O início de “Heaven” não dita o ritmo do filme. A primeira sequência é uma aula de como criar um clima enervante. A protagonista mexe na bolsa, coloca os óculos escuros e parte em direção a um prédio com uma bomba na bolsa. Ela a coloca delicadamente na lata de lixo da sala do homem que deseja matar, no entanto, a trilha sonora e a montagem indicam que algo errado acontecerá. A tensão chega ao seu clímax com uma injusta e triste explosão, que resulta na já esperada prisão de Philippa, que fica inconsolável ao descobrir que, em vez de assassinar o traficante responsável por viciar seus alunos e pela overdose de seu marido, tirou a vida de duas crianças, do pai delas e de uma faxineira. A dor é palpável e insuportável. Os policiais que a interrogam não ligam para os seus sentimentos e querem saber apenas para quem ela trabalha, diferentemente do jovem policial encarregado de traduzir o interrogatório (o filme se passa na Itália). Filippo se coloca no lugar da protagonista e se encanta por sua beleza melancólica. “Estou apaixonado”, diz ele para o pai.
Não se enganem, esse não é um romance no qual o amor improvável prevalece, derrubando barreiras em tese intransponíveis. “Heaven” é uma obra triste e silenciosa, que encanta o espectador por seus caprichos, pela sutileza nas atuações e humanidade do roteiro.
Entendemos todas as ações e reações dos personagens, que muitas vezes os levam ao abismo.
A ligação do tal traficante com a polícia deixa nítido que, sim, existem heróis e bandidos nessa história, mas com certeza não são os que vocês esperam.
A protagonista aceita o plano de fuga de Filippo por um motivo apenas: terminar o serviço. Philippa sabe o que fez, se encontra em um buraco sem saída e pretende cumprir sua pena.
Em contrapartida, Filippo é um policial possivelmente em ascensão que joga tudo fora para ajudar uma mulher que matou quatro civis. As emoções são maiores que os seres humanos, elas nos controlam e os ditam nossos caminhos. Filippo estava apaixonado, talvez pelo rosto da protagonista, talvez por seu instantâneo abatimento ao descobrir o que fez, provavelmente pelo todo. Que todo? Ele nem a conhece, mas tem a convicção de que salvá-la e passar o tempo necessário ao seu lado é o melhor a se fazer. “Heaven” é um filme movido por esses sentimentos, aqueles que nos tornam complexos e irracionais.
Na primeira noite escondidos, Philippa, um tanto surpresa, pergunta: “você dormiu ao meu lado?”
Eles viajam e a protagonista volta a fazer perguntas. “Eu nem sei o seu nome. Quando você nasceu?”
Philippa se sente acolhida e segura ao lado de Filippo, sobre isso não tenho a menor dúvida. Mas ela o ama?
Na minha opinião, não. A protagonista aprecia e valoriza o altruísmo do policial, porém não compartilha os mesmos sentimentos afetuosos.
O filme é sobre uma mulher que se autodestruiu e não enxerga nada além de uma profunda escuridão, e sobre um homem tão solitário, que é capaz de abandonar todas as suas convicções para acolher uma fugitiva.
Não à toa, o único momento de intimidade física entre os dois é visto por um plano geral e o uso de contraluz impede que vejamos os corpos. O olhar de Filippo denota uma devoção absoluta, uma carência indescritível e uma paixão silenciosa, enquanto o de Philippa, parece perdido, agradecido, mas prestes a dizer adeus.
Como espectadores, temos o direito de imaginar um final feliz, contudo, seríamos bastante ingênuos se considerássemos algo diferente do que acontece no desfecho. A rima com a primeira cena, assim como o título, são provas concretas do cuidado e da delicadeza deste belo filme.
A fotografia é majoritariamente cinza, combinando perfeitamente com o tom, o arco dos personagens e os ambientes. As cores mudam quando Filippo e Philippa fogem e temos a falsa impressão de que as coisas vão dar certo, graças a paleta de cores vivas e vibrantes.
A direção de arte aposta em locações tomadas por tons pastéis e paredes sujas.
A trilha sonora é sensível, o uso de “Spiegel im Spiegel” como tema principal me pareceu bastante adequado para elevar a melancolia e o romance contidos na obra.
Poderia dizer também que seus cabelos, nomes e figurinos praticamente idênticos simbolizam o desfecho do improvável casal.
A montagem é fundamental para manter a tensão, principalmente na sequência inicial e para expor sutilmente a distância entre os personagens.
Tom Tykwer é um diretor extremamente subvalorizado. Seu talento e versatilidade são postos à prova mais uma vez. Como um bom regente, ele manipula o tempo a fim de manter o espectador na ponta da cadeira e sabe exatamente quando deve usar um close up para expor o que Filippo sente por Phillipa. Há um plano-detalhe das mãos dos dois entrelaçadas que basicamente resume as principais qualidades do filme: sútil, belo e poético.
Seus plongées ressaltam a culpa que a protagonista sente.
Sua capacidade de criar quadros estonteantes é impressionante, um deles foi citado acima. Os planos gerais mostram algo que não vemos de perto e isso é significativo. Tykwer trabalha bem os corpos e a mise en scéne, seja em um momento em que Filippo se levanta, se vira de costas para Philippa e chora, seja quando seus rostos se aproximam, mas nunca se unem.
Giovanni Ribisi faz muito com pouco. Sua voz raramente muda de entonação e suas feições são similares, entretanto, nunca duvidamos de seu amor por Philippa e sabemos que Filippo tem consciência de que seu sentimento não é recíproco. Suas palavras são suficientes e Ribisi as diz com dor e convicção.
Cate Blanchett oferece uma performance igualmente doída. Philippa é uma mulher perturbada e vazia, que se depara com um raro e genuíno afeto, porém não sabe muito bem o que fazer com ele. A atriz tem espaço para nos comover em cenas dramaticamente poderosas e nos encantar com sua beleza. Assim como Ribisi, Blanchett torna a protagonista uma personagem complexa e intrigante, através de gestos, respirações pausadas e olhares.
“Heaven” é um grande filme que, infelizmente, foi assistido por pouquíssimas pessoas.

