Eu já estou convencido de que Philip Kaufman é capaz de realizar qualquer tipo de filme. Mesmo com uma carreira curta, o diretor responsável por “The Right Stuff” é dono de um amplo domínio da linguagem cinematográfica. “Invasion of the Body Snatchers”, originalmente filmado por Don Siegel, em 1956, é uma história que cativa os mais diversos cineastas americanos. Eu gosto bastante da versão de Abel Ferrara, de 1993, mas confesso que esta, de 1978, é a mais fascinante.
Para começar, o cinema americano setentista, na onda dos escândalos políticos que tomaram conta do país naquele período, produziu obras que refletiam a angústia do povo, com atmosferas soturnas e tramas conspiratórias. Kaufman, atento ao que acontecia, incorpora tais elementos à sua narrativa, que poderia facilmente ter sido conduzida por Alan J. Pakula e Gordon Willis. Para quem não sabe, em “Invasion of the Body Snatchers”, uma espécie alienígena chega à terra com a intenção de dominar os humanos, clonando-os em versões mutantes. Aos poucos, algumas pessoas passam a demonstrar um comportamento peculiar, levando os personagens centrais a crer que estão cercados por impostores. Como saber quem é quem? O que aconteceu com todos? Kaufman elabora uma gradual tensão e uma atmosfera de absoluto estranhamento. O filme, por incrível que pareça, fica mais atual ao passar dos anos; afinal, estamos falando de uma trama na qual ser uma pessoa dotada de individualidades passa a ser raríssimo, um crime. Os alienígenas, em seus casulos, são as redes sociais: um meio de alcançar a padronização absoluta e a ausência de qualquer tipo de emoção. Em determinado momento, um personagem, já transformado, diz que este é um novo mundo, livre de ansiedade, medo, ódio e amor. “A função da vida é a sobrevivência” é uma frase que fere os princípios básicos da trajetória humana.
Elizabeth é a primeira a notar algo errado em seu marido, que começa a se encontrar com pessoas desconhecidas e a agir friamente. Ela, então, fala com Matthew Bennell, colega do Departamento de Saúde, que, a princípio, acredita se tratar de uma questão psiquiátrica. Todavia, na medida em que ele se depara com comportamentos similares, casulos enormes e fetos adultos, a situação muda de figura, dando início a uma ferrenha luta por sobrevivência. David Kibner, amigo de Matthew e psiquiatra, é uma celebridade local, famoso por seus livros e conselhos infalíveis – de certa forma, este é um comentário sobre a instabilidade do país. O povo sente a necessidade de ajustar alguns parafusos. Dito isso, o verdadeiro brilhantismo do filme está na inventividade de Kaufman, que, a partir de uma série de escolhas estéticas, constrói uma atmosfera apavorante e tensa, calcada na dúvida constante. A posição da câmera, por vezes, nos leva a crer que alguém está observando o que está acontecendo. Os close ups sufocam o núcleo principal, dialogando com as intensas sombras que oprimem os humanos. O uso de câmera na mão é exemplar ao fomentar uma certa paranóia e a ideia de que as coisas saíram do eixo. Kaufman, auxiliado por um design de som assombroso, capta a sensação de que seus personagens estão sempre sendo perseguidos. Falando no design de som, é fascinante perceber que a trilha sonora e os sons bizarros são tão inquietantes quanto o silêncio. Os ângulos holandeses acabam sendo marcadores da presença alienígena, indicando os impostores e uma nova ordem. Eu também aprecio brincadeiras visuais, como, por exemplo, aquela em que Matthew e Jack ficam de frente para um espelho que deforma seus corpos.
Como os parasitas se instalam em plantas, a presença do verde passa ser uma ameaça, o que é pontuado pela fotografia, em alguns pontos de luz esverdeada, e pela direção de arte, no spa administrado por Jack e Nancy. Os tons frios e, principalmente, a escuridão, que domina a narrativa, são elementos que minam as possibilidades dos personagens, cada vez mais em desvantagem numérica. Kaufman inicia com a suspeita e a dúvida, introduzindo, na metade do segundo ato, uma ação que escala no clímax. Em meio ao caos e às perseguições, o roteiro abre espaço para um romance. Há tempo para tal construção; em suas interações, Matthew e Elizabeth demonstram um carinho mútuo, elevado pela química entre os atores. Na busca por sobrevivência, estes personagens provam a beleza do ser humano, de abraçar dualidades, sentimentos contrastantes e dores – ninguém quer fazer parte de uma espécie inerte. O icônico desfecho continua sendo um dos mais pessimistas e eficientes de todos os tempos, não dando tempo para o espectador processar inteiramente o que acabou de ver.
Donald Sutherland estava com a bola toda. Seu habitual carisma o transforma numa figura de cunho “heroico”. Jeff Goldblum é sempre uma presença agradável e Brooke Adams também merece elogios. “Invasion of the Body Snatchers” é um dos grandes filmes de terror da década de 70.



