Jane Hudson está bastante animada. Ela juntou dinheiro e finalmente conseguiu visitar Veneza, a cidade de seus sonhos. A pensão em que fica conversa bastante com o seu jeito de ser: elegante e fria.
Não que a protagonista seja má educada, muito pelo contrário, sua atenção perante todos que atravessam o seu caminho é notável e sua feição denota um profundo encantamento pela cidade, que assim como Jane, é uma completa contradição, tomada, ao mesmo tempo, por becos e praças convidativas.
Ela é solitária, romântica e idealizadora. Suas esperanças nos Estados Unidos talvez tenham se esgotado e, quem sabe, em um novo país, com a ajuda de um empurrãozinho, seu maior desejo possa se concretizar. A sensação que temos no início é a de que Jane se comporta adequadamente, faz poses, mas é infeliz, não à toa, tira fotos de casais e pessoas alegres, provavelmente para guardar uma imagem capaz de fazê-la sorrir. Em um café, um homem a observa e claramente se interessa pela protagonista, que expõe a sua principal faceta: ela é romântica, entretanto, sua insegurança e receio são tantos, que prefere se manter numa posição estática, espantando qualquer interessado, alimentando a possibilidade de “algo a mais” somente em sua imaginação.
Para a sua sorte, Renato está por todos os lados, inclusive é o dono de uma loja que tem em sua prateleira uma antiguidade cuja cor – vermelho – traz um valor simbólico inestimável para o filme. Entre os personagens, há dois cupidos dourados – forma sutil de dizer ao espectador o que está prestes a acontecer.
Ela se apaixonou e Renato é direto: “você faz muitas piadas, mas, por dentro, acho que chora.”
A protagonista o atrai, simples assim. O que tem de errado em duas pessoas que se gostam? Tudo é complexo e difícil para Jane, não sabemos exatamente se por algum trauma do passado ou simplesmente pelo medo de se envolver e perder de vista aquela idealização. Renato a convence de que o que acontecerá depois não importa e que a beleza indescritível de Veneza não deve ser ignorada.
O primeiro encontro poderia facilmente estar em um filme da Disney. A elegância das roupas, a música perfeita e os rostos otimistas são dignos de contos de fadas. No entanto, como estamos falando de uma obra de David Lean e de uma personagem fadada à solidão, não podíamos esperar saídas fáceis.
Renato esconde um certo segredo: é casado. O contraste entre as culturas, ainda mais se tratando de algo “tão sagrado”, é muito bem desenvolvido. Jane se sente humilhada e traída, em contrapartida, Renato entende que imperfeições fazem parte da vida e que o amor é algo tão poderoso, que não pode ser considerado proibido em nenhuma circunstância.
A protagonista deve se entregar e ignorar seus princípios ou fugir e negar seus sentimentos?
Ela aceita o “seu lado italiano” e embarca nessa aventura, que resulta nos dias mais felizes e especiais de sua existência. A sequência da dança, o passeio pelos becos e os fogos exuberantes, que combinam com o seu sapato vermelho – apaixonada –, são espetaculares.
Contudo, as coisas parecem bem claras e ainda que eu não diga como filme termina, não é muito difícil de imaginar.
No fim, o que realmente levamos conosco são as memórias e, como pertencem apenas a nós, podem ser moldadas às nossas preferências.
Às vezes a vida não é sobre desejo, mas sobre o que é o certo a se fazer e, nesse sentido, David Lean, com a crueldade de um grande cineasta, acerta em cheio.
Fotografado em Technicolor, “Summertime” é um deleite visual. As cores vivas já seriam suficientes, porém a presença de tons azulados e de sombras tornam a obra mais complexa. O filme não seria empático se não abordasse a psique conturbada da protagonista e essa frieza é fundamental para ressaltar o seu temor e suas dúvidas.
A mudança do figurino de Jane também merece elogios. Se no início ela usava um vestido cinza, gradativamente, o vermelho vai tomando conta de seu corpo, tanto em adereços – laços -, quanto nos próprios vestidos e, por fim, o verde claro opaco é um prenúncio do desfecho. A roupa preta é interessante de se analisar, pois começa como algo exuberante e depois assume a conotação de tristeza e dor.
O diretor faz de Veneza um elemento essencial dentro de sua história. O contraste entre becos e paisagens lindíssimas é essencial, conversando não só com Jane, mas com todo o contexto. Euforia e melancolia caminham lado a lado na cidade italiana e Lean enfatiza isso efusivamente. Seus planos gerais exploram as exuberantes paisagens venezianas e o olhar encantado da protagonista, impressionada com o lugar que sempre sonhou em conhecer. Seus close ups e planos-detalhe são quase invasivos, denotam interesse e uma intensa paixão.
Um de seus grandes méritos está a direção de atores. Percebam como os dois estão sempre perfeitamente posicionados, como Renato sempre está à frente e toma as rédeas, enquanto Jane se mantém numa posição defensiva, até o momento em que se entrega. Os gestos e movimentos realizados por Hepburn são calculados e não tenho dúvida alguma de que Lean tirou exatamente o que queria dela.
Não poderia deixar de mencionar o plano mais belo do filme, aquele em que Veneza está vazia e vemos o casal andando sozinho – donos do mundo, pelo menos era assim que se sentiam.
A trilha sonora é bela e marcante, ditando os principais momentos entre Jane e Renato.
Ao lado de Lean, Katharine Hepburn é a grande responsável pelo êxito do filme. A atriz passa a sensação de um enorme vazio, é radiante, melancólica, otimista e insegura. Tudo isso em menos de cento e quarenta minutos. Suas emoções são palpáveis, o que se deve a uma entrega absoluta de Hepburn, que sabe quando deve ser sutil e quando deve “exagerar” – na medida certa. A forma como ela vira o rosto, ressaltando o nervosismo de Jane e a sua despedida são bons exemplos dessa linha tênue em que a atriz transita.
“Summertime” é uma grande experiência, um excelente “complemento” a “Brief Encounter”, outro filmaço de David Lean.
