“Stagecoach” é mais uma prova concreta de que por mais simples que a premissa de um Western seja, seus subtextos e personagens quase sempre serão ricos.
Por motivos distintos, noves pessoas embarcam em uma carruagem e precisam cruzar um território indígena, liderado pelo temido Gerônimo.
Dallas é uma prostituta. Mal-vista por todos, ela é expulsa da cidade. Grávida, Lucy Mallory não aguenta mais a solidão e precisa encontrar seu marido, um soldado. Samuel Peacock, vendedor de whiskey, é tão frágil e ingênuo quanto uma borboleta. Sua ida é essencial para a presença de Boone, um médico que não faz nada além de beber. Ainda temos Hatfield, que se encanta por Lucy e, como um bom cavalheiro, decide acompanhá-la; Gatewood, um banqueiro ganancioso e picareta, que se escora em frases de efeito: “América para os americanos”, “redução de impostos”, “um empresário na presidência”; Buck, o guia da carruagem, que não gosta do emprego, mas precisa juntar dinheiro para se casar; e Curley, que ocupa a posição de Guarda, com a intenção de encontrar “The Ringo Kid”, um jovem fora da lei que fugiu da prisão.
O primeiro ponto a ser elogiado na condução de John Ford é a contradição que cria entre a diligência claustrofóbica, repleta de pessoas de temperamento forte e o vasto e selvagem Velho Oeste. “Stagecoach” é fascinante, primeiramente, pelos núcleos que fomenta, que exploram os personagens a fundo. Ao chegarem numa zona de descanso e abastecimento, isso fica muito claro; Ford os posiciona milimetricamente e desvenda suas reais facetas. Nesse sentido, os principais alvos do excelente roteiro são Ringo e Dallas, “os marginais”. Antes de passarmos um tempo significativo com eles, tendemos a levar em consideração a opinião alheia. Dallas é tratada como um animal. Não é uma mulher, não merece respeito, é uma prostituta, vende seu corpo. Ringo, por sua vez, é uma ameaça à sociedade, um bandido da pior espécie. Escutamos essas coisas e projetamos uma imagem em nossas mentes.
Ford não conhecia apenas a geografia do Velho Oeste, mas também a influência que ele tinha perante os seres humanos. Dallas e Ringo perderam suas famílias, não tinham amigos e precisavam, de alguma forma, sobreviver em um ambiente que não acolhe os mais necessitados. O cuidado que ela tem com a filha de Lucy denota um genuíno desejo de constituir uma família, de ser amada e de fugir do caos. Dallas poderia se omitir, contudo, não guarda rancor, provando ser uma mulher empática e afetuosa, que estende a mão para quem precisa. Sua reação ao receber um pedido de casamento de Ringo diz muito sobre sua personalidade: “isso é errado para uma garota como eu?”
Ela não acredita na própria felicidade, foi obrigada a pensar que era inferior às demais. Ringo, que é apresentado por Ford com um raro impacto, é tratado como o perigo em pessoa, no entanto, quanto mais tempo passamos ao seu lado, mais percebemos que a condição de fora da lei que lhe foi imposta não é algo que carrega com orgulho. Assim que vê Dallas acuada e sozinha, faz de tudo para deixá-la confortável, tratando-a como uma verdadeira dama. Em nenhum momento, ele se mostra uma ameaça, pelo contrário, é extremamente prestativo, carinhoso e amável.
É possível viver um amor sensível no Velho Oeste? O romance entre seres “aversivos” seria aceito? Eles conseguiriam se desvencilhar dessas amarras e preconceitos e viver pacificamente em um ambiente que prega pelo ódio e pela gradativa deterioração do ser humano?
