Le Journal d’une Femme de Chambre
Gênero:
Família, Drama
Ano:
2026
Direção:
Radu Jude

O Diário de uma Camareira

Le Journal d’une Femme de Chambre (2026)

O romeno Radu Jude é um cineasta conceituado pelos festivais mundo afora. Em 2021, ele venceu o Urso de Ouro por “Má Sorte No Sexo Ou Pornô Acidental”. Seu estilo é bastante peculiar, capaz de ser identificado com poucos minutos de projeção. A razão de aspecto reduzida, os planos estáticos em que observamos os personagens à distância, os cortes abruptos, os títulos e “subtítulos” numa fonte que remete a um trabalho de faculdade… Jude é, na acepção mais plena do termo, um autor. Entendo, contudo, que seu estilo possa ser cansativo para alguns. Em “O Diário de uma Camareira”, ele me surpreendeu por conseguir unir todos esses elementos, seu humor escrachado e uma doçura surpreendente. 

Gianina trabalha como camareira na residência de uma família francesa rica. Como o próprio título indica, a narrativa é estruturada no formato de diário, saltando de um dia para outro sem privilegiar grandes acontecimentos, salientando, assim, o caráter repetitivo e pouco estimulante da rotina da protagonista. Acompanhamos as mesmas tarefas, os passatempos que ela elabora com Louen, filho dos patrões, e as conversas com sua família. Logo no início, somos informados de que Gianina passará as férias em casa. Assim, embora o cotidiano pareça desprovido de reviravoltas, existe um senso de progressão e ansiedade: a cada dia, a protagonista está mais próxima de reencontrar sua filha. Uma escolha de Jude que dialoga com seu naturalismo é a introdução de vídeos via FaceTime e de imagens gravadas pelo celular. Dessa forma, o cineasta acentua o intimismo. Alguns dias ganham um destaque maior, mas não porque Gianina sofre algum baque. Jude brinca constantemente com as expectativas do espectador, interrompendo as situações de maneira abrupta.

A protagonista é oriunda de uma família humilde, que vive em um espaço rural da Romênia. O contraste com Bordeaux é gigantesco e explorado pelo diretor em planos estáticos. Gianina não está na sua zona de conforto, mas demonstra ser uma jovem aguerrida, que compreende o lugar que ocupa na sociedade. Entre as situações mais memoráveis estão aquela em que Gianina, demonstrando respeito às suas raízes, conta uma triste história do folclore romeno para Louen, provocando uma reação divertida dos patrões, e o jantar em que uma discussão política ganha contornos divertidíssimos, com a protagonista sendo abordada para expor seu ponto de vista. Gianina é uma figura doce e prestativa, mas nada ingênua. Ela sabe interpretar as situações e solta xingamentos silenciosos quando julga necessário. Em um mundo em que imigrantes ilegais são tratados como escória, ela carrega a legalidade debaixo do braço. Em seu tempo livre, Gianina participa de um teatro amador, focado em ajudar imigrantes. A peça em questão é justamente “O Diário de uma Camareira”, de Octave Mirbeau, que já foi adaptada para o cinema por Luis Buñuel e Jean Renoir. Jude aproveita esses momentos para destilar todo seu humor vulgar, brincando com a liberdade que o palco dá ao intérprete, seja lá de qual etnia ele for. 

No terceiro ato, com as férias cada vez mais próximas, somos surpreendidos por um contratempo. O roteiro sugere que a camareira ocupa uma posição de “escrava moderna”, mas evita o maniqueísmo. Os patrões não são más pessoas; pelo contrário, demonstram ser prestativos e até solidários. Cada personagem ocupa uma posição dentro de uma estrutura social que ultrapassa suas vontades individuais.

O cineasta explora essa dinâmica sem apelar para truques baratos, conferindo ao seu filme um considerável nível de empatia. Jude é um artista lúdico; seus projetos falam sobre a condição humana num tom cômico, com um ritmo que busca simular a realidade em seus termos banais. No desfecho, ele equilibra a ansiedade da protagonista, um respiro de alívio e o caráter abrupto de sua narrativa. 

O êxito de “O Diário de uma Camareira” passa muito pela performance de Ana Dumitrascu. Seus diálogos com a filha são especialmente fascinantes por evidenciarem duas dimensões de Gianina — a camareira e a mãe romena — sem que uma identidade atropele a outra. E, claro, o carinho que uma nutre pela outra é bonito de ver. É difícil não se apaixonar por essa personagem, e Jude, com sua encenação naturalista, aproxima ainda mais o espectador dela. Eu poderia ficar mais algumas horas ali, observando o cotidiano regrado de Gianina.

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