“TÁR” é um estudo de personagem formidável. Um filme que entende a essência e as diferenças entre o artista e o ser humano.
Pouquíssimas pessoas fazem parte do seleto grupo chamado EGOT – vencedores dos prêmios Emmy, Grammy, Oscar e Tony – e Lydia Tár pode se considerar uma afortunada. O filme começa com uma entrevista que prova que ser alçado à condição de gênio é uma maldição.
A protagonista sabe disso e mantém uma postura extremamente profissional, racional e segura em todos os encontros, reuniões e almoços. Tár é sinônimo de perfeccionismo e a regente da filarmônica de Berlim mede cada reação, gesto e palavra. Suas aulas e ensaios provam o seu brilhantismo, misturando firmeza, delicadeza, intelectualidade e cultura em curtos espaços. Vê-la em cena é um prazer, é absolutamente fascinante e o seu entendimento sobre o poder da música me comoveu bastante. “É o que você sente quando escuta”. As notas refletem pedaços da alma do artista e ter que reinventar sinfonias como a quinta de Mahler não é uma tarefa simples. Você deve mergulhar nas profundezas de seu inconsciente, medir o tempo, sentir o espaço e o som de cada instrumento, que deve acompanhar o coração dos músicos.
Em determinada cena, um aluno diz que não gosta de Bach por suas condutas e controvérsias. Tár responde que um regente não pode ser tão narcisista e suscetível. Seu trabalho é decifrar o que se passa na mente do compositor, o que requer muita paixão, personalidade e desprendimento.
Não é sobre julgar uma pessoa, mas sobre compreender sua magnitude e inevitabilidade. O regente precisa, simultaneamente, se obliterar e estar presente. Não é nada fácil, assim como lidar com o status de gênio, que, além de catapultar sua carreira, muda a sua perspectiva em relação à vida e aos seres humanos que o circundam.
Tár é possivelmente a melhor no que faz, mas qual é o preço que se deve pagar para chegar a esse lugar?
A protagonista não se importa verdadeiramente com ninguém, apenas com sua filha, no entanto, não tem habilidades suficientes para cumprir uma função materna, o que é exposto na cena em que ela ameaça brutalmente uma garota de oito anos que implicou com Petra. Ela a ama, porém nunca está presente e o mesmo pode ser dito sobre sua relação com Sharon – sua esposa -, musicista na filarmônica. O único momento no qual vemos a cor rosa, é quando as duas se beijam e relaxam – mas o tom suave é rapidamente intrometido pela marcante escuridão que toma conta do filme.
A paleta de cores reflete o estado emocional de Tár, que varia entre a solidão e a solitude. Ela precisa ficar sozinha para criar e esquecer dos demais que dependem de seu afeto. A protagonista mal dorme, seu sono é intermitentemente despertado por barulhos mínimos que a perturbam profundamente.
Tár se preocupa apenas com o seu próprio universo.
Sua assistente, Francesca, é um grande exemplo da alienação da protagonista. A jovem é atenciosa, cuidadosa e demonstra uma vontade de se envolver com a regente, entretanto, Tár não lhe dá a mínima bola.
A protagonista, de um modo geral, desconsidera as pessoas, no sentido de não as valorizar ou as levar a sério e quando agradece por algo, faz um tremendo esforço para parecer genuína.
Alguns músicos são considerados indispensáveis na orquestra e Tár, de uma forma baixa e falsamente cordial, mostra que está acima de qualquer um. Ela não grita, mas sabe muito bem como se colocar em uma posição de superioridade e os contra-plongées exploram a sua magnitude.
Ao mesmo tempo em que detestamos suas atitudes e falta de carinho, sentimos pena dela, que se viu em uma posição na qual nada abaixo da absoluta perfeição seria aceitável.
A protagonista quer reinventar a sinfonia mais complexa da história e acaba se sabotando no processo, tornando-se egoísta, pouco presente e arrogante.
Enxergamos o seu esforço, sua luta, seu sono e sua atuação diária para chegar no topo e quase a perdoamos quando a vemos no palco, regendo os músicos com extrema sabedoria e delicadeza. A cena em que ela chora talvez seja a alma do filme, o que representa o fazer artístico – se arrebentar e obter resultado.
Tár precisa correr e lutar boxe, caso contrário, seus sentimentos refletidos em seu trabalho ficariam enjaulados em um corpo que optou pela distância e uma mente atordoada por mistérios do passado.
No terceiro ato, uma sub-trama toma conta do filme e abre espaço para novos questionamentos. Talvez sua fala sobre Bach e o perigo de falsos julgamentos tenha sido uma auto-defesa. Não podemos culpá-la nem absolvê-la. Sua rígida e irretocável aparência se esvai, dando espaço a uma fragilidade tocante, que flerta com a insanidade, levando-a à solidão – não confundam com solitude – e ao fundo poço – artística e socialmente. O desfecho é genialmente irônico e amargo.
Todd Field sabe que vivemos no período da cultura do cancelamento.
Além da reviravolta, existe uma personagem que se aproxima bastante de Tár e desperta sentimentos calorosos nela.
Olga torna a protagonista uma personagem ainda mais complexa e difícil de julgar. Sua presença representa o lado adormecido dentro da regente ou um passado condenável?
A verdade é que para alcançar certos feitos, esquecemos quem somos, de onde viemos e para onde vamos.
A direção de arte combina perfeitamente com a fotografia, optando por locações cinzentas e escuras, a não ser quando estamos no teatro, onde as luzes e as cores brilham como em um espetáculo.
A montagem, assim como a regente, dita o tempo e o ritmo. Os cortes são precisos, capazes de expor o sofrimento da protagonista, a raridade de momentos agradáveis e realizar rimas visuais inesperadas. Em uma delas, Tár toca algumas notas no piano e, logo em seguida, a vemos regendo a orquestra com uma imponência impressionante.
Todd Field – o simpático Nick Nightingale, de “Eyes Wide Shut” – merece todos os elogios e indicações. Sua direção é espetacular e seu repertório é vasto. Seus enquadramentos são expressivos; percebam como Francesca está quase sempre em segundo plano; sua mise en scéne desperta sentimentos intensos na protagonista e sugerem diferentes tipos de tensão – esteja sua câmera estática ou em um longo plano que dura dez minutos. Os únicos close ups da protagonista são para demonstrar reações poderosas, seja ao temer pelo seu futuro, ao reger a orquestra ou ao chorar assistindo o vídeo que a motivou a ser uma artista. Field também sabe a hora de movimentar sua câmera com mais ênfase para explorar a psique de Tár.
Cate Blanchett entrega, sem dúvida alguma, a performance de sua carreira. Se a considerava uma grande atriz, agora a considero fenomenal. Ela varia brilhantemente entre uma entrega total física e sentimental e uma retenção emocional que a afasta da maioria das pessoas. Existe a artista apaixonada, o gênio que mantém sua aparência e uma mulher complexa, que precisa lidar com uma série de pressões e acusações. Blanchett dá vida a todas essas personas com um talento poucas vezes visto. Me arrisco a afirmar, mesmo não tendo assistido ainda as atuações concorrentes, que uma eventual derrota sua no Oscar será um dos maiores absurdos cometidos pela Academia.
“TÁR” é uma obra de arte, um filme complexo e belo que exige do espectador um esforço reflexivo.

