposta para chegar ao terrorista. Doug, sempre atento, percebe que aquilo não é uma gravação, mas o passado acontecendo em tempo real. O passado é mutável? Isso não seria como “brincar de Deus”? A tecnologia avançou tanto que é possível trazer pessoas de volta à vida? As possibilidades de discussão são inúmeras; todavia, há um outro elemento que transforma a narrativa: o amor. Quando vamos ao cinema e paramos diante daquela enorme tela, deixamos as emoções fluírem de uma forma diferente. Ficamos mais vulneráveis, suscetíveis a novas experiências. Podemos, inclusive, nos apaixonar. É o que acontece com Doug. Ao se deparar com Claire, o protagonista fica hipnotizado, o que poderia soar estranho se Denzel Washington não fosse tão sutil em sua expressividade. 

A dinâmica entre Doug e os especialistas do FBI é particularmente engraçada. O protagonista representa o espectador, tentando colocar em palavras humanamente compreensíveis as nuances da nova tecnologia. Na sala de monitoramento, Scott evita uma queda no ritmo, conferindo tensão e agilidade às interações – a câmera, a montagem e a trilha sonora são os motores pulsantes da narrativa. O diretor opta por muitos close ups, trazendo o espectador para uma realidade de pressão constante e ressaltando a atenção aos mínimos detalhes. Denzel (permitam-me chamá-lo pelo primeiro nome) é quem tem mais espaço para trabalhar com uma dualidade maior. Suas falas são sempre voltadas para as estratégias, mas uma mínima mudança na expressão facial é suficiente para ressignificar o filme. A fotografia não esconde seu fascínio pelo calor, privilegiando o amarelo e o laranja. Não se trata apenas de um fetiche estético de Scott, associado à “alta temperatura”; tais tonalidades fomentam um grau de urgência maior, servindo ao suspense e à ideia de “emoções à flor da pele” – Doug está numa missão muito particular. Scott aproveita o conceito de ficção científica para elaborar sequências de ação ousadas. Em uma delas, o protagonista, no presente, persegue um carro no passado – sim, parece bizarro, mas é estruturado com nitidez. Em outro momento, valendo-se da montagem paralela, o cineasta brinca com a lógica temporal: Carroll Oerstadt, o vilão, está em câmera lenta, enquanto Doug, a milhão, tenta encontrá-lo. 

Quanto mais nos aproximamos do desfecho, mais notamos o êxito de Scott. Guiado pelo ótimo roteiro (Terry Rossio), ele consegue conciliar ação, suspense, ficção científica e romance sem que uma das pontas fique desequilibrada. Há ainda o cuidado para surpreender o espectador e para realizar uma rima com a música que toca no início – evitando exposições baratas, a letra diz aos personagens o que fazer. Qualquer “problema” do roteiro em sua arquitetura conceitual é manejado por Scott. Seus filmes são manifestações artísticas do mais alto calão. É difícil encontrar um diretor tão preocupado com sua visão autoral no cinema popular contemporâneo. Denzel é uma máquina de carisma. Ao surgir em tela, a primeira impressão é de que já o vimos nesse papel antes; no entanto, ele não demora a dimensionar a singularidade do protagonista. O elenco ainda conta com Val Kilmer, Paula Patton, Bruce Greenwood e Jim Caviezel.

“Déjà Vu” é, como praticamente tudo que Tony Scott dirigiu, uma obra que merece um reconhecimento maior.

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