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Existe amor à primeira vista? O amor precisa de tempo para ser decretado ou uma simples troca de olhar é suficiente? Esta sempre será uma discussão válida e que, de certa forma, se assemelha ao debate cinematográfico; afinal, em ambas as questões não existem respostas erradas. “The Clock”, 1945, é um exemplo de que, durante sua época de ouro, Hollywood realmente era capaz de coisas mágicas.

Joe, um soldado, está a caminho da Segunda Guerra Mundial, mas, antes, passará dois dias em Nova Iorque. A magnitude da cidade o desconcerta; os prédios o engolem, deixando-o animado e ansioso, sem saber o que visitar. O acaso decide ajudar, colocando Alice em seu caminho. Sozinho, Joe pergunta se pode acompanhá-la, o que dá início a uma relação relâmpago. O relógio do título, pontuado através de planos-detalhe, é o motor da narrativa, obrigando o casal a correr e a viver seus momentos intensamente. O tempo (no caso, a falta dele) nos leva à pergunta que abre o texto. A verdade é que, dependendo das pessoas envolvidas, dois dias podem ser mais representativos do que dois anos. Minnelli tenta nos convencer que, sim, é possível viver um amor intenso em algumas horas e, graças à destreza do roteiro, escrito por Robert Nathan e Joseph Schrank, consegue. O casal se vê amarrado a uma série de imprevistos orgânicos. Após um passeio pelo Central Park e uma visita ao Metropolitan, Joe, receoso, precisa correr atrás do ônibus para alcançá-lo e convidar Alice para jantar – não tenho dúvidas de que Sam Raimi se inspirou nesta sequência para o primeiro Homem Aranha. Tudo é complicado e intenso, sem soar óbvio; os acontecimentos dialogam com a urgência do tempo.

Eles não voltam para casa normalmente, de táxi ou metrô, tendo que pedir carona a uma kombi de leite, cujo dono é um senhor que exala empatia e bom humor. Claro, o pneu fura e o casal precisa parar numa lanchonete, que, assim como outros ambientes, serve para estreitar os laços – aqui, “espaços mortos” são cheios de vida. O jantar se transforma numa madrugada de aventuras; pessoas dispostas a se apaixonar são encorajadas pelo destino a seguirem suas intuições. No auge da paixão, o casal se perde na estação de metrô, num outro toque brilhante do roteiro, que sabe exatamente como mexer as cordas dos corações de seres frágeis. O êxtase do reencontro os transporta a uma nova realidade, na qual a impulsividade e a convicção caminham numa única direção.

É importante destrinchar as escolhas do roteiro, pois, além de estabelecer uma rima com o tema principal, elas conferem agilidade à narrativa. Joe pede a mão de Alice em casamento. Os dois correm para agilizar as burocracias e improvisam uma cerimônia, sem qualquer pompa. Os ecos de “Before Sunrise” são evidentes e, depois do matrimônio, “The Graduate” também vem à tona, com o casal em dúvida sobre o que acabou de acontecer. Fica muito claro que Vincente Minnelli, mesmo em um projeto “menor”, inspirou uma geração de cineastas. O trem passa no momento em que o juiz esclarece os termos do casamento, impedindo que ouçamos o que é dito – o design de som reforça o tamanho da ansiedade dos personagens, que, tendo consciência de que serão separados pela Guerra, decidem pontuar o precoce amor com uma certidão. Na saída, eles se deparam com um casamento na Igreja, marcado pela celebração. Talvez Joe morra na Guerra; talvez ele sofra algum problema psicológico. Não podemos garantir nada, apenas que aqueles dois dias foram intensos e especiais.

Vincente Minnelli, sempre meticuloso e delicado em sua encenação, permite que Judy Garland e Robert Walker ofereçam performances encantadoras, potencializadas por uma química apurada. “The Clock” marcou o início de uma carreira brilhante, que logo provaria não se limitar aos musicais.

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