A situação é tão bem abordada, que esquecemos do iminente perigo que o grupo corre, cercado por Apaches. O outro personagem que chama a atenção, justamente por ser uma vítima do Velho Oeste, é Boone, antigamente considerado um médico de renome, hoje apenas um bêbado desprezível. Não o conhecemos, todavia, podemos afirmar que ele é uma figura solitária e desconsiderada que, por algum motivo, se tornou um alcoólatra. Sua aparência muda ao ser confiado para realizar o parto de Lucy e, ao final do filme, quando Curly lhe oferece um drinque, ele sorri e responde sobriamente: “apenas um”. O médico precisava de amigos, de apoio, de alguma situação que fizesse sua vida voltar a ter um sentido. Não acredito que Boone parará de beber, entretanto, tenho certeza de que, a partir de agora, terá uma companhia ou alguém para controlá-lo. Curly, cujo principal intuito era prender Ringo, no desfecho, é o mais preocupado com sua segurança e felicidade.
A carruagem é, na verdade, um centro de reabilitação. Os rastros de humanidade que haviam se perdido no Velho Oeste, gradativamente, retornam. Respeito, cuidado e amizade fazem parte desse arco. Esses “atributos” podem ser vistos na icônica e aguardada batalha. A sequência é orquestrada por Ford com a maestria que lhe é peculiar. A violência é brutal e realista, muitas vezes pega o espectador desprevenido. O espaço é enorme, os movimentos dos personagens e a quantidade de ações coordenadas realmente impressionam. Em determinado momento, Ringo salta por cima de vários cavalos e atira em um índio – tipo de coisa que imagino Tom Cruise fazendo. Ford preza por ângulos baixos, usando as firmes pisadas dos cavalos para potencializar o caos e manter uma atmosfera eletrizante. Mesmo dentro de um extenso deserto, o diretor consegue gerar uma sensação de claustrofobia, colocando todos os índios em torno da carruagem – sem saída.
Seus close ups são a prova de que os rostos de bons atores são mais intensos do que qualquer diálogo. O interesse de Hatfield por Lucy é perceptível, porém, estaria sendo injusto se não destacasse as trocas de olhares entre Ringo e Dallas. Isso vale também para expor rivalidades. Ford sabe que a imaginação do espectador é mais poderosa do que a imagem em si. Ainda que o combate seja memorável, o que realmente nos deixa ansiosos para aquele momento, é a sugestão de que os Apaches são terrivelmente violentos. O confronto entre Ringo e seu rival, Luke, é outro exemplo maravilhoso desse artifício. Nesse caso, nem vemos o duelo, somente os dois, lentamente se aproximando, e depois escutamos os disparos das armas.
As panorâmicas que precedem o confronto são precisamente utilizadas, mostrando que a diligência e os Apaches estão cada vez mais próximos.
Ford posiciona, invariavelmente, Ringo e Dallas de costas, na escuridão, ressaltando a natureza daquele romance aos olhos da sociedade, melhor dizendo, do Velho Oeste.
A fotografia em preto e branco é belíssima, principalmente pelo uso de sombras, que ratificam a condição do casal e o medo que ronda a precária casa em que os personagens se escondem. A fumaça é um indicativo inteligente de que a “guerra” está prestes a começar.
A trilha sonora é bastante versátil, variando entre temas tensos e românticos.
A montagem é especialmente sensacional no duelo final, uma verdadeira aula de como sustentar o suspense – o realismo não é a melhor maneira de se analisar um filme. O famoso “corredor vazio” é igualmente fundamental para o funcionamento da cena, que se passa no escuro – inclusive, Ringo surge completamente imerso à escuridão.
O elenco é sensacional, todavia, John Wayne é, sem dúvida alguma, o maior destaque. Em seu primeiro papel de sucesso, o ator já apresentou todas as suas qualidades. Wayne é o Velho Oeste, em sua dureza e humanidade reprimida. Ninguém, nem mesmo Clint Eastwood e Gary Cooper personificaram tão bem o gênero.
“Stagecoach” é uma obra prima. Um dos cinco filmes mais influentes e importantes da história do cinema.
