“Sweet Charity” é, sem dúvida alguma, uma das estreias mais vibrantes da história do cinema. Bob Fosse toma conta de sua obra, deixando claro, desde o início, que, sim, há muita experimentação, mas nada impensado. As sequências impressionantes de dança já eram esperadas, o que chama a atenção é o seu farto domínio da linguagem cinematográfica. Fosse usa a câmera na mão, sabe exatamente quando deve optar por planos específicos, capazes de exprimir algo a mais e apresenta uma noção espacial impressionante – sua mise en scéne é digna de um veterano. Eu poderia ficar citando inúmeras cenas, porém acredito que a que se passa em um salão chiquérrimo é suficiente para compreender a magnitude do trabalho de Fosse.
A montagem o ajuda bastante. A câmera lenta salienta a importância de determinado momento, assim como as imagens sobrepostas de Charity. Os Freeze Frames são utilizados de forma recorrente, tendo conotações variadas dentro da trama. Algo que se repete é a colagem de fotos, criando uma espécie de álbum sobre a fase que a protagonista se encontra em sua vida. O tempo é muito bem distribuído, não há nada jogado fora e a montagem acelera as coisas na hora certa, sempre mantendo o espectador atento ao que acontece em tela. O timing cômico também é algo a ser enaltecido, cortes abruptos – eternizados em “All That Jazz” – e rápidos flashbacks fazem toda a diferença.
Fosse explora cada detalhe da linguagem cinematográfica e é por esse motivo que “Sweet Charity”, mesmo com seus deslizes, é um filme fascinante. O diretor usa o gênero musical a seu favor, brindando o espectador com um espetáculo visual, repleto de cores, cenários convidativos, sequências fantasiosas e figurinos vistosos.
As canções talvez não sejam memoráveis, mas servem perfeitamente aos anseios de seus personagens; em contrapartida, a trilha sonora orquestral é impecável e versátil. Há batidas sensuais, românticas e dramáticas. Cada situação pede uma melodia, até mesmo um jantar.
“Sweet Charity” é um musical colorido, no entanto, é o vermelho que dita o ritmo e o tom da história. É uma escolha esperta do diretor de fotografia e do diretor de arte, afinal, o vermelho é a cor mais expressiva, a que possui o maior número de conotações e que mais chama a atenção do espectador. Desejo, paixão, imoralidade, medo e romance são temas que permeiam a trama e são muitíssimos bem caracterizados.
O filme é abertamente inspirado em “Noites de Cabíria”, de Federico Fellini, logo, quem conhece o clássico do gênio italiano sabe mais ou menos o que se pode esperar da estreia de Bob Fosse.
As protagonistas de ambas as obras são mulheres ingênuas e puras demais para o mundo que habitam. Charity é uma dançarina acompanhante. Seu último namorado a empurrou no lago do Central Park e roubou seu dinheiro, mas em sua cabeça essa possibilidade não é real, deve haver algum motivo pelo “mal-entendido”. Suas amigas são céticas e irônicas, entendem bem onde estão e não fazem projeções irreais. Uma delas diz que deseja se demitir, a fim de ir atrás de um bom emprego. Recepcionista, ela diz, deixando claro que o tamanho de um sonho é pessoal e individual.
Charity quer apenas ser amada. O homem perfeito é aquele que a escolha e que se sinta confortável ao seu lado. Ela já passou dos trinta anos e coloca uma pressão desproporcional, porém compreensível em cima de si.
A protagonista é insegura e otimista. Um novo dia pode representar o fim de sua angústia ou mais um motivo para se autodepreciar e encontrar defeitos.
Sua vida pode ser resumida como uma sucessiva onda de rejeições e humilhações. Ainda assim, Charity é uma figura radiante e alegre, que conquista o espectador rapidamente, que torce para que o seu conto de fadas se realize.
Em determinado momento, ela encontra um ator famosíssimo e por circunstâncias bem estabelecidas pelo roteiro, acaba parando na casa dele. Essa talvez seja a melhor sequência do filme, a mais bela, honesta e humana. Charity se imagina em um palco e dança para suas amigas, querendo provar que esteve no quarto de Vittorio Vitale, que é gentil ao dar objetos valiosos usados por ele em cena. Enquanto a protagonista se delicia com cada segundo, o ator se encanta com a simplicidade dela, admite que a fama é um fardo e desdenha de seu próprio trabalho. Não à toa, quando sua namorada aparece, percebemos a sua transformação, indo de homem despreocupado e generoso para sedutor e performático. Sua mansão e suas esculturas douradas são cenários de uma vida que se tornou um longo e tortuoso filme. Charity é ingênua, apenas admira o luxo e o carinho de Vitale. Antes de ir para casa, a protagonista se despede e diz que eles nunca mais se encontrarão. O ator, sem entender, pergunta o porquê daquela afirmação. “Porque você é você e eu sou eu”. A resposta é simples e verdadeira. Vitale sorri amargamente, sabendo que a noite havia sido muito mais especial e rara para ele.
Charity segue em sua busca desenfreada e decide abandonar seu emprego, entretanto, é humilhada ao se candidatar para um cargo em uma grande empresa. Seu otimismo a cega e somos obrigados a assistir cenas absolutamente devastadoras como essa.
Saindo do prédio, o elevador para. Dentro dele está Oscar, um executivo claustrofóbico e tímido que se encanta pelo jeito atencioso, perceptivo e alegre de Charity. Além de engraçadíssima, a cena é essencial para o andamento da segunda parte da trama – o filme tem um pequeno intervalo.
Oscar é perfeito demais, paga as contas nos restaurantes, não é inconveniente e beija a sua mão ao se despedir. Charity suspeita que há algo estranho, o que é perfeitamente normal, afinal, seu último namorado a arremessou em um lago. A protagonista sonha demais, não com um homem ideal, mas com uma pessoa que a ame e os gestos delicados de Oscar provam que seus dias solitários estavam próximos do fim. Contudo, ainda existe um empecilho: Charity não tinha coragem de admitir que era uma dançarina acompanhante e disse que trabalhava em um banco. Ela não se sente bem mentindo, então decide contar a verdade em uma cena que prova que Fosse já era um diretor pronto. A vergonha é tanta, que Charity se senta de costas e, assim, em um plano conjunto dos dois em direções opostas, a protagonista fala o que a afligia. Ela é surpreendida por Oscar, que diz que já sabia que seu emprego não era em um banco e sim em um “Cabaré”. Porém, nada importa, apenas o amor que ele sente por Charity, que o livrou de fobias, ansiedades e o transformou em um novo homem, confiante e apaixonado.
O final é praticamente idêntico ao de “Noites de Cabíria”, Fosse apenas o “americaniza”, o que é ótimo, já que, além de refrescante e lindíssimo, ele conversa com a época em que o filme se passa.
Shirley MacLaine oferece uma performance encantadora e difícil. A atriz faz de Charity uma mulher, simultaneamente, alegre e deprimida. Há cenas de puro êxtase e outras de quebrar o coração. MacLaine confere uma veracidade louvável à sua personagem. Charity é uma pessoa relacionável, seus anseios são comuns e o fato dela ser tão ingênua e doce faz com que o espectador tenha vontade de segurar sua mão e abraçá-la.
Sem falar no grande talento que a atriz tem para dançar e cantar.
“Sweet Charity” é um filme tecnicamente impecável e emocionalmente poderoso.

