“Crooklyn” é, sem dúvida alguma, um filme autobiográfico. A abertura é bela e nostálgica, o tipo de coisa que se observa de longe, sabendo que se trata de um passado distante. As crianças brincam e correm pelas ruas ensolaradas. A música é contagiante e casa perfeitamente com a sequência orquestrada por Spike Lee. “Crooklyn” é sobre pular corda, soltar bolas de sabão, pular amarelinha, dançar e lançar aviõezinhos. É sobre pequenas coisas e momentos específicos, o que move as nossas vidas e as torna especiais.
O protagonista é a família e a trama é o cotidiano dentro de uma casa apertada e tumultuada. As crianças querem assistir TV até tarde e a mãe é bem rígida em relação a isso, afinal, é ela quem paga pela eletricidade. Mas há de se considerar que uma final de conferência não bate todo ano na porta dos Knicks. Os irmãos brigam pelo canal favorito e quando se deparam com uma unanimidade, encontram uma forma de se implicar.
Woody é um músico purista e Carolyn é uma professora pragmática. Não importa o emprego, a única coisa que ela quer no fim do mês é o dinheiro em cima da mesa e seu marido tem passado por uma crise criativa – muito pelo contexto caótico da casa.
A mãe força o filho a comer feijões – fontes de cálcio – e o pai traz bolo com sorvete. Ela é chata e ele é legal. O mais velho, inclusive, diz isso de uma forma deselegante, resultando em uma das várias cenas de discussão.
Dito isso, a casa, ainda que caótica e barulhenta, é tomada por cores fortes que reforçam o amor que um sente pelo outro. Jantares, passeios de carro e abraços permeiam a trajetória dessa família que demonstra afeto a partir de gestos genuínos e preocupações. Lee controla perfeitamente o tom. Toda família é confusa de sua forma, no entanto, o que sempre deve prevalecer é o amor. O diretor sabe a hora de movimentar a câmera de maneira mais efusiva e alongar um plano, nesse sentido, a montagem acompanha a sua dinâmica, cortando sem parar, instaurando o caos. Em contrapartida, Lee não economiza nos close ups e nos planos conjunto quando quer aproximar os personagens. O filme é tocante e engraçado, porque é relacionável.
Lee não fica apenas no núcleo central e os desenvolve individualmente também. Obviamente, não todos, dando maior ênfase para Woody, Carolyn e Troy.
Ele é agradável, cordial e carinhoso com seus filhos. Sabe que deveria entregar mais financeiramente, porém não coloca esse problema à frente de suas pretensões artísticas. Woody poderia ficar chateado por seu filho ter escolhido assistir a um jogo de basquete em vez de ter ido ao seu concerto, mas esse não é o seu estilo. Seu otimismo é reconfortante e é um excelente contraponto ao pragmatismo de Carolyn, que vê as coisas de forma óbvia e clara. Seus filhos devem comer tudo e ponto final. Ou você trabalha e ganha dinheiro ou é melhor nem se desgastar. Ela é extremamente regrada e rígida com os filhos, que podem fazer certas coisas até determinado horário. Ainda assim, quando alguém os acusa de algo, Carolyn é a primeira a defendê-los veementemente. Ela sabe do que suas crianças são capazes, mas não duvida, por um segundo sequer, do caráter delas.
Ambos têm personalidades fortes e se complementam. Disciplina e descontração se misturam e resultam nessa delícia que temos o prazer de assistir.
Troy é a filha escolhida por Lee, o que é justo, já que ela é a que passa por maiores transformações e é a mais interessante de se analisar.
Sonâmbula, a pobre coitada faz xixi no meio do quarto e tem pesadelos com os viciados do seu bairro, em um dos melhores usos do famoso “Double Dolly” da carreira do diretor, expondo todo o pavor da menina e o medo de se envolver com drogas. No final, ele realiza uma rima visual utilizando o mesmo recurso, explorando o sonho na vida real.
Troy está prestes a completar dez anos e gostaria de ter seios enormes. Ela nunca diz isso, contudo, seu olhar no espelho e o fato de enfiar montanhas de papel higiênico dentro da camisa deixam nítido o seu desejo. Troy quer roubar um doce em uma mercearia, quer pegar as moedas do irmão mais velho, quer se revoltar e se surpreende ao se deparar com a prima, que ela julgava ser arrogante e mesquinha. Cada vez mais leve e passando a enxergar a beleza de seu cotidiano confuso, Troy precisa lidar com algo difícil e passa a assumir responsabilidades que nenhuma garota de sua idade deveria. Seu arco é significativo e, de certa forma, triste.
O Brooklyn nunca esteve tão radiante, Lee é nostálgico ao retratá-lo e a fotografia é certeira ao optar por tons fortes e vibrantes.
A direção de arte e Lee fazem da residência dos Carmichael um ambiente, simultaneamente, claustrofóbico e acolhedor. O vermelho meio alaranjado das paredes reflete no carinho que um nutre pelo outro. O contraste entre a casa dos protagonistas e a residência luxuosa da tia de Troy é evidenciado não só pelos objetos valiosos, mas pela presença marcante do branco e por um truque de mestre de Lee.
A trilha sonora é a força motora do filme, o que dita o ritmo e o tom do espetáculo. As músicas escolhidas, além de excelentes, encaixam brilhantemente dentro da trama.
Alfre Woodard oferece uma interpretação repleta de controle e emoções poderosas. Carolyn é o tipo de mãe que não mede esforços para batalhar pelos filhos, mas é igualmente enfática quando precisa dar uma bronca.
Delroy Lindo é uma presença simpática e calorosa. É impossível não se encantar por seu personagem e o ator usa todo o seu carisma para torná-lo ainda mais especial.
Zelda Harris impressiona por conseguir tanto com tão pouco. Suas reações e gestos são expressivos na medida certa, sem nunca passar do ponto.
Alguns temas fundamentais dentro da filmografia de Lee aparecem aqui, sendo o principal o racismo enraizado na sociedade, ressaltado na forma como os próprios irmãos se chamam na mesa de jantar.
“Crooklyn” deve ter sido um dos filmes mais prazerosos que Spike Lee já realizou. A impressão que temos é que cada canto, cada esquina e mercearia escolhidos fizeram parte da infância do diretor.

