“The Only Living Pickpocket In New York” já é brilhante em sua abertura, fazendo com que o espectador acompanhe um sujeito indo ao trabalho. O protagonista é, na verdade, o homem que o assalta no metrô – uma brincadeira subversiva que ressalta a agilidade do personagem vivido por John Turturro.
Os olhos de Harry veem tudo. A cada passo, uma possibilidade de abocanhar uma carteira, um relógio ou um celular. O sobretudo cinza e a trilha sonora jazzística não mentem: se existe algum criminoso que detenha uma aura cool, de toques artísticos, este é o batedor de carteiras. Como um acrobata, ele anda por uma linha tênue; um passo em falso coloca tudo a perder. Harry mora no Bronx, onde cuida de Rosie, sua esposa, que está em estado vegetativo. Nos primeiros momentos, conhecemos um homem cujo ofício requer a classe de um artesão, sem qualquer agressividade, e que faz o possível para garantir o bem-estar de uma mulher que não consegue se comunicar. Harry é tão carismático, que até com Warren, um detetive veterano que conhece sua reputação, ele se dá bem. Ainda assim, o roteiro não glamouriza a vida criminosa, o que fica evidente quando o protagonista rouba, sem saber, o pendrive de um grupo de meliantes poderosos. Esse pequeno deslize coloca Rosie em perigo e obriga Harry a correr contra o tempo para recuperar o tal pendrive e entregar à gangue.
Os close-ups expõem as sombras que marcam seu rosto; as sombras que evidenciam as dores causadas por escolhas do passado e que o mantêm na linha do tiro. A trama é bastante simples e um dos grandes acertos do cineasta Noah Segan é optar por uma narrativa compacta, que se concentra naquilo que importa, sem perder tempo com digressões. Cada diálogo é pensado com a sofisticação de um tema jazzístico, alimentando a aura cool e revelando mais características do protagonista. Esse filme poderia facilmente ter sido realizado na década de 70, com Elliott Gould no papel central. Nova Iorque, como em vários clássicos do passado, é tratada como um personagem à parte. Sua geografia urbana, de metrôs, prédios monumentais e ruas movimentadas, é o palco ideal para os passeios de uma figura experiente, que sempre sabe aonde vai, mesmo quando está em desvantagem. Quanto mais conhecemos Harry, mais entramos em contato com a natureza melancólica de seu ofício. O auge desta constatação é, sem dúvida, a cena em que ele tenta conversar com a filha, num ar de despedida – a expressão dela é a de quem foi abandonada muito cedo. Em outro momento, Harry dá dicas a um jovem batedor de carteiras. Ali, há a empatia por alguém que não precisa cometer erros fatais e a vontade de reafirmar para si que sua existência não foi inteiramente vazia ou fracassada. “Você trabalha sozinho, mas não precisa estar solitário”.
O desfecho reafirma a carta de amor à cidade mais cinematográfica de todos os tempos e conserva a elegância inerente à narrativa. O elenco de apoio conta com nomes de peso como Steve Buscemi, Giancarlo Esposito e Jamie Lee Curtis. Dito isso, o show é inteiramente de John Turturro, que combina o seu habitual carisma com uma dose certeira de humanidade.
“The Only Living Pickpocket In New York” é um filme à moda antiga – e isso é uma grande notícia.



