Lançado em 1989, “When Harry Met Sally…” se tornou um dos grandes clássicos da comédia romântica. Um posto mais do que justo; afinal, estamos falando de uma obra prima irretocável. Rob Reiner é um cineasta que se adapta a diferentes projetos, sendo capaz de dirigir “Misery” e “The Princess Bride” com a mesma maestria.
Aqui, guiado pelo magnífico roteiro de Nora Ephron, ele remete a Woody Allen. Os créditos iniciais, com aquela grafia e o jazz, nos preparam para um festival de diálogos ritmados, tão afiados quanto espadas de batalha. E, claro, o cenário não poderia ser outro a não ser Nova Iorque.
Conhecemos os protagonistas a partir de elipses consideráveis, num espaço de dez anos. A caminho da Big Apple, Sally dá carona para Harry, namorado de sua amiga. Durante o percurso, somos introduzidos às peculiaridades da dupla. Ela é regrada com qualquer assunto e mantém uma expectativa sonhadora sobre o mundo, embora tenha um lado pragmático, principalmente relacionado a dinheiro. Ele é o rei do cinismo, atraindo a atenção alheia com suas falas ácidas e ar de desinteresse. Ambos são donos de personalidades fortes, o que proporciona uma série de discussões que combinam a dose certa de reflexão e risada. Aquela em que divergem sobre a possibilidade de homens e mulheres serem amigos sintetiza a astúcia do texto de Ephron. A cada meia década que se passa, temos a chance de perceber que, em nossas trajetórias, a maioria das relações são, de fato, efêmeras e que opiniões, com o amadurecimento, podem mudar.
No último salto de cinco anos, os personagens já estão na casa dos 30 anos. As mulheres checam a lista de bons partidos, imaginando-se aos 40 anos, sem marido e estabilidade. Elas não estão atrás de um parceiro, mas de um herói que as puxe pelo braço e tire da cova. Sally consegue ser doce e empática; todavia, ainda está muito presa ao seu mundo de regras e idealizações para realmente se apaixonar por alguém. Ela reage ao término com Joe com indiferença e racionalidade, demonstrando algo a mais somente quando ele anuncia o casamento com outra – ali, Sally chora pela sensação de inadequação, não por amor. Harry sofre de um mal-parecido: seu cinismo e aparente inteligência emocional o fazem acreditar que ele sabe de tudo sobre relacionamentos amorosos. Cada passo seu advém de uma mente que decifra códigos e entende simbolismos. Isso, somado ao fato do abandono de Helen, sua esposa, dificulta as chances de Harry ser surpreendido. É justamente a solidão e as decepções amorosas que unem os protagonistas, que se tornam amigos inseparáveis.
A partir do momento em que eles deixam as birras de lado e assumem a amizade, não temos dúvidas de qual será o desfecho. É o tipo de casal pelo qual torcemos com gosto, admirando o cuidado do roteiro em seu desenvolvimento e facilidade para fomentar intimidade. As mudanças de estação ressaltam a proximidade cada vez maior e o tempo que é gasto em pares desnecessários. Harry, imerso no próprio cinismo, e Sally, acorrentada ao seu manual de regras, são incapazes de notar o óbvio. O roteiro faz observações perspicazes sobre a maneira que homens e mulheres reagem à mesma situação. O sexo, para Sally, deve ser chamado de amor e não pode ser uma mera “descarga de energia”. Em contrapartida, para Harry, essa é uma das facetas mais claras do sexo; um momento em que duas pessoas, atraídas uma pela outra, se levam pelo prazer. A diferença nas expressões é engraçadíssima, exemplificando a excelência do trabalho de Ephron.
Qual o segredo para o sucesso? Libertar-se de amarras que nos impedem de admitir sentimentos. Reiner demonstra um domínio fascinante do uso de split screen. Diferentemente do que acontece na maioria dos casos, não há uma barreira entre as telas; os travesseiros se conectam, estabelecendo conexão e intimidade. Do lado de Harry, a escuridão é maior, o que conversa com sua personalidade sacana e a dificuldade que tem para encarar o divórcio; do lado de Sally, os tons mais claros e o amarelo na parede revelam ingenuidade e otimismo maiores. Em outra cena, Reiner, a fim de reforçar a função amenizadora dos amigos, recém-casados, volta a utilizar a split screen. No centro, o casal que acabou de acordar; no canto direito, Sally conversa com Marie; e no canto esquerdo, Harry desabafa com Jess. A escolha por incluir relatos de casais longínquos acrescenta um tom caloroso à narrativa, além de servir de rima para o desfecho. Harry e Sally poderão contar suas histórias.
Billy Crystal e Meg Ryan apresentam uma química inabalável, entoando cada frase com uma propriedade fora do comum. Não é nenhum exagero afirmar que estes são os papéis de suas vidas. Talvez seja o Magnum Opus de Rob Reiner.



