A primeira vez que assisti “Paterson” foi há três anos e me lembro exatamente a reação que tive ao subir dos créditos: simplesmente reiniciei o filme. Nunca tinha visto nada parecido, tão simples, belo, poético e necessário.
É sobre sonhar, acordar, ter alguém ao seu lado, olhar o relógio, caminhar até o trabalho, voltar, se distrair e dormir. O mundano, coisas que estão na nossa frente, porém são “invisíveis” aos nossos olhos treinados.
Há beleza em praticamente tudo que nos circunda e Jarmusch expõe isso, utilizando um personagem que tinha tudo para ser desinteressante, mas não é.
Ao longo de uma semana, acompanhamos o cotidiano de Paterson, um motorista de ônibus e poeta. O seu percurso é o mesmo, no entanto, existe sempre um elemento diferente, um que enriquece a sua compreensão sobre o mundo ou que muda o seu ânimo. Uma conversa entre dois amigos é engraçada até o ponto em que uma mulher, silenciosamente, se sente ofendida. Depois, Paterson não ri com eles, mas deles.
Histórias, seja a de Hurricane Carter, seja a de um anarquista italiano, também chamam a sua atenção e, ainda assim, ouvindo atenciosamente pedacinhos da vida de seus passageiros, ele nunca deixa de observar a paisagem, as pessoas, seus semblantes e suas principais características.
Em seu tempo livre, Paterson escreve belos poemas. Suas inspirações estão por aí, podendo ser uma caixa de fósforos, uma canção antiga, a cachoeira…
Introspectivo, o protagonista não expressa verbalmente o que sente, tornando as suas poesias a forma mais pura e genuína de se expor, de se declarar para sua esposa e de refletir sobre os detalhes que permeiam o seu trajeto.
A volta para casa costuma ser silenciosa, mas Jarmusch, profundo conhecedor das imprevisibilidades mundanas, dá um toque especial para cada dia. Em um deles, Paterson se depara com uma garota que está aguardando a mãe e pergunta se pode se sentar ao seu lado. Ele percebe que ela tem um caderno de poesias e fica profundamente comovido ao escutar um. Seu dia não foi mais o mesmo e quem poderia prever que uma criança de dez anos estaria em seu caminho e que teria a capacidade de escrever algo tão belo?
Chegando em casa, ele é recebido por sua mulher, cuja personalidade contagiante contrasta perfeitamente com a introspecção delicada do protagonista. Sonhadora, Laura está sempre decorando a casa, pintando e fazendo desenhos. Ela inventa receitas mirabolantes, assa cupcakes a fim de impressionar a cidade numa pequena feira e pretende ser uma famosa cantora country. Laura é a luz na vida de Paterson, sempre radiante, otimista e dando força para que ele publique os seus maravilhosos poemas.
Nesse sentido, vale ressaltar o amor que Paterson sente por ela, salientado através dos esforços financeiros que faz para realizar seus desejos, a atenção que dá a tudo que Laura diz e o cuidado que tem para não demonstrar que detestou uma torta.
À noite, o protagonista caminha com seu cachorro, com quem mantém um silencioso embate, e depois vai a um bar. Às vezes está cheio e os diálogos fluem, às vezes está vazio e não há nada a se fazer. É interessante notar que todos ao redor de Paterson têm problemas e Doc, dono do bar, é enfático ao dizer: “você é um cara de sorte.” E é mesmo, mas só percebemos graças a abordagem de Jarmusch, que confecciona o seu filme como um poema, no qual as estrofes são os dias e os versos são os pequenos acontecimentos e encontros inusitados.
O diretor, em duas situações, cria um princípio de tumulto, entretanto, desmonta o espectador, apresentando apenas alarmes falsos, o que é fascinante quando paramos para pensar que catarses não cabem na vida de um homem tão simples e regrado.
O final de semana reserva as “grandes surpresas”. Uma cena em especial seria, sem sombra de dúvidas, tratada com uma alta dramaticidade em outras produções, afinal, é tristíssima, porém Paterson não é esse tipo de pessoa, ele apenas guarda a dor, segue em frente e, quem sabe, a transforma em arte.
O azul é a cor chave, estando presente no figurino do protagonista, na parede de sua casa e em alguns detalhes na cidade, que também se chama Paterson. O azul denota tranquilidade e uma sensação de paz de espírito, transmitida ao espectador a ponto dele observar e perceber coisas que nunca deu o devido valor. A casa é colorida e cheia de vida, graças a inspiração de Laura, que sempre tem uma nova ideia de decoração. Juntamente com o diretor de fotografia, Jarmusch cria uma lógica interessante, posicionando Paterson nos lugares “frios” da residência e Laura, nos mais “quentes”, ressaltando o contraste entre os dois.
A forte luz que reflete no vidro do ônibus, penetrando seu rosto, é um indicativo da satisfação e da felicidade do protagonista perante sua vida.
Everett, um personagem secundário, sempre aparece com uma camisa vermelha – sofre por amor – e, na última vez que o vemos, ele está todo de preto – triste, de luto, mas tentando seguir em frente.
Jarmusch é preciso ao adotar uma abordagem simples e cotidiana, dando ao espectador a oportunidade de perceber sutilezas, como as diferentes posições que o casal acorda durante a semana e a cor de seus travesseiros. O de Laura é azul, o de Paterson é idêntico à roupa de cama – quase uma extensão. Por que? É claro, o protagonista faz as mesmas coisas todos os dias, sua mulher não.
Podemos dizer que a câmera nunca sai de Paterson, afinal, esse é o nome do personagem central, da cidade e do ônibus. Jarmusch explora as mínimas reações do protagonista: sorrisos sinceros que saem de conversas casuais ou de elogios. O diretor cria rimas interessantes a partir de informações previamente mencionadas. Se Laura sonha em ter gêmeos, Paterson vai se deparar com alguns ao longo de sua semana, inclusive a garota que lê um poema, cujo título, por acaso, é Water Falls, o lugar favorito do protagonista na cidade, onde escrevia a maioria de suas poesias.
E quando algo acontece com o ônibus e ele precisa ligar para a central de controle, lembramos que Paterson não tem um celular e fica com vergonha de pedir um emprestado. A montagem corta para um plano de um telefone público quebrado, evidenciando a falta de opção do protagonista.
O fato do casal comemorar o sucesso dos cupcakes de Laura assistindo um filme é mais um acerto de Jarmusch. Ir ao cinema não é grande coisa, mas deveria ser e na vida dessas pessoas é algo fora da curva.
O diretor dá várias dicas envolvendo determinadas ações do cachorro – bastante expressivo por sinal – e uma delas é engraçadíssima.
Adam Driver oferece uma performance extremamente humana, que impressiona pela genuinidade e pela gama de sentimentos que transmite com olhares e gestos muito sutis. O ator encarna Paterson com uma sensibilidade admirável, capaz de encantar e fazer o espectador sorrir sem nem perceber. Sabemos exatamente quando ele não se sente confortável, quando está triste, feliz e concentrado; quando ri verdadeiramente e quando é apenas um protocolo. Ninguém bebe tanta água com comida na boca, a não ser que a queira engolir rapidamente…
“Paterson” é uma obra prima que tento revisitar todo ano. É revigorante e importante para ampliar a visão dos seres humanos, ainda mais em tempos de redes sociais, alta tecnologia e uma crescente impessoalidade.
