“Never Let Me Go” foi uma grata surpresa. Um filme delicado e melancólico, cujos personagens são complexos e silenciosos. Há muita dor, paixão e medo, no entanto, estes sentimentos nunca são traduzidos em palavras, apenas através das expressões faciais, que conquistam o espectador.
Os protagonistas vivem em uma espécie de colégio interno, cuja finalidade é tornar os seus alunos os mais saudáveis e únicos possíveis. Eles vivem até uma certa idade e são sacrificados, de forma a que os seus órgãos vitais sejam doados para pessoas doentes. Falsas aparências são mantidas, até que uma determinada professora – a única que demonstra empatia – expõe as verdadeiras intenções de “Hailsham”. O filme se passa em um passado fictício, no qual o câncer deixou de ser uma realidade; em contrapartida, não há nada mais cruel e desolador do que acompanhar a vida de jovens que sabem que não tem muito tempo.
Os personagens são vistos como instrumentos – os braceletes e as aulas comportamentais evidenciam suas condições. Suas individualidades são observadas, mas tendem a ser padronizadas. Sabemos qual será o desfecho, o que faz de “Never Let Me Go” uma obra maravilhosa é o desenvolvimento do trio de protagonistas, que são tratados com humanidade e respeito. As crianças são inocentes, ingênuas, brincam e descobrem novos sentimentos. São emoções palpáveis, que nos envolvem. O amor e o ciúme estão no olhar e surgem de forma inesperada. Eles são de verdade, são seres humanos que precisam correr, pois não tem tempo para se descobrir.
Kathy ama Tommy. Ela o observava calmamente enquanto as outras o desprezavam. Palavras nunca saem de sua boca, mas seus sentimentos são nítidos, suas aproximações, apesar de tímidas, denotam uma profunda vontade de se envolver. Sua melhor amiga, Ruth, percebe e não diz nada. Mais perspicaz, ela se dirige a Tommy com clareza e passa a frente de Kathy. Ambas sabem muito bem o que guardam em suas mentes e corações, entretanto, preferem manter seus “segredos” guardados e uma relação falsa.
Eles crescem, estão prestes a se tornar doadores e o triângulo segue intacto, tendo como princípio o cuidado para não expor os reais sentimentos. Os papéis são bem estabelecidos, ninguém está confortável. Muito da melancolia abordada pelo roteiro vem daí. São jovens prestes a morrer, jogando fora o pouco tempo que lhes foram destinados. Kathy e Ruth tinham uma amizade genuína, assim como o amor recíproco que a primeira nutria por Tommy. Não existem razões para manter mentiras durante uma breve existência. No fim das contas, é exatamente isso que dá aos protagonistas uma complexidade ainda maior. Os humanos não agem da forma que deveriam, alimentando impulsos e medos. Ruth não queria ficar sozinha e nutria fortes ciúmes da amiga que tinha uma conexão verdadeira com outra pessoa; Tommy não quer magoar ninguém, é puro demais para isso; Kathy não quer se expor a ponto de demonstrar fragilidades e se decepcionar.
A situação apenas parece simples. O roteiro é honesto e tira traços distintos de humanidade de cada um dos personagens.
O filme se passa em diferentes anos, até chegar ao inevitável desfecho. Fugindo do convívio tortuoso com o “casal de amigos”, Kathy se voluntaria para ser assistente dos doadores. Ela encontra alívio em lugares angustiantes, se acostuma com mortes e finalmente se depara novamente com Ruth. É um encontro doído, entre mulheres que deixaram de ser amigas e “viveram” suas vidas amargamente. O terceiro ato nos brinda com alguns momentos doces e encantadores, mas não deixa de ser arrebatador.
A fotografia opta por tons acinzentados para salientar a melancolia do universo habitado pelos personagens. A trilha sonora segue suas trajetórias, sendo meiga no início e taciturna no fim. O diretor Mark Romanek é preciso ao optar por uma narrativa contemplativa. Seus planos abertos captam a beleza deslumbrante das paisagens naturais, cada detalhe que faz a vida valer a pena. A montagem realiza um excelente trabalho ao inserir planos de árvores de forma coesa e fundamental para a manutenção da atmosfera proposta pelo diretor. O design de produção caminha na mesma direção. Todos os ambientes são gelados e opacos. A cabana em que os protagonistas moram antes de se tornarem doadores enfatiza a condição de suas existências e a distância perante os demais.
O grande acerto do roteiro de Alex Garland é não perder tempo com questões científicas, dando maior destaque para emoções e dilemas humanos.
Carey Mulligan faz de Kathy uma personagem cativante, que pouco diz e muito pensa. Através da expressividade de suas reações, a atriz demonstra ser a mais compreensiva em relação ao seu destino.
Keira Knightley transforma Ruth em uma jovem insegura mediante um comportamento agressivo e insensível. Não gostamos da personagem, mas entendemos sua postura.
Andrew Garfield é o mais carismático entre os três. Sua performance passa pela pureza e bondade de Tommy, logo, quando ele se exalta, há de ser convincente. O ator confere extremo realismo em todas as etapas e esconde bem sua melancolia.
Charlotte Rampling reforça a sua capacidade em interpretar personagens frios. Miss Emily mantém distância dos alunos e não os trata como seres humanos para se poupar.
Sally Hawkins é um grande contraponto, contagiando o filme com sua animação, que é freada pelo convívio com jovens reprimidos.
“Never Let Me Go” tem uma excelente premissa e uma condução ainda melhor.
