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“Adam’s Rib” jamais poderia ser realizado na contemporaneidade. Na verdade, até poderia, mas seria, com certeza, um filme insuportável, com lições de moral baratas e uma preocupação descabida com possíveis retaliações.

Dirigido por George Cukor, o clássico de 1949 gira em torno de um casal de advogados que se vê em lados opostos de um caso polêmico: Doris encontrou Warren, seu marido, com uma amante e reagiu atirando no adultero. Adam, o promotor, acredita que a lei não abre brechas para interpretação – ou seja, Doris tem que ser presa por tentativa de homicídio. Amanda, a advogada de defesa, atribui um teor feminista ao julgamento, afirmando que, caso os gêneros se invertessem, todos entenderiam que o marido apenas defendia a sua honra e a dignidade do lar. 

O roteiro, escrito por Ruth Gordon e Garson Kanin, é o motor narrativo, provando, a cada instante, ser sofisticado em seu humor e complexo na forma como aborda o tema central. Os malabaristas da retórica estão tão acostumados com o palco, que, após um longo dia no tribunal, rivalizando, chegam em casa e mantêm o velho comportamento apaixonado. Antes de abraçar a esposa e se deitar ao seu lado, Adam vai direto ao ponto: “Eu vou te cortar em 20 pedaços e vou te dar para o júri comer”. A entonação vocal é uma arma poderosa e eles sabem quando devem ser a vítima e quando precisam agir com superioridade. No tribunal, muitas objeções de ambas as partes; em casa, leves provocações permeiam a harmonia matrimonial. Aos poucos, graças ao teor grandiloquente do caso e às repercussões, inicia-se uma guerra entre seres suscetíveis e dispostos a vencer por uma ideologia. 

O texto, embora confira rigidez aos argumentos de ambos, não deixa de satiriza-los. Amanda, ao apontar para a desigualdade dos direitos das mulheres, acerta o calcanhar de aquiles da sociedade – e a sua estratégia de trazer testemunhas femininas de excelência, de artistas a cientistas, denota esperteza de sua parte. Todavia, seu objetivo, sem maiores floreios, é validar o homicídio. Não se trata de uma questão de feminismo, mas de uma falha na lei e na forma como as pessoas interpretam as posições sociais. Adam acredita no cumprimento cego das bases da constituição americana. Sua retórica preza, de certa forma, pela ordem e pela valorização dos conceitos morais que regem o país. Por outro lado, considerando as nuances do caso, o pragmatismo de Adam acaba sendo uma insensibilidade. No fim do julgamento, sobram apenas as cinzas de um casamento impecável. O roteiro acredita na simplicidade das coisas. Amanda quer a igualdade de gêneros? Claro, mas prefere ter o seu marido de volta. Não vale a pena lutar por causas que afetam aquilo que foi conquistado com amor e sacrifício. A causa final, a mais valiosa, é a reconciliação.

George Cukor foi um dos grandes cineastas da Hollywood de Ouro. Sua direção é de uma elegância ímpar, tanto na liberdade que confere aos atores para se movimentarem pelos cenários, quanto pelo timing cômico – a sequência em que as portas se fecham em sincronia é de um primor comum às Screwball Comedies. O simples fato de, em determinado momento, o casal ficar de costas um para o outro, diz muito sobre o seu rigor enquanto encenador. O que falar do close up nos olhos marejados de Adam? Ali está a força do filme. As inserções de cartelas com “naquela noite” e de capas de jornais garantem fluidez e a manutenção de um tom cômico à narrativa. Acompanhar Spencer Tracy e Katharine Hepburn, casados na vida real, em tela é um dos grandes prazeres que qualquer cinéfilo pode ter. Não apenas pela química inimitável, mas, também, pela elegância que tinham para realizar um mínimo gesto e pela naturalidade que exibiam ao transitar entre o drama e a comédia. Tracy e Hepburn são titãs da arte da interpretação e esta é uma obra prima calcada, principalmente, na capacidade dos atores.

“Adam’s Rib” é uma maravilha.

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