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“Red Dawn” inicia com imagens de uma bela e tranquila cidade nos Estados Unidos. Na sala de aula, durante a aula de história, há uma caricatura de Gengis Khan. Repentinamente, vemos, ao fundo, um grupo de paraquedistas e fumaça vermelha. Inicia-se, então, um fuzilamento. Os comunistas invadem o território e matam pessoas de todas as idades. Se o cinema é, por natureza, político, eu aplaudo a iniciativa de John Milius. Muitos Oliver Stone’s e Godard’s foram laureados por enaltecer um lado específico.

E o outro? O cinema é a arte da empatia; é a chance de observar diferentes espectros e abraçar novas conclusões (ou não). Milius, um conservador assumido, fez um filme que contempla tudo aquilo que o encanta. Um filme adolescente de guerra – somente a década de 80 poderia nos presentear com algo tão característico assim. 

Milius é fascinado por líderes fortes, pela resistência armada e por jovens que, guiados pela lealdade e pela amizade, lutam por sobrevivência. De um ponto de vista narrativo, a apresentação do inimigo não poderia ser mais impactante e certeira. De imediato, sabemos para quem torcer. Os comunistas são os invasores perigosos, que estão ali para tomar uma terra alheia e impor sua ideologia brutalmente. Os garotos que sobrevivem ao ataque na escola são os nossos heróis. Milius está lidando com personagens forjados pela dor do luto, pelo medo e pela violência. Esconder-se e pegar em armas de fogo passa a ser a única opção. “Vinguem-se por mim”, diz o pai de Jed e Matt. Eles estão lutando pela honra de seus familiares e do próprio país. A guerra, para Milius, é o grande criador de mitos e heróis. A guerra forja o caráter dos mais nobres e coloca aqueles que se doaram ao máximo numa esteira direto para o paraíso. “Não tenho mais ninguém”, afirma Robert, após descobrir o que aconteceu com seus pais. A guerra forma novas famílias e estabelece laços. Ao longo dos meses, acompanhamos uma transformação considerável, traduzida pela expressão facial dos personagens e por suas vestimentas, sempre adequadas às mudanças climáticas. 

Milius, herdeiro do cinema clássico americano, forma uma lógica visual muito interessante. Entre as imagens da cidade tomada pelos comunistas, com direito a cartazes e tanques que bloqueiam as ruas, temos planos exuberantes da natureza – como se o diretor admirasse a força de seus personagens. Em muitos sentidos, “Red Dawn” se assemelha a um projeto de John Ford. O escopo da ação, o destaque para a natureza em belos planos abertos, a presença de cavalos, o heroísmo americano… Milius faz um tributo ao seu mestre. Mas a guerra para no âmbito do orgulho? Não, o filme aborda a dualidade do belicismo, apresentando a tragédia e a melancolia inerentes a ele. Alguns irmãos dão adeus. Todavia, no fim, o que fica são os livros, os monumentos e as placas. Aqueles garotos, por sua bravura e capacidade de se adaptar à adversidade, entraram para a história, impedindo um mal maior. Milius não tem vergonha de dizer aquilo que pensa e de irritar boa parte de seus colegas de Hollywood. Aqueles são seus alicerces. Milius não faz um tratado político; seu filme é, antes de qualquer coisa, palatável e envolvente, como os grandes filmes adolescentes que foram lançados naquela década. As ideias podem ser agressivas para alguns, mas é difícil ignorar a competente construção dos personagens, seus relacionamentos e a teia emocional que os envolve. 

Milius, pensando no tamanho de uma hipotética Terceira Guerra Mundial, organiza sequências épicas, saindo do simples confronto armado e partindo para explosões monumentais, com ruas tomadas por fumaça escura e fogo. A trilha sonora é especialmente perspicaz por conciliar ideias distintas: sentimos o orgulho dos guerrilheiros e o tom juvenil da obra. O elenco conta com a nata da geração: Patrick Swayze, Charlie Sheen, C. Thomas Howell, Lea Thompson e Jennifer Grey. Swayze e Sheen apresentam uma forte química como irmãos, mas é Howell quem atravessa o arco de maior destaque. 

“Red Dawn” é o cinema conservador em estado de graça. John Milius faz falta na atual conjuntura.

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