A Costela de Adão
Nota IMDB:
★ 7,4 /10
Gênero:
Comédia romântica, Comédia
Ano:
1949
Direção:
George Cukor
Roteirista:
Ruth Gordon, Garson Kanin, Pierre-François Caillé
Estrelas:
Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Judy Holliday

Adam’s Rib

“Adam’s Rib” jamais poderia ser realizado na contemporaneidade. Na verdade, até poderia, mas seria, com certeza, um filme insuportável, com lições de moral baratas e uma preocupação descabida com possíveis retaliações.

Dirigido por George Cukor, o clássico de 1949 gira em torno de um casal de advogados que se vê em lados opostos de um caso polêmico: Doris encontrou Warren, seu marido, com uma amante e reagiu atirando no adultero. Adam, o promotor, acredita que a lei não abre brechas para interpretação – ou seja, Doris tem que ser presa por tentativa de homicídio. Amanda, a advogada de defesa, atribui um teor feminista ao julgamento, afirmando que, caso os gêneros se invertessem, todos entenderiam que o marido apenas defendia a sua honra e a dignidade do lar. 

O roteiro, escrito por Ruth Gordon e Garson Kanin, é o motor narrativo, provando, a cada instante, ser sofisticado em seu humor e complexo na forma como aborda o tema central. Os malabaristas da retórica estão tão acostumados com o palco, que, após um longo dia no tribunal, rivalizando, chegam em casa e mantêm o velho comportamento apaixonado. Antes de abraçar a esposa e se deitar ao seu lado, Adam vai direto ao ponto: “Eu vou te cortar em 20 pedaços e vou te dar para o júri comer”. A entonação vocal é uma arma poderosa e eles sabem quando devem ser a vítima e quando precisam agir com superioridade. No tribunal, muitas objeções de ambas as partes; em casa, leves provocações permeiam a harmonia matrimonial. Aos poucos, graças ao teor grandiloquente do caso e às repercussões, inicia-se uma guerra entre seres suscetíveis e dispostos a vencer por uma ideologia. 

O texto, embora confira rigidez aos argumentos de ambos, não deixa de satiriza-los. Amanda, ao apontar para a desigualdade dos direitos das mulheres, acerta o calcanhar de aquiles da sociedade – e a sua estratégia de trazer testemunhas femininas de excelência, de artistas a cientistas, denota esperteza de sua parte. Todavia, seu objetivo, sem maiores floreios, é validar o homicídio. Não se trata de uma questão de feminismo, mas de uma falha na lei e na forma como as pessoas interpretam as posições sociais. Adam acredita no cumprimento cego das bases da constituição americana. Sua retórica preza, de certa forma, pela ordem e pela valorização dos conceitos morais que regem o país. Por outro lado, considerando as nuances do caso, o pragmatismo de Adam acaba sendo uma insensibilidade. No fim do julgamento, sobram apenas as cinzas de um casamento impecável. O roteiro acredita na simplicidade das coisas. Amanda quer a igualdade de gêneros? Claro, mas prefere ter o seu marido de volta. Não vale a pena lutar por causas que afetam aquilo que foi conquistado com amor e sacrifício. A causa final, a mais valiosa, é a reconciliação.

George Cukor foi um dos grandes cineastas da Hollywood de Ouro. Sua direção é de uma elegância ímpar, tanto na liberdade que confere aos atores para se movimentarem pelos cenários, quanto pelo timing cômico – a sequência em que as portas se fecham em sincronia é de um primor comum às Screwball Comedies. O simples fato de, em determinado momento, o casal ficar de costas um para o outro, diz muito sobre o seu rigor enquanto encenador. O que falar do close up nos olhos marejados de Adam? Ali está a força do filme. As inserções de cartelas com “naquela noite” e de capas de jornais garantem fluidez e a manutenção de um tom cômico à narrativa. Acompanhar Spencer Tracy e Katharine Hepburn, casados na vida real, em tela é um dos grandes prazeres que qualquer cinéfilo pode ter. Não apenas pela química inimitável, mas, também, pela elegância que tinham para realizar um mínimo gesto e pela naturalidade que exibiam ao transitar entre o drama e a comédia. Tracy e Hepburn são titãs da arte da interpretação e esta é uma obra prima calcada, principalmente, na capacidade dos atores.

“Adam’s Rib” é uma maravilha.

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