Uma das grandes qualidades dos filmes de animação é transportar o espectador para lugares que ele jamais imaginou conhecer. Visualmente, “Vida de Inseto” é um filme bonito e imaginativo, que leva o seu universo a sério. O design de produção e a fotografia trabalham muito bem as diferenças entre os espaços, optando por ambientes abertos, coloridos e repletos de luz na colônia das formigas e uma atmosfera soturna, suja e “abandonada”, quando Flik parte em busca de ajuda. O território habitado pelos gafanhotos é árido e é interessante notar que dentro do grupo, Hopper – líder e vilão da história – é o menos colorido. Gosto também da forma como o diretor dá ênfase para o tamanho de cada ambiente. A nossa perspectiva é a de Flik, logo, quando sua jornada fora da colônia se inicia, tudo parece maior e inovador.
O design dos personagens também merece elogios. Cada espécie tem a sua particularidade, o que acaba sendo essencial para o desfecho e a mensagem deixada pelo diretor.
Como mencionei, “Vida de Inseto” é um filme cuidadoso e excelente em termos formais. John Lasseter permite que o espectador aprecie o seu universo e surpreende ao utilizar planos que colocam determinados personagens em uma posição de dominância, ressaltando que sua obra é sobre poder, a capacidade de oprimir um grupo e o medo de ver a sua dominância se inverter.
Em “Blue Collar”, de Paul Schrader, disse que os líderes sindicais fazem de tudo para desunir os operários, pois sabem que juntos, os trabalhares assumem uma força significativa. Guardadas as devidas proporções, são vários os paralelos que podem ser feitos entre esses dois filmes. A grande diferença é que, enquanto um foi realizado no ápice do novo cinema americano, o outro é uma produção infantil, que, no meio de momentos fofinhos e doces, reflete sobre relações de poder.
As formigas trabalham como um conjunto praticamente infalível. Sua função principal é juntar alimentos para os gafanhotos antes que o verão acabe, dando lugar a chuva. Dentro da colônia, está o herói da história, Flik, um empreendedor desajeitado, que tem ideias interessantes, mas é capaz de colocar tudo a perder. Seus colegas conhecem a sua reputação e se preocupam. A princesa gosta dele e o roteiro deixa nítido desde o início que haverá um “romance” entre os dois. Flik acaba derrubando todo o alimento dos gafanhotos, que surgem enfurecidos. Hopper, claro, é enfático: se até o fim do verão as formigas não reabastecerem o estoque, estarão em apuros. A fim de se livrar do protagonista, a princesa permite que Flik saia da colônia em busca de insetos maiores, capazes de acabar com a tirania dos gafanhotos. Por acaso e, nesse sentido, o roteiro amarra bem as pontas, ele se depara com um grupo de insetos circenses atrás de emprego. A trama de mal-entendidos funciona e leva os tais bichos, cada um com a sua característica – um graveto, uma joaninha que ainda não descobriu o seu sexo, uma lagarta gorda prestes a se tornar uma borboleta… – à colônia. Acontece que eles não são guerreiros e acreditam que estão a caminho de um novo emprego.
A situação é revelada, há um princípio de turbulência, no entanto, a união prevalece. Acostumados com a rejeição, os insetos circenses encontram carinho, compaixão e alegria ao lado das formigas e decidem ajudá-las a combater os gafanhotos.
O embate final chama a atenção pela quantidade de cores expressivas disponíveis em tela. O céu vermelho anuncia a chegada dos vilões, a neblina potencializa a tensão e o fogo indica o caos.
No fim, o maior temor de Hopper se realiza, as formigas se unem, deixam de ter medo e atacam seus opressores. O desfecho do antagonista é satisfatoriamente irônico. O corte seguinte, além de elegante pela rima visual, é importante para salientar que a colônia vive uma nova fase, ainda mais colorida e harmoniosa.
Dentro do elenco, a única interpretação que merece um destaque especial é a de Kevin Spacey, que faz de Hopper um vilão temível, cuja imponência está, principalmente, na força irônica de sua voz.
“Vida de Inseto” tem arcos identificáveis, caminha em territórios sólidos e é inegavelmente muitíssimo bem realizado.

