Bridget Jones é uma solteirona de trinta e dois anos. Claramente insatisfeita com sua situação, a protagonista até tenta mudá-la, porém é demasiadamente desajeitada. As palavras simplesmente saem de sua boca, sem qualquer tipo de filtro, como se um ímpeto mais forte que ela a dominasse.
Sua mãe tem uma lista de pretendentes e o mais recente é Mark Darcy, um sujeito frio e direto que não faz esforço para causar uma boa impressão, nem parece disposto a se entregar a um grande amor.
No trabalho – uma editora de livros -, Bridget se interessa e passa a trocar mensagens picantes com seu chefe, Daniel Cleaver, um mulherengo carismático e charmoso.
Presa em seu universo de idealizações, frustrações e “mudanças de atitude”, a protagonista decide escrever um diário, expondo todas as situações que permeiam a trama, caracterizando os homens que cruzam o seu caminho, suas esperanças e decepções.
O grande acerto do roteiro, é fazer de Bridget uma mulher absolutamente comum, cujas inseguranças com certeza ajudam o espectador a criar algum tipo de vínculo com ela. Seu peso, o quanto fuma e bebe são recorrentemente enfatizados, como se fossem fundamentais para o seu êxito social e amoroso. No fundo, “O Diário de Bridget Jones” é um filme que enaltece a simplicidade, foge do costumeiro glamour das comédias românticas e apresenta um trio de personagens solitários, críveis e interessantes.
Nossa perspectiva é a mesma da protagonista, logo, nossa percepção sobre Mark e Daniel muda constantemente. No início, tendemos a gostar do jeito “destemido” e cool do chefe de Bridget, que, apesar de se exceder em determinados momentos, nunca esconde o canalha que é. Ele mente e até quando achamos que o conhecemos por inteiro, uma nova reviravolta nos surpreende negativamente. De qualquer forma, Daniel é o tipo de personagem que não conseguimos odiar, simplesmente pelo fato dele ser extremamente convincente e cativante. A frase mais honesta e bela do filme, sem dúvida alguma, é sua: “se não for com você, não será com ninguém”. Daniel sabe que se não se ajustar agora, viverá uma vida vazia, mudando de par sem o menor pudor. Bridget acredita em suas palavras, no entanto, precisa de algo mais palpável, de alguém que a ame por suas qualidades, não por enxergá-la como uma “salvadora”.
Vale ressaltar que Daniel e Mark foram grandes amigos nos tempos de faculdade e, por questões envolvendo uma mulher, se tornaram desafetos.
Mais uma vez, frente a frente por uma dama, eles mantêm um silêncio desconfortável, até o momento em que extravasam e brigam no meio da rua. O que faz dessa uma sequência espetacular, é a forma desajeitada com que os dois se estapeiam, conversando diretamente com a essência da protagonista.
Por ser tímido e rígido, Mark acaba sendo uma figura mais fascinante de se decifrar. A frieza e a indelicadeza são reflexos de relações amorosas que deixaram feridas abertas e de uma solidão que insiste em persegui-lo. De fato, ele parece detestar o jeito peculiar de Bridget, contudo, quando menos esperamos, Mark admite que gosta dela da maneira que ela é.
A protagonista não é a mulher mais bela do mundo, nem a mais inteligente, muito menos a mais charmosa. Bridget assiste filmes, canta músicas enquanto chora, idealiza e se decepciona, se imagina grande e se encolhe no momento principal, se entristece e se alegra com situações facilmente relacionáveis. A maioria das pessoas são como Bridget Jones e eu tenho certeza absoluta que assistir a um filme, ainda mais sendo uma comédia romântica com um grande elenco, é um exercício estimulante e positivo. Ser comum é ótimo e não se preocupe, todos, de alguma forma, são únicos e especiais.
Sharon Maguire, e é importante enfatizar que somente uma mulher poderia realizar este filme, adota uma abordagem simples e precisa, sem exibicionismos, deixando o show para os atores e para o roteiro, responsável por uma série de mal-entendidos, um humor distintivamente britânico – repleto de sarcasmo, ironia e boas sacadas – e sequências de pura vergonha alheia. Um excelente ponto levantado pelo texto é a forma pela qual os seres humanos enxergam o matrimônio, ignorando a beleza que o circunda, tratando como relevante o fato de ter alguém, de não ser solteiro ou solitário. O casamento não é uma obrigação, é algo que deve ser pensado, vivido e planejado com carinho. Convenções sociais e pressões alheias nos transformam em robôs, que aceitam a infelicidade para rir dos “pobres solitários”.
A câmera lenta é precisamente utilizada, salientando um momento de maior importância, a presença de um personagem fundamental ou um período mais leve na vida da protagonista. O mesmo pode ser dito sobre as sequências aceleradas que colocam Bridget numa sintonia diferente, a destacando no meio da multidão.
A narração é muito bem inserida e fomenta uma intimidade cada vez maior entre o espectador e a protagonista.
A montagem, por conseguir captar a mente inventiva e tumultuada da protagonista, por dar um ritmo agradável ao filme e por ser responsável pelo maravilhoso timing cômico, e as irretocáveis escolhas musicais, que enriquecem a narrativa, são, inquestionavelmente, os artifícios que dão personalidade à obra.
Renée Zellweger foi a escolha perfeita para interpretar Bridget Jones, pois, além de ser talentosa e saber lidar com esse tipo de papel, é a estrela hollywoodiana mais “comum” possível. Muito do que foi mencionado acima, cabe na descrição da própria atriz.
Colin Firth faz de Mark um sujeito tipicamente britânico – frio, elegante e melancolicamente romântico. Sua caracterização não poderia ser mais precisa e sutil e aquele final é espetacular.
Hugh Grant está numa tremenda zona de conforto e oferece uma performance sólida, ganhando o espectador com seu charme e por tornar Daniel um sujeito tão falho.
“O Diário de Bridget Jones” é um filme adorável, sincero e engraçado.

