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Um dos grandes baratos dos festivais internacionais é perceber que está diante de uma obra importante, ainda desconhecida do público, mas que não demorará a ganhar o merecido holofote. Eu tive essa sensação na sessão de “Josephine”, que veio para a Berlinale com um enorme prestígio em Sundance.

A diretora Beth de Araújo abre a narrativa com um plano subjetivo, estabelecendo, desde o início, uma identificação do espectador perante a protagonista. Josephine e Damien, seu pai, estão a caminho do parque, onde costumam treinar futebol. Tudo parece normal, até que, ao se distanciar do pai, a pequena Josephine, de apenas oito anos, testemunha um estupro. Araújo sustenta a cena, expondo o horror em sua face mais real. Repentinamente, o parque deixa de ser um espaço de lazer, transformando-se numa zona de brutalidade e pesadelos. Seu rosto parece em choque, sem entender muito bem o ocorrido. A partir daí, a cineasta americana de origem brasileira explora o trauma que abala essa figura doce. 

Os pais enfrentam uma verdadeira encruzilhada. É importante encontrar meios de distração; todavia, considerando a inteligência  da protagonista, algumas verdades terão que ser, prematuramente, trazidas à tona. Eles não fingem perfeição, desvinculando-se da imagem de heróis infalíveis. Damien, muitas vezes, não sabe o que dizer e, em vez de pisar em ovos, admite que algumas questões são complexas até para ele. Claire, a mãe, talvez seja mais habilidosa com as palavras, mas não consegue lidar com a sensibilidade de certos temas. A casca quente e protetora ganha rachaduras e Josephine precisará aprender que o caminho da cura é introspectivo. Um momento que ressalta a dúvida dos pais é aquele em precisam decidir se a filha irá depor ou não. Claire pensa na pressão e no mal-estar; Damien fala em justiça e no dever de prender um estuprador. O drama vai além de dilemas concretos, fazendo com que o espectador sinta a dor de olhar para a própria filha e não a reconhecer inteiramente. O que fazer? Ser mais duro? Mais suave? A punição, tendo noção do contexto, é educativa ou potencializa o trauma? Não existe um manual para situações desta magnitude. Damien e Claire entendem que, enquanto figuras paternas, sabem muito pouco – essa é a chave para criarmos uma enorme empatia pelo casal.

A reincidência de planos subjetivos, os sussurros escutados atrás da porta e a presença “fantasmagórica” do estuprador são escolhas que nos colocam diante da perspectiva de Josephine. Ao mesmo tempo em que demonstra curiosidade para entender o que aconteceu, ela se fecha no seu universo, o que é pontuado por close ups, tornando impossível captar a intensidade de suas emoções. Josephine está assustada por descobrir que o mundo não é um lugar justo e que a crueldade existe nas esquinas mais seguras. Em vez de brinquedos, ela quer armas; a defesa pessoal passa a fazer mais sentido do que o futebol. Seu olhar, de certa forma, emula e reflete a crueldade presenciada no parque. Tornar-se violenta e imprevisível é um passo, embora não intencional, para dialogar com sua natureza interna. Josephine tenta encontrar respostas que não estão em revistas de colorir e desenhos animados. A capacidade de assumir medos e erros é o que nos mantém em contato com nossa humanidade. 

Beth de Araújo merece elogios por construir uma atmosfera de tensão e frustração crescente. Uma conversa entre a família e um detetive ganha contornos atormentadores graças à movimentação da câmera, que roda pela mesa. O que falar da tão aguardada cena do julgamento? O plano sequência é a escolha perfeita, conferindo um grau de urgência e desconforto gritante. É como se Araújo afirmasse que, sem o depoimento, Josephine nunca se livraria daquele fardo. A câmera ataca com uma agressividade que remete ao crime que levou a garota àquele tribunal. A fotografia em tons frios e a trilha sonora também contribuem para a fomentação de um clima nebuloso. 

Mason Reeves impressiona por encontrar o equilíbrio entre a contenção emocional e o pânico, compondo uma personagem que passa a duvidar e a temer de tudo. Channing Tatum prova que está no caminho certo, oferecendo uma performance extremamente sensível e humana. “Josephine” é uma obra prima desafiadora e importante.

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