Christian Petzold é um cineasta essencialmente alemão. Seus filmes, em maior ou menor grau, discutem, em seu subtexto, questões políticas do país. Seus protagonistas dialogam com tais questões, personificando as ruínas germânicas. “Yella”, como a maioria de seus projetos, é uma experiência inquietante, na qual Petzold, principalmente no início, levanta uma série de dúvidas.
Ben persegue Yella, sua ex-mulher, e, numa sequência à lá “Vanilla Sky”, decide pôr fim na vida de ambos, atirando o carro num rio. A protagonista, com planos de deixar Wittenberg, sobrevive e segue para Hannover, onde pretende construir uma carreira mais lucrativa. Lá, ela descobre que o homem que a contratou foi demitido, então começa a ajudar Phillip, um empresário que precisa de alguém com habilidades em contabilidade. Petzold adota um ritmo lento, sem pressa para desenvolver a narrativa, respeitando a personalidade de seus personagens. Sua câmera, naturalista, investe bastante tempo observando Yella, evitando intrusões desnecessárias. Em determinado momento, a partir de um plano estático, vemos ela chegando no quarto do hotel e, aos poucos, desabando emocionalmente, jogando tudo no chão – Petzold confia no seu elenco e na ideia de que, para ser honesto, basta posicionar a câmera no lugar certo.
“Yella” é, entre outras coisas, um estudo sobre solidão e vazio. A protagonista, invariavelmente, aparece cabisbaixa e mantém um baixo registro vocal. Essa é uma ideia que conversa com a principal questão abordada por Petzold: a fuga do pobre oriente para o rico ocidente é a constatação de que, naquela Alemanha, não existe vida em sociedade e que as relações amorosas passaram a se confundir com o êxito profissional. Seu quarto é dominado por cores frias, assim como a cidade, cuja fotografia a registra com uma fina camada acinzentada. “Não o amo mais porque ele está falido”, afirma Yella, que admite ter um peso na consciência. Neste mundo, regido por um capitalismo imoral, as pessoas mal conseguem se expressar sem usar termos como patente ou porcentagem. Se esta fosse uma obra hollywoodiana, Yella e Phillip viveriam uma paixão ardente; todavia, Petzold, que nunca abre concessões às suas convicções artísticas, entende que, caso optasse por algo do tipo, estaria traindo sua construção argumentativa. Percebam que Phillip sempre veste um terno elegante, reforçando que seu cargo é, na verdade, sua persona. Ser empresário faz parte de seu modo de enxergar o mundo e, se for preciso, não há problema em assumir falcatruas. Petzold explora a morbidez e a “chatice” da Alemanha moderna em várias sequências que se passam em salas de reunião.
Neste mundo, tão vazio em valores, Ben, o marido agressivo, por incrível que pareça, é o único que demonstra algo além de uma apatia fantasmagórica. Ele representa o homem do oriente; pobre em posses e farto em intenções amorosas. Esse embate geográfico o leva à loucura, tornando-o uma ameaça para Yella – a cena em que ele, do nada, no quarto dela, surge das sombras é especialmente arrepiante. A frieza trabalhada por Petzold está em seus enquadramentos “simples”, na maneira como evidencia a solidão de Yella – nesse sentido, o uso da baixa profundidade de campo é importante – e como retrata as interações entre Phillip e a protagonista. Enquanto parceiros de negócios, há uma sinergia quase ardilosa, que, num momento derradeiro, descamba para a desumanidade; no entanto, quando estão no hotel, a sensação é de que eles não sabem o que fazer. Até existe um interesse mútuo, mas ambos investiram tanto no lado comercial, que perderam o emocional. Em “Yella”, o conceito de sociedade fica estremecido, o que é ressaltado pelas ruas vazias; a ganância e o egoísmo se sobrepuseram; a Alemanha está numa fase de novas tendências, de descobrir que é capaz de habitar cadáveres vivos.
A experiência de “quase morte”, dá a Yella a capacidade de escutar vozes e zumbidos estranhos, potencializados pelo design de som. Petzold, em sua crítica ao capitalismo, e abordagem naturalista, combina elementos sobrenaturais, quase como um thriller de baixa voltagem. A natureza, destacada pelo cineasta, ganha contornos sinistros, ao mesmo tempo em que emana tranquilidade. Por incrível que pareça, o elemento que mais me fascinou foi a roupa vermelha de Yella, presente em todas as ocasiões. Por que uma mulher tão melancólica e assustada opta por uma cor tão intensa, contrastando com o restante do universo idealizado por Petzold? Talvez seja um constante lembrete de que, antes de ir ao ocidente, ela tinha princípios mais simples e sentimentais; talvez seja a afirmação de que, para se sentir completa, precisa, a qualquer custo, de dinheiro.
O desfecho, corajoso e surpreendente, nos leva a novas reflexões: como deve ser triste perceber que perdeu o controle sobre si e que se tornou aquilo que rejeitava – seu arco está em sintonia com o do próprio país, algo costumeiro na filmografia de Petzold. Nina Hoss é uma atriz magnífica. Seu minimalismo transmite tristeza e curiosidade. Tentar compreender sua mente é um dos grandes baratos do filme. “Yella” é a prova de que, com Christian Petzold, o cinema alemão está em boas mãos.



