Tímido, Jimmie não consegue dizer a Mary que a ama. As estações passam e a situação segue estagnada – algumas pessoas precisam de um empurrãozinho. O protagonista descobre que sua empresa está prestes a falir, no entanto, no mesmo dia, recebe uma herança de sete milhões de seu avô. Tem um porém: o dinheiro só seria recebido se Jimmie estivesse casado até o seu vigésimo sétimo aniversário, que, por acaso, se completaria naquele exato dia. Ele parte, então, na busca instantânea do objetivo que lhe foi atribuído. A primeira opção é óbvia, entretanto, ao descobrir o motivo da pressa, Mary se decepciona e declina do pedido.
Magoado e sem tempo a perder, Jimmie e seus colegas fazem uma lista das possíveis pretendentes e cada recusa é especialmente engraçada, principalmente aquela em que o protagonista se esconde de vergonha e a moça acredita que quem quer se casar com ela é um idoso – Buster dominava a mise em scéne, criando um humor situacional.
Em determinada cena, Jimmie se aproxima de uma mulher, que levanta um lenço, onde um bebê dormia. “É seu?”, pergunta ele, em mais uma demonstração de timing e sutileza para arrancar risadas do espectador.
O desespero é tanto, a ponto de um manequim ser paquerado.
Seus colegas decidem colocar um anúncio no jornal, usando a foto de Jimmie e implorando por uma noiva até às cinco da tarde.
O roteiro muda o foco, indo de tiradas cômicas refinadas para a catarse, o absurdo, e é aí que Buster se mostra, novamente, capaz de realizar estripulias impressionantes.
Se as mulheres eram objetificadas e, de certa forma, insultadas por Jimmie, que estava interessado apenas na herança, os papéis se invertem. Sinceramente, não sei se algum outro filme agrupou tantas mulheres em um mesmo espaço, todas dividindo a mesma condição: solidão.
O protagonista mal é visto como um marido, mas como um prato de comida prestes a ser devorado, pelo menos é essa a impressão que as “noivas furiosas” passam.
A elegante e discreta abordagem de Buster – destaque para os planos-detalhe – se transforma por inteiro no terceiro ato, no qual a insanidade proporcionada pela quantidade de pessoas em cena é explorada através de planos gerais. Elas destroem obras, acabam com um jogo de futebol americano e correm como se suas vidas dependessem daquilo. Buster se prende na traseira de um carro, se segura em um guindaste em movimento, se pendura em árvores, desce uma colina dando cambalhotas e se desvencilha de pedregulhos. Seu alinhamento com a montagem é muito visível, necessário para o impacto, a organização e a eficiência de sequências tão longas e elaboradas.
O final é mais um exemplo do quão preciso Buster era. Seu timing nunca falhava e suas histórias, ainda que curtas, eram intensas como poucas.
No início, percebemos a dificuldade que Jimmie tem de se declarar a partir de elipses, mas não temos certeza absoluta de quanto tempo se passou e a presença do cachorro, bebê na primeira cena e enorme na última, fecha essa rima com brilhantismo.
Buster não se vale somente de suas maravilhosas gags e acrobacias. Sua persona desajeitada era rica em sentimentos e a expressividade de seu rosto deixa o espectador seguro de que o protagonista realmente ama Mary e que as outras são apenas “negócios”.
Os mal-entendidos e os obstáculos são muito bem inseridos, tornando o final ainda mais satisfatório e feliz.
É fácil se identificar com Buster, afinal, quem não se sente um pobre coitado de vez em quando.
“Seven Chances” é um filme ambicioso em seu desenvolvimento e em sua magnitude. Mais uma maravilha cômica atemporal, realizada por um gênio cujo repertório era inesgotável.
