Antes de qualquer coisa, eu gostaria de agradecer aos grandes mestres do cinema coreano (Park Chan-wook, Lee Chang-dong, Na Hong-jin, Kim Jee-woon…) por oferecer experiências tão singulares, que combinam violência, melancolia e poesia. Eles parecem entender o lado trágico da condição humana melhor do que os demais. Há uma honestidade diferente nestes filmes, que nega qualquer tipo de tabu.
Em “Pietá”, de Kim Ki-duk, a primeira imagem é a de um gancho – um cartão de visita para aquilo que já sabemos que os coreanos são capazes. Ki-duk, conhecido por suas obras dotadas de lirismo, como “3-Iron” e “Spring, Summer, Fall, Winter… and Spring”, investe no realismo. O diretor estabelece uma forte noção cotidiana, ressaltando o estado quase fantasmagórico do protagonista. Em alguns momentos, ele abre o plano, expondo o vazio sentido por Gang-do. Ki-duk também opta por zooms pouco convencionais, que servem a essa crueza explorada. Gang-do, após uma polução noturna, acorda com naturalidade. Seus movimentos são pragmáticos, sem entusiasmo. Sua alta estatura e a roupa escura elaboram o mito da inexistência, da solidão como um mantra constante. Seu trabalho consiste em quebrar ossos daqueles que devem a agiotas. Gang-do pouco fala, são suas ações que assustam as vítimas. “Inválidos”, os devedores pagam suas dívidas com o valor do seguro de saúde. O protagonista não sente pena; afinal, seu coração é imune a emoções. Sua vida sofre uma reviravolta quando uma mulher começa a persegui-lo, chegando a invadir sua casa e a limpar a louça. Mi-sun afirma ser a mãe que o abandonou durante a infância. Culpada, ela se coloca à sua disposição, a fim de iniciar uma relação maternal. A princípio, confuso, Gang-do reage furioso, agredindo-a física e sexualmente. Dito isso, após a insistência contínua de Mi-sun, o protagonista começa a abraçar a ideia de ter por perto alguém que o ame e o proteja.
Ki-duk realiza um estudo sobre órfãos de afeto. Gang-do é uma vítima de sua realidade. É justo pedir empatia de um jovem que nunca teve familiares, amigos ou interesses românticos? Ele perambula por aí, sobrevivendo com as armas que lhe restam. A violência é uma forma de expressar o descaso que o mundo demonstra por ele. A mãe, neste caso, é a figura vital, a protetora, a amiga, a fonte de segurança. O coelho solitário, atropelado por um carro, representa a tortuosa trajetória do protagonista, que não gostaria de ser aquilo que se tornou. A falta da figura materna é tão sentida por Gang-do, que no centro de um alvo que tem na sua sala, fica um desenho de uma mulher desnuda, presa por uma faca. Mi-sun, para provar sua identidade, aceita o papel de mártir. Os cenários são de uma crueza que dialoga com a estrutura rígida da narrativa. As ruas são tomadas por lixo e tons frios, que se estendem à bagunçada casa do protagonista. Pietá, obra de Michelangelo, é um símbolo de compaixão, amor materno e ressurreição – aqui está o arco de Gang-do, que, aos poucos, apresenta um lado que estava morto dentro de si. Em um plano aberto, vemos uma multidão na rua. Ali, entre as várias pessoas, estão Gang-do e Mi-sun, como mãe e filho, seres afetuosos em busca de uma tarde harmoniosa. Em seu renascimento, o protagonista demonstra traços infantis, que não lhe foram permitidos na idade “certa”. Trabalhando para homens que visam, exclusivamente, o dinheiro, Gang-do percebe que a vida é uma dádiva. Ódio, ciúme, vingança, honra, fúria, morte… esses são os verdadeiros rostos do dinheiro num mundo brutal.
“Estou com medo de que você suma de repente. Não posso sobreviver sozinho de novo”. O roteiro aposta em subversões certeiras, surpreendendo o espectador e dando toques trágicos à narrativa. Gang-do atravessa um arco de reavaliar sua “profissão”, sendo obrigado (sem maiores spoilers) a ver a condição daqueles que feriu. São pessoas, em sua maioria, que não podem mais trabalhar, que perderam o respeito por si e que vivem em situações precárias – uma jornada doída, de reflexão, autoconhecimento e empatia. A cada momento que fica longe de Mi-sun, Gang-do se fragiliza mais, como uma criança que se perdeu no supermercado. A possibilidade de perdê-la é insuportável. No fim, a ideia da Pietá colide com a vingança, um dos temas favoritos dos coreanos. Ki-duk amarra tudo de uma forma tão orgânica, que, ao subir dos créditos, mesmo sem qualquer catarse imagética, a sensação que fica é de uma dor descomunal.
Cho Min-soo, numa performance silenciosa, evoca uma figura paradoxal; sem dúvida alguma, transformadora. Lee Jun-jin está sensacional, indo da imponência mortificada a uma vulnerabilidade tocante. “Pietá” não venceu o Leão de Ouro à toa. Trata-se de uma obra prima.




