Ao longo das décadas de 70 e 80, Hollywood produziu vários filmes sobre a Guerra do Vietnam. “O Franco Atirador”, “Apocalypse Now” e “Nascido Para Matar” talvez sejam os principais expoentes desta leva. Eu confesso que não imaginava Brian De Palma nesta seara, justamente por ser dono de um estilo maneirista e espetaculoso.
A guerra, por mais “cinematográfica” que seja, precisa de uma abordagem mais sóbria, que não falte com o respeito perante aqueles que perderam suas vidas. Para a minha surpresa, De Palma consegue se manter fiel às suas convicções artísticas, ao mesmo tempo em que dá um passo para trás, o que ratifica o seu status de mestre incontestável.
O roteiro, escrito por David Rabe, foca num pelotão que, em deslocamento, decide raptar uma jovem vietnamita para saciar seus desejos sexuais. O Sargento Tony Meserve e o Cabo Thomas E. Clark demonstram uma perturbadora excitação e obrigam os demais, de patentes inferiores, a abraçarem o plano. Em “Casualties of War”, a guerra é para se manter em contato com a humanidade. Logo no início, em um combate, De Palma usa ângulo holandeses para escancarar a animosidade e o ânimo dos soldados ao dispararem contra os “inimigos”. O diretor tenta encontrar algum rastro de empatia, mas se depara com a carcaça de jovens apodrecidos pela ideia de que o ódio é um sentimento que deve ser alimentado. O desenrolar da guerra, com a perda de colegas e amigos, atrai mais ódio e desesperança, transformando o campo de batalha numa selva de emoções tempestuosas, onde seres míopes empunham armas como verdadeiros trogloditas. Antes do deslocamento, De Palma, em um enquadramento bastante simbólico, indica que existem dois lados: a tenda, funcionando quase como uma Split Screen, divide Meserve e Eriksson, que é a bússola moral da narrativa. Em um uso extraordinário de Split Diopter, o diretor destaca Eriksson e algumas crianças, preservando o que há de puro naquele horror.
A verdade é que, fardados e armados, esses jovens soldados, em uma grande parcela, acreditam que não estão sujeitos a punições, sendo donos de um mundo com regras criadas por eles mesmos. Um mundo imoral, em que o valor da vida é reduzido ao extremo e as noções básicas de humanidade são jogadas no lixo. Em determinado momento, um dos personagens diz que “o que acontece na selva, fica na selva”(algo do tipo), evidenciando a ideia de que, ali, não existem normas sociais e que a violência, seja lá contra quem for, deve ser normalizada. A grande dúvida é: a guerra desumaniza os jovens, destruindo o que há de essencial dentro deles ou serve apenas como uma desculpa para delinquentes realizarem aquilo que sempre quiseram, mas que não era possível na civilização? De qualquer forma, o maior vilão é o Estado, responsável por uma lavagem cerebral e por validar atos de extrema crueldade. Os autênticos heróis são aqueles que, em meio a delírios de grandeza e à pressão do ambiente, conseguem manter a sanidade e a fidelidade aos seus princípios morais.
Eriksson é o idealista que precisamos para enxergarmos a situação pela ótica mais nítida possível. Não, não há ângulo que valide o estupro, nem mesmo a deformação mental, oriunda dos horrores da guerra. De Palma torna a situação ainda mais dura, expondo a covardia do pelotão. Sua guerra é um microcosmo, fugindo do tom épico de outros filmes, embora tenha sequências visualmente impressionantes. Quando achamos que Eriksson será acolhido e que suas denúncias terão um efeito revolucionário, percebemos que o horror está só começando. De Palma dá aos ângulos holandeses o valor de expressar sua repulsa perante o descaso humano. “Verme nojento! Quem você pensa que é?”, diz um dos oficiais ao protagonista, deixando claro que, em sua mente militar, denunciar colegas é um crime maior do que o estupro. Nesse caso, recuar seria perder a causa; todavia, não deixa de ser uma maneira de poupar a própria vida. A partir de planos subjetivos, De Palma salienta que Eriksson está na mira do tiro, pronto para ser pego desprevenido. O que sobra? A firmeza nas convicções e a esperança de que, apesar dos traumas, a justiça prevaleça. Em um diálogo num bar, Eriksson, abatido, tem o rosto marcado por uma luz vermelha, que reflete a culpa e a dor sentidas por ele – tipo de sutileza pensada apenas pelos maiores cineastas.
Michael J. Fox é o ator ideal para interpretar uma figura tão íntegra, empática e doce. Ele explora, na medida em que é encurralado, a força para se impor e confrontar seus superiores. No fim, o cansaço toma conta de seu rosto, fechando um arco poderoso. A escalação de Sean Penn para viver Meserve é igualmente perfeita. Sua performance é fulminante, cheia de vigor, ardor e raiva. “Casualties of War” é um dos projetos mais subestimados da carreira de De Palma.



