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Dia D (2026)

Na crítica de “Body Double”, eu escrevi que aquele era o filme mais “De Palma” da carreira do Brian De Palma. O mesmo vale para Disclosure Day e Steven Spielberg. Ao longo de sua carreira, Spielberg demonstrou um fascínio por alienígenas. Em seu novo projeto, o mestre retoma às origens, remetendo a “E.T.” e, principalmente, a “Close Encounters”. Nestes clássicos, Spielberg enxergava uma beleza desconcertante nos visitantes, algo capaz de mudar a forma como os humanos enxergam o mundo e a si. “Disclosure Day” é a sua carta de amor definitiva a esses seres que ele gostaria tanto de ver.

Ao descobrir que a Wardex, uma empresa de alta tecnologia e inteligência, guarda informações sigilosas sobre exploração extraterrestre na Terra, David Kellner decide roubar esses documentos e revelá-los ao mundo inteiro. Spielberg, um jovem de 79 anos, demonstra uma vitalidade invejável, elaborando uma perseguição atrás da outra. É fascinante como ele consegue trabalhar o macro e o micro nestas sequências. Enquanto Kellner atravessa uma casa com o carro e quase cai de um penhasco, Spielberg tem cuidado para estabelecer uma tensão extra, direcionando nosso olhar, por exemplo, a uma faca que pode atingi-lo. Um dos momentos mais marcantes envolve uma perseguição em que os personagens principais precisam saltar de um carro para um trem em movimento – é algo que De Palma e Tom Cruise, em seus auges, fariam. Spielberg evita que tais sequências se arrastem demais ou que se tornem visualmente confusas. O filme não depende só do frenesi para ser tenso; a câmera, por vezes, emula o nervosismo dos personagens, seguindo-os com pressa e desenvoltura. O líder da Wardex, interpretado pelo ótimo Colin Firth, é um homem poderoso, que guarda uma humanidade dentro de si, mas que não mede esforços para atingir seus objetivos. Sua visão é clara: os humanos estão prontos para uma revelação desta magnitude? E a crença em Deus? Será abalada com a presença de seres realmente celestiais? Sua roupa escura e o fato de estar, invariavelmente, numa posição central no enquadramento, servem à construção de sua imponência. Kellner, por sua vez, é um idealista, alguém que acredita no poder da verdade, embora este possa colocar Jane, sua amada, em risco. Ele não está sozinho. Outros ex-funcionários da Wardex, chefiados por Hugo, vivido por Colman Domingo, ao terem acesso aos documentos, uniram-se e montaram um grupo secreto. 

Margaret Fairchild, uma meteorologista, durante o jornal local, começa a falar em uma linguagem estranha, que não faz sentido algum. Ela é a luz da narrativa, incrementando novos temperos ao frenesi de ação e suspense. A princípio, Margaret é apenas uma jornalista ambiciosa e ansiosa; no entanto, ao receber a visita de um canário vermelho, algo é despertado em seu organismo. A protagonista começa a entender as mais variadas línguas, a ler as angústias das pessoas e a permitir que elas vejam algo belo de seu passado. Emily Blunt, na melhor performance de sua carreira, encontra o equilíbrio perfeito entre a comédia de toques Screwball e o peso dramático. Sua personagem não entende o que está acontecendo e esse conflito é brilhantemente explorado através de trejeitos e da fala acelerada – lembra um pouco Barbra Streisand, em “What’s Up, Doc?”, de Peter Bogdanovich. Seu arco é minucioso, indo da perplexidade e da confusão à aceitação e ao entendimento de seu propósito. Margaret e Kellner possuem uma conexão, fomentada anos atrás, ainda na infância. Os poderes de ambos – Kellner traduz a linguagem alienígena para a matemática – são frutos de uma antiga visita. Eles não conseguem se lembrar de nada que aconteceu antes deste encontro; mal se recordam de seus pais ou de qualquer memória de quando eram crianças. 

Spielberg e o roteirista David Koepp, novamente, amarram o macro e o micro. Ao mesmo tempo em que ansiamos pela grande revelação, queremos que estes personagens se deparam com imagens que lhes foram negadas e que tenham um vislumbre de autoconhecimento. Eles foram escolhidos para serem a ponte entre universos distantes, mas não tão diferentes assim. Margaret é, no fundo, dotada de empatia, um olhar encantador que mira a alma alheia. Os verdadeiros vilões são os humanos, que, por medo do desconhecido e pela obsessão por controle, não permitem que os terráqueos se expressem. Talvez precisemos de uma outra espécie para reacender uma bondade que se perdeu em períodos sombrios, de guerra, polarização e ódio. Diferentemente da maioria dos filmes de Spielberg, este se passa no presente, o que reforça a necessidade de recalcularmos certas rotas. Por que aquilo que é diferente desperta tanto medo e insegurança? Spielberg, com seus toques que flertam com a fantasia, promove uma verdadeira experiência cinematográfica. A fotografia cria um universo cinza, de sombras que conversam com o anonimato, e subverte tal atmosfera num momento chave, no qual a luz é intensa e emana esperança. John Williams, preciso como sempre, aposta em temas “menores”, que guiam o espectador por labirintos de tensão. Josh O’Connor reafirma o posto de talento geracional, sendo capaz de segurar a barra na ação sem perder a sensibilidade que torna seu personagem tão altruísta. Emily Blunt, além do que já foi citado, impressiona por conseguir, em meio à sua turbulenta performance, demonstrar medo e vulnerabilidade. 

“Disclosure Day” é o tipo de filme que deve ser visto no cinema. Spielberg, pela enésima vez, comove o espectador com sua magia e olhar humanista.

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