Clichês costumam ser vistos como defeitos de roteiro. Muitas vezes, isso é verdade, no entanto, quando os realizadores são hábeis o suficiente para trabalhar com tramas manjadas, o espectador pode se deparar com algo belo, revigorante e otimista.
Esse é o caso de “Pretty In Pink”. Todos os elementos são facilmente identificáveis. A garota que mora do lado errado dos trilhos e o garoto rico se apaixonam, mas a pressão de seus amigos os colocará contra a parede, até que o final chega e tudo se acerta. Qual a graça em um filme tão previsível? Existem várias formas de responder a essa pergunta. A mais óbvia é a qualidade do roteiro. Blane quer conversar com Andie, não importa sobre o que, quer apenas estar perto dela e esse nervosismo é exposto através de diálogos delicados e sutis. Computadores e música não são lá de grande interesse, todavia, acabam sendo pontes para uma ligação mais profunda. Poucos filmes respeitam o silêncio. Entre risos e formulações de perguntas, os jovens demonstram um nervosismo palpável. São esses momentos que fortalecem a trama e fazem dos personagens figuras relacionáveis.
Andie olha para Blane e vira o rosto rapidamente. Ela o ama, tem certeza de que não tem atributos suficientes para atraí-lo e o beija quando é chamada para ir ao baile. Todas as reações em “Pretty In Pink” parecem corretas. Os atores conseguem manter um equilíbrio perfeito entre o controle emocional e a honestidade. Eles passam por diferentes estágios dentro do filme e convencem o espectador. O amor platônico permite olhares rápidos, suspiros e idealizações; quando o sentimento atinge uma nova esfera, o mundo parece girar em outra rotação, tudo é mais belo e leve; os empecilhos surgem e, com eles, um misto de dor, fragilidade, falso equilíbrio e angústia; por fim, o alívio toma conta da tela e as coisas voltam ao seu estado mais puro.
Como mencionei, existem mais ou menos uma centena de filmes com essa premissa e desenvolvimento, entretanto, a grande maioria não tem o dom de ser eficiente a ponto de se tornar um clássico. O adolescente sofre mais do que o normal e o roteiro de Hughes foge de exageros, optando por uma abordagem romântica, sem soar brega.
Os amigos de Blane vivem em seu mundinho fechado, com roupas elegantes, mansões, bebidas e drogas. Seu melhor amigo, Steff, interpretado pelo excelente James Spader, é um sujeito repugnante que se julga superior a todos e não aceita em seu grupo ninguém fora de sua alçada social, logo, desaprova o namoro de Blane e Andie. Em determinada cena, Steff diz que não se importa com dinheiro, caso contrário, não cuidaria tão mal da casa de seus pais. Ele é fútil, insensível e inseguro, assim como todos que o cercam. Blane destoa do grupo, está ali apenas por sua condição financeira, denotando, na verdade, uma profunda solidão e dificuldade em se encontrar. O protagonista quer estar perto de Andie a qualquer custo, sendo, às vezes, demasiadamente ingênuo. Ele é leve e doce ao seu lado, todavia, as ameaças de Steff o preocupam. Por que? A mente adolescente funciona de uma forma bastante esquisita e esses pedestais estabelecidos dentro da escola tem uma descabida importância.
A cena em que Andie o confronta é uma aula de interpretação de ambos. Ela o ataca, diz coisas com segurança, mas, na verdade, está prendendo o choro, enquanto ele trabalha bem a entonação – cada vez mais baixa – e as expressões faciais.
Andie precisa lidar com o pai, que ainda não esqueceu a mulher que o abandonou e é a única em casa que tem um emprego. Suas interações com o pai, interpretado por Harry Dean Stanton, por sinal, são um dos pontos altos do filme, sendo capazes de mostrar o afeto que um nutre pelo outro e a preocupação da filha, que enxerga em Jack, um homem preso ao passado. Andie tem um estilo próprio, pega trapos e transforma em roupas. Sua melhor amiga, Iona, deve ter uns trinta anos e sofre com indecisões, o que é retratado nas suas constantes mudanças de aparência.
Duckie é o seu grande amigo e admirador secreto. O personagem sofre o que nenhum jovem quer: ser rejeitado por alguém especial. Seu arco é notável, as fases são pontuadas, indo da raiva e da incredulidade ao entendimento de que Andie jamais poderia ser feliz ao seu lado.
Assim como o grupo de Blane, o da protagonista não vê com bons olhos esse relacionamento, acreditando que ele é mais um jovem metido que se aproveitará de Andie e a jogará fora. Nesse sentido, o final – criticado por alguns -, na minha opinião, é perfeito. Blane não diz nada da boca para fora, apenas reforça aquilo que foi construído durante o filme. Suas palavras saem com dor. O sussurro no ouvido é um toque que poderia ser cafona, mas acaba sendo essencial para o romantismo proposto por Hughes. Duckie fica desarmado e percebe que, sim, Blane era diferente dos demais, afinal, foi ao baile desacompanhado.
Quando os dois se beijam e os créditos sobem, pensamos: é, era exatamente o que eu esperava e não poderia pedir nada de diferente. Clichês bem construídos têm a capacidade de elevar a autoestima e permitem que, pelo menos, por alguns minutos, o sonhador vislumbre o impossível.
Os atores, além de transitarem com naturalidade dentro de seus arcos e controlarem perfeitamente suas emoções, ganham o espectador com o seu carisma e charme. Molly Ringwald e Andrew McCarthy apresentam uma química notável e são figuras cativantes.
A trilha sonora é especialmente marcante. As músicas escolhidas são fundamentais para a eternização do filme – destaque para “If You Leave”. Hughes tinha bom gosto.
O design de produção é surpreendentemente efetivo ao usar os espaços para diferenciar os grupos – as mansões e os bares alternativos.
O figurino também entra nessa equação. O paletó branco de Steff é sensacional, não poderia ser mais datado.
Movido por cenas contagiantes, “Pretty In Pink” é um romance elegante e admirável. Um filme bonito e reconfortante que merece a fama que tem.

