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Eu não era nascido em 1983, então não sei como o público reagiu a “The Right Stuff”. Que filmaço. Que dedicação de Philip Kaufman para oferecer ao espectador um espetáculo que reúne todas as virtudes de um grande entretenimento e que consegue, na mesma medida, exaltar e criticar. O filme se passa no período da corrida espacial, quando os americanos, orientados por sua natureza predatória, decidiu que, para dar outro passo rumo ao domínio do universo, precisava ser o primeiro país a chegar ao espaço. Do outro lado, os soviéticos, com menos recursos e o seu Sputnik, chegaram antes.

Ao longo de seus mais de 180 minutos, “The Right Stuff” nos introduz a uma série de personagens. Chuck Yeager, da Força Aérea Americana, é o piloto que abre e conduz a narrativa. Em uma era de heróis modernos, fomentados pelo poderio da mídia e do governo americano, Yeager é o herói original. Ele voa pela paixão de desbravar a barreira do som e de provar sua velocidade. Os holofotes não o impressionam; ele se mantém sereno e focado, atento ao que realmente importa. Sua vida está naquela base desértica, que remete a um cenário Western. Yeager só precisa de Glennis, sua esposa, alguns aviões supersônicos, um bar e um par de cavalos. Tal ideia é representada em uma bela fusão, na qual vamos do copo de cerveja ao avião. Yeager não veste uma máscara; aquela é a sua real face. Ele é o tipo de herói que não se encontra mais: nobre no trato e nas ideias, simples nas aspirações e empático, ainda que discreto. Em nenhum momento, vemos uma grande integração entre o protagonista e os demais pilotos; afinal, diferentemente deles, Yeager não se exibe – por isso, ele é considerado uma lenda.

A primeira metade apresenta o “passado” e seus mitos. A partir daí, o “presente” bate à porta, proclama novas leis e cria seus personagens. O espaço central deixa de ser a zona desértica, dando lugar às salas de coletiva, aos noticiários e à base da Nasa. Acompanhamos a disputa de pilotos da Marinha e da Força Aérea pela honra de ser um “eleito”. As sequências na sala do Presidente são o ponto alto de acidez. A começar pela escuridão e pelas sombras que cobrem as autoridades – um claro julgamento moral de Kaufman, que retrata os arquitetos da corrida como vilões inconsequentes. Os cientistas/engenheiros do programa Mercury Seven tinham a ideia de enviar chimpanzés ao espaço, mas Eisenhower é enfático: “O primeiro americano no espaço não será um chimpanzé. Eu quero pilotos de teste”. Esta não é uma afirmação baseada na razão, mas no medo de fracassar e no desejo de vender uma imagem de força e poder. Os jornalistas não apenas entrevistam; eles colocam palavras heróicas na boca de homens que precisam ser idolatrados. O poderio financeiro e publicitário é extensamente abordado por Kaufman, que critica a ganância e a falta de humanidade dos líderes políticos, que, em nenhum momento, pensam no bem-estar dos astronautas.

Dos 56 pilotos, sete se sobressaem: Alan Shepard, John Glenn, Gordon Cooper, Gus Grissom, Deke Slayton, Wally Schirra e Scott Carpenter – o destaque maior é para os quatro primeiros. Homens de personalidades e estilos distintos que entendem que, naquele território, são apenas chimpanzés travestidos de humanos. Eles não vão ao espaço em naves, mas em cápsulas apertadas que, a princípio, nem janela tinham. Eles formam uma unidade, um núcleo firme que não se racha e que, de fato, prima pela bravura. Os testes físicos e psicológicos, dada a urgência e o ineditismo da missão, são extremos e exaustivos, o que é diluído por Kaufman, que capta a essência e o carisma dos astronautas – são nestas cenas que nos envolvemos com o grupo. Por maior que seja a admiração do cineasta por estes sujeitos, eles nunca se tornam unidimensionais. Cooper é convencido e brincalhão, quase um personagem de “American Pie”. Grissom, seu braço direito, também tem seus impulsos de mulherengo e é quem sofre o maior baque emocional na missão. Shepard é uma figuraça. Aficionado por Ed Sullivan, ele poderia cair na caricatura caso não fosse um dos elos mais fortes para a união do grupo. Por fim, John Glenn, o Mr. Perfeito, como sua mulher o descreve, é o compasso moral entre os eleitos. Por vezes, ele é posicionado no centro do quadro, o que salienta sua capacidade de liderança – embora não haja um líder definitivo. O ânimo pela aventura se confunde com a vontade de honrar a pátria, a esposa e os amigos. Qual outra característica está presente nos quatro personagens? O fascínio pela boa publicidade – como mencionei, são os heróis do presente; mais humanos e mais falhos. As esposas, secundárias em suas próprias vidas, ocupam um papel importante na narrativa. Elas são âncoras que mantêm os maridos na superfície; no entanto, podem ser influenciadas pelo glamour de uma vida estrelada. Todas vivem num estado de tremenda impotência, sem ter como controlar o perigo que seus parceiros correm.

A narrativa não abdica de Yeager, que é rejeitado pela Nasa por não ter um diploma de ensino superior. Em paralelo, vemos seu comportamento diante do progresso e dos percalços dos colegas. Temos a chance de chancelar o que já sabíamos, numa sequência que ressalta a exuberância do trabalho de montagem. Enquanto os astronautas celebram numa festa pomposa, Yeager, sozinho, batalha por um novo recorde, lutando contra o ar, provando ser um arquiteto do céu e das aeronaves. Aquele é o caminhar do herói puro que aprendemos a respeitar. Aquele é o nível da façanha que os grandes desbravadores alcançam – e me refiro, também, a Kaufman, que nas sequências de ação, juntamente com o montador e o designer de som, destrincha o macro e o micro. Os planos abertos do espaço são lindos e audazes, mas são os planos-detalhe do hodômetro e os close ups que inspiram a real tensão.

Este é, sem dúvida, um dos trabalhos de casting mais irretocáveis da década de 80. Scott Glenn, Ed Harris, Dennis Quaid e Fred Ward formam um time de carisma inabalável; todavia, eu estaria sendo injusto se não desse um destaque a mais para Sam Shepard, que nasceu para ser o herói clássico, o caubói cool que preza pela honra e pela dignidade; um homem que, no silêncio, revela quão meticuloso e espirituoso é.

“The Right Stuff” é o tipo de entretenimento que só é realizado por cineastas brilhantes.

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