A opção por abrir a narrativa com um vídeo caseiro é excelente ao estabelecer a relação entre a protagonista e a feitura de vinhos naturais: trata-se de uma paixão, de algo que é feito com afeto, não com pressa.
“Isabel” tem uma energia similar a de alguns filmes de Noah Baumbach, principalmente os que contam com Greta Gerwig no papel principal. A mulher de personalidade forte, os tropeços na busca por independência, o convívio social alternativo e a relevância do meio urbano, palco de andanças tortas e corajosas, são elementos que fazem desta uma comparação pertinente.
Embora tenha plena convicção de seus desejos e seja dona de um carisma que cativa a todos, Isabel, como a maioria das pessoas, vive para os outros, não para si. Ela é sommelier num restaurante importante, mas é tolhida por seu chefe, que limita as opções de vinho. Seus momentos de maior alegria são quando finca (literalmente) os pés nas uvas e aguarda pelo processo. Como uma personagem tão viva e intensa pode se sentir tão acorrentada? É o paradoxo que rege a vida de milhões que, imersos na promessa de estabilidade, não se permitem tentar. Quais os custos oferecidos pelo pragmatismo? O roteiro, escrito por Gabe Klinger, o diretor, e Marina Person, a atriz principal, entende que projetos de paixão são complexos e que podem dar errado, mas que valem a pena.
Claro, há um longo percurso, ainda mais quando a manada segue o caminho curto, com um conteúdo simplista e viral. Pat é o exemplo de um atalho que pode se tornar um obstáculo. Ele é um investidor americano que se interessa pela ideia de abrir um bar de vinhos numa área movimentada de São Paulo. Todavia, no auge da ambição da protagonista, Pat recua e breca o negócio. Os projetos de paixão, como o próprio nome deixa implícito, são voláteis. Um dos grandes méritos de Klinger é não elevar o tom em nenhuma das extremidades da gangorra. Seu filme é de um naturalismo inabalável, calcado na observação das relações e do cotidiano. Sua câmera cria intimismo sem alarde, valorizando aquilo que, muitas vezes, passa despercebido. Klinger apresenta ao espectador uma comunidade pouco conhecida, que, cada vez mais, encontra seu espaço – em Botafogo, no Rio de Janeiro, há um bar bastante semelhante ao idealizado pela protagonista.
Os percalços existem, mas os portos seguros são igualmente poderosos. Nico, seu melhor amigo, está sempre lá, sendo capaz de se demitir só para acompanhá-la em sua jornada. O roteiro enxerga tais percalços como definidores de relações, potencializando parcerias que tinham tudo para serem abaladas. O marido de Isabel, um francês radicado no Brasil, pode ser definido por sua capacidade de compreensão. Eles nunca caem na caricatura do casal alternativo, funcionando por sua honestidade e facilidade para demonstrar intimidade. Como mencionei acima, São Paulo é o palco central, quase um personagem à parte. Em uma das melhores sequências, Isabel carrega uma enorme geladeira pela cidade – ali, está a síntese de sua trajetória. O desfecho não nos dá respostas simples, deixando o caminho aberto para uma série de novas perguntas difíceis.
Marina Person oferece uma performance cheia de vigor, em que, até nos momentos de maior vulnerabilidade, é possível enxergar uma vontade de fazer o negócio acontecer. “Isabel” é um dos filmes mais agradáveis e “simples” exibidos nesta edição da Berlinale.



