Após se precipitar, dando uma notícia sobre um empresário polêmico e bilionário sem ter certeza de sua veracidade, Mikael Blomkvist perde parte de seu prestígio e se encontra numa encruzilhada: sumir por um tempo ou ajudar a reerguer o jornal no qual trabalha?
Por sorte, ele acaba sendo contratado por Henrik, um dos líderes da família Vanger – possivelmente a mais influente da Suécia -, para desvendar um antigo mistério: descobrir quem assassinou sua sobrinha, Harriet. Em troca, além de um salário maior, o protagonista receberia evidências concretas contra o tal empresário.
Mikael se muda para a cidadezinha dominada pelos Vanger, mas a verdade é que aquilo parece um delírio de Henrik, afinal, a “garota” havia desaparecido/falecido há quarenta anos e literalmente todos na família parecem ser, simultaneamente, culpados e inocentes. A proximidade entre as casas de cada integrante é inversamente proporcional ao afeto que nutrem. Os prestativos são demasiadamente simpáticos para terem cometido um crime e os antipáticos são tão ranzinzas, que dificilmente sairiam de suas poltronas para encostar em alguém.
Não é Mikael quem encontra a principal pista, mas sua filha, que nota referências bíblicas em uma página do caderno que lhe foi entregue.
O protagonista se envolve cada vez mais com esse enigma e a montagem, um dos principais pontos para o êxito do filme, o liga à Lisbeth Salander, uma hacker de aparência gótica. Mesmo com vinte e três anos, o Estado a considera perigosa demais para viver sem um superior. Seu tutor sofre um derrame e o substituto é um sujeito asqueroso, que só libera o dinheiro em troca de favores sexuais, chegando a estuprá-la. Solitária, Lisbeth é uma figura ambígua. Sua inteligência, agilidade e força impressionam, assim como sua introspecção, fragilidade e medo de se expor. Ela não se conhece sexualmente, experimenta o que pode dentro de uma existência regrada e dolorosa.
Lisbeth havia sido contratada por Henrik para colher informações sobre Mikael – seu passado e integridade. Dessa forma, quando pede por uma assistente, ele é direcionada à hacker, que só se interessa pelo caso ao saber que se trata de uma busca por um assassino de mulheres. Completamente diferentes e igualmente perdidos, Lisbeth e Mikael se tornam colegas, entretanto, verdadeiramente parceiros, somente quando ela percebe que o jornalista é diferente dos homens que conheceu. Existe uma trama central e o roteiro é minucioso em seu desenvolvimento, apresentando uma excelente resolução, todavia, o filme não se limita a um gênero. O que temos aqui é um fascinante estudo de personagem. Uma jovem que descobre qualquer informação sobre qualquer um com alguns cliques e que, ainda assim, é um poço de insegurança. Se o seu interesse inicial era no assassino de mulheres, este acaba ficando em segundo plano, ao acreditar que Mikael era a pessoa que faltava em sua vida. Um amigo, um amor, um homem com quem podia passar a noite e se sentir ainda mais feliz ao acordar, alguém confiável e respeitoso.
Não podemos culpar o jornalista por não compreender suas demonstrações de afeto, que se misturam com seus experimentos pessoais. Lisbeth nunca deixa de ser uma figura vulnerável e silenciosa.
O que, gradativamente, muda é a proximidade entre os corpos e a fala, que, se não fica afável, deixa de ser tão direta. No fim, é ela quem o salva do assassino e consegue as informações necessárias para prender o empresário bilionário.
A montagem é fundamental para expor as diferenças entre os dois. Enquanto Mikael é um bom comunicador e se aproxima das pessoas para encontrar pistas, Lisbeth é ágil e precisa – hacker de primeira linha. Ou seja, eles se complementam.
A montagem é o ponto chave para a imersão do espectador, que compreende a gravidade da descoberta através da gradual intensidade dos cortes. Na sequência em que Mikael vai atrás do assassino, antes do embate de fato acontecer, somos psicologicamente preparados para o clímax – variando entre a tentativa do jornalista de fugir da casa, close ups, planos-detalhe de objetos perigosos e das ações de Lisbeth, que está em outro espaço.
A direção de arte diz muito sobre os personagens. A casa em que Mikael fica durante a investigação é vazia e escura. Ele não é um bom pai, sua ex mulher o detesta, seu único laço afetivo é com sua colega de trabalho, casada, e sua reputação como jornalista estava em jogo. Sua busca é por redenção. A residência de Lisbeth é um caos, resumindo perfeitamente a fase em que se encontra, de descobrimento, medo e enfrentamento. Ela elabora um plano digno de aplausos para eliminar o inimigo de Mikael e compra um presente especial no Natal. Ele é mais velho e vive uma vida errante, sem muitas perspectivas. Apesar de suas identificáveis qualidades, Mikael, como qualquer homem, é falho. Lisbeth estava tão feliz por ter se desvencilhado de certas amarras e se tornado minimamente sociável, que não enxerga nada além de decepção e tristeza. Ela caminha na direção oposta, em sua moto. Expectativas não fazem bem a ninguém.
A fotografia opta, essencialmente, por tons frios, ressaltando a melancolia inerente aos personagens, o mistério de difícil solução e a “mórbida” elegância dos países nórdicos, no caso, a Suécia. O filme é introspectivo e investigativo, valendo-se muito pouco de cenas de ação – a brutalidade está no texto, nas imagens e na sugestão. Personagens exaustos e feridos justificam a predominância de tonalidades azuladas e acinzentadas.
A única sequência em que há uma mudança significativa na iluminação é justamente aquela em que Mikael é torturado pelo assassino – a abordagem muda em todas as esferas, Fincher quer que o espectador veja bem o horror.
A trilha sonora é efetiva e não se torna intrusiva, marca bem a atmosfera idealizada pelo diretor.
Fincher preza por uma narrativa angustiante. Os planos gerais que colocam a pequena casa de Mikael no meio das mansões dos membros da família salientam a sua dura e contraditória condição – está ali para ajudar ou ser engolido?
Close ups são contrapostos por enquadramentos abertos, ressaltando o quebra cabeça de Mikael, as constantes idas e vindas e suposições. Os planos fechados são mais evidentes no terceiro ato, quando as coisas realmente ficam tensas e palpáveis. Nesse sentido, Fincher direciona de uma forma orgânica o olhar do espectador para detalhes importantes – alguns objetos e fotos ganham destaque.
Se Lisbeth é apresentada de costas e, invariavelmente, se mantém distante dos outros, virando até o rosto, Fincher usa a cama e planos idênticos para expor a proximidade entre os dois. O novo tutor, inicialmente, fica em pé, é a figura dominante, entretanto, quando Lisbeth se vinga, as posições se invertem – belo uso de plongées e contra-plongées. A não ser nas cenas íntimas com Mikael, esse é o único momento no qual ela aparece com os braços descobertos – forte e simbólico.
Daniel Craig está em sua zona de conforto e não decepciona, pelo contrário, consegue acompanhar sua parceira a ponto de olharmos para o jornalista com um interesse similar.
Digo isso, pois Rooney Mara domina completamente o filme. Sua interpretação passa inteiramente pelo seu controle corporal e por sua entonação vocal. Como mencionei, Lisbeth é, ao mesmo tempo, uma figura insegura e perigosa; traumatizada e ágil. Mara alcança esses extremos com muita precisão. Seu arco acaba roubando a obra. Sem falar na transformação física que a atriz sofreu.
“The Girl With The Dragon Tattoo” é um suspense maduro, relevante e perturbador. Um filme espetacular, repleto de camadas distintas.

