Entre 1984 e 1992, Rob Reiner estabeleceu uma carreira primorosa, com uma sequência de projetos que atingiram aclamação comercial e crítica. Neste período, Reiner provou ser um dos principais diretores dos estúdios hollywoodianos, capaz de dirigir filmes de gêneros distintos sem perder a qualidade. “Stand By Me”, 1986, é um ótimo exemplo do quão adorados os trabalhos de Reiner são.
A trama gira em torno de um grupo de amigos que decide ir atrás do cadáver de um jovem desaparecido. Ao encontrar o corpo, eles esperam aparecer no jornal e ser exaltados como heróis. Chris, o líder, é quem segura as pontas, demonstrando ser o mais sereno e maduro. Sua família é pobre e ele tem noção de que é visto com preconceito pela maioria e que não deve ter grandes oportunidades no futuro. Teddy é o mais imprudente e temperamental. Em vez de denunciar o pai, um homem abusivo, ele prefere exaltar seus feitos na Segunda Guerra Mundial – um reflexo do povo americano, aficionado pelas conquistas em campos de batalha. Vern, embora seja o elo menos representativo do grupo, é o mais simpático e engraçado, funcionando, por vezes, como um alívio no tom. Gordie, o protagonista, é quem carrega o maior fardo: Denny, seu irmão, faleceu e levou consigo a alegria da casa. Atlético e carismático, ele era o favorito de todos. Gordie enfrenta a dor da rejeição paterna e da solidão; afinal, Denny era quem mais o valorizava.
O roteiro não subestima nem supervaloriza a inteligência dos garotos, entendendo as nuances da infância. “Ei, vocês têm assistido a The Mickey Mouse Club?” e “Acho que os seios da Annette estão crescendo” são frases quase sequenciais, que salientam a fase de transição na qual se encontram. Há, também, um grupo de adolescentes na busca pelo cadáver. O roteiro é preciso ao diferenciar os grupos. Enquanto as crianças demonstram afeto e um forte senso de união, os jovens impressionam pelo egoísmo e pela animosidade no trato. Gordie e os amigos podem até brigar e discutir, mas, minutos depois, fazem as pazes. Trata-se de uma fase em que apertos de mão e toques especiais na casa da árvore são valorosos.
Em determinado momento, Gordie conta uma história sobre um garoto gordinho que, para se vingar de seus zombadores, provocou uma avalanche de vômito na plateia de uma competição de tortas. A história é divertida, mas não dá um desfecho claro para o garoto. A aventura dos amigos é justamente sobre isso; um momento do qual eles poderão se lembrar eternamente, olhando para o passado com um sorriso estampado no rosto. Qual será o desfecho de cada um deles? Não sabemos, nem podemos controlar. O que eleva nossas existências ao extraordinário são as experiências e as situações, não o fim. As interações, além de explorarem a pureza e a união, deixam nítido que, em breve, o grupo pode se desfazer. A jornada vai de uma diversão a uma chance de refletir e amadurecer. Talvez aquela tenha sido a última reunião dos amigos; talvez seja mais correto deixar o cadáver lá, evitando anseios de heroísmo. São coisas que acontecem; a vida está repleta de relações passageiras e despedidas. O gosto daquele dia jamais sairá da boca dos personagens.
O voiceover, narrado por Gordie, já adulto e pai, é o detalhe essencial para que tudo se alinhe. Viva o presente; o passado sempre estará ao lado. Rob Reiner é um diretor sensível, que entende a natureza de seus projetos e pouco interfere. A sequência em que os amigos fazem um montinho sintetiza a essência do filme. A fotografia em tons fortes e os planos abertos, que destacam a natureza, fomentam uma atmosfera delicada. Reiner acerta ao enquadrar o trem, que solta uma fumaça preta, centralmente, de maneira que o identifiquemos como um vilão – o nível de tensão e perigo aumenta. Wil Wheaton e Corey Feldman estão excelentes; todavia, os principais destaques são River Phoenix e Jerry O’Connell. O elenco combina ingenuidade e força dramática com muita destreza.
“Stand By Me” merece a reputação que tem. É um belo filme.



