“Dr. Strangelove” não é uma comédia que grita e esperneia por risadas. O filme de Stanley Kubrick é sofisticado e engraçadíssimo de forma sútil. É fácil dizer que não entendeu a graça ou que nada funciona, o difícil é perceber o brilhantismo das atuações e do roteiro de Kubrick, que, infelizmente, continua atualíssimo.
A falta de luz na sala do General Ripper denota falta de lucidez e ele ordena um ataque de emergência contra os russos. Sua seriedade e alta patente convencem os demais, que não pensam duas vezes e partem em direção ao destino. Seu executivo, Lionel Mandrake, prepara tudo e, gradativamente, percebe que Ripper está completamente louco. Ele tem aversão pelos comunistas, pois acredita que eles poluíram seus fluídos corporais. A interação entre os dois é absolutamente hilária. Sterling Hayden faz de Ripper uma figura sisuda, que passa uma certa credibilidade. O ator não desfaz essa persona, no entanto, percebemos que seu único intuito é apertar um botão, seja lá por qual motivo. Sua insanidade não está em caretas ou distorções vocais, mas no esclarecimento da situação, que salienta a sua condição e o seu total despreparo para exercer um cargo de tal importância. Ripper não diz absolutamente nada que faça sentido e Hayden está sensacional. Em contrapartida, Mandrake é um pobre coitado, um oficial honesto e humilde que obedece a ordens. De repente, ele se vê preso em uma sala com um maníaco com uma metralhadora que faz discursos sobre fluídos corporais. Peter Sellers é o contraponto perfeito a Sterling Hayden, um eleva o timing cômico do outro.
Na época em que o filme foi realizado, o mundo vivia em estado de alerta com uma possível guerra nuclear. O tão famoso “botão” era motivo de pesadelos e Kubrick foi direto na ferida. Ripper envia esquadrões municiados de armas nucleares para a Rússia, que, logicamente, resultaria em um rápido contra-ataque. Em Washington, o Presidente dos Estados Unidos e seus aliados discutem soluções e, aos poucos, percebem que não podem fazer muita coisa. O roteiro é sutil, as críticas estão por todos os lados e são feitas de maneira brilhante. Merkin Muffley, o Presidente, também interpretado por Sellers, fica horrorizado com a atitude de Ripper e a considera inadmissível. No entanto, ela só foi possível, porque o próprio Muffley havia aprovado uma lei pela qual qualquer General poderia ordenar um plano de emergência. Homens se reúnem em uma grande mesa para decidir o futuro da humanidade. Eles são os representantes máximos, mas não conseguem nem se lembrar das leis que promulgaram, além de serem imaturos, desonestos e individualistas. Assim como a química entre a dupla anterior, o Presidente e o General Turgidson não deixam a peteca cair e dão um show de comicidade. Muffley está tranquilo, quer apenas entender a situação e caso seja necessário, tomar alguma atitude para controlá-la. O humor vem das respostas de Turgidson, que sempre desmontam o Presidente e enfatizam a seriedade do caso que, sinceramente, parece irreversível. O jogo de reações faciais de George C. Scott e Peter Sellers é espetacular, ambos são expressivos e engraçados. A voz de Turgidson denota medo e uma vontade tremenda de tranquilizar os colegas, contudo, suas respostas são pessimistas e expõem o despreparo de todos, inclusive dele, que atende ligações de sua secretária, com quem mantinha um caso enquanto o mundo estava prestes a entrar em colapso. C. Scott faz caretas impagáveis e sua entonação varia perfeitamente, mas o maior destaque dentro de sua composição são seus trejeitos, que se tornam mais acelerados com a iminência da catástrofe. A cena em que ele cai no chão está entre as melhores e eu acabei perdendo a conta de quantos chicletes Turgidson comeu durante a reunião. O personagem adoraria que os comunistas fossem bombardeados, sabe que não pode expor esse desejo e que o fim de seus “inimigos” resultaria no seu também, mas não consegue esconder sua euforia por alguns segundos. Suas brigas com o embaixador soviético também são memoráveis e fundamentais para salientar o grau de infantilidade dos líderes mundiais, que se preocupam mais com rótulos e rixas pessoais. A performance de C. Scott é grandiosa, uma verdadeira aula de humor, que poderia se tornar caricatural, porém nunca passa do ponto. Até mesmo quando não esperamos mais nada, o ator nos presenteia com uma excelente piada sobre os valores da monogamia e como seria difícil para os homens abandoná-la.
Por último, temos Peter Sellers, cujas “atuações” me deixam impressionados toda vez que assisto ao filme. Entre os seus personagens, o que mais me agrada é o Presidente, que, como disse, inicia de maneira serena e tranquila e, gradativamente, se torna agitado e desesperado. Diferentemente de C. Scott, Sellers opta por uma caracterização mais sóbria. Muffley quer mostrar que tem a situação sob controle, afinal, é o Presidente do país mais importante do mundo, entretanto, a cada nova informação, ele parece mais distante e perplexo. São alterações sutis em seu rosto, porém extremamente engraçadas e bem calculadas. Suas interações com o Presidente russo são sensacionais, pois realçam o sentimento geral da época. Um tem uma arma nuclear virada em direção ao outro e, “sem querer”, alguns aviões foram lançados, mas eles tentam manter um “clima amistoso” e pisam em ovos como ninguém. As críticas não são restritas aos americanos, Kubrick aponta os dedos para ambos os lados e introduz o líder russo como um homem bêbado e “despreocupado”. Ele nunca aparece, apenas ouvimos os telefonemas, o que eleva a performance de Sellers. Presos a uma lei completamente sem sentido e tendo como único sujeito capaz de contornar a situação um General insano, os americanos tentam dialogar com os inimigos e descobrem que assim que suas bombas aterrizassem, a arma do juízo final seria automaticamente iniciada, dando fim a toda a humanidade. Por algum motivo de extrema inteligência, não há como desarmar a arma, ou seja, o mundo irá acabar caso os aviões não sejam interceptados.
Sellers também dá vida ao personagem título, um cientista alemão que demonstra fascínio por bombas e trava uma luta ferrenha contra os espasmos de sua mão direita, que remetem ao seu passado nazista. Ele pouco aparece, mas rouba a cena. Diferentemente das outras caracterizações, Sellers abusa de trejeitos e parte para uma abordagem mais física, que é genial, sem falar no sotaque. Seu discurso final é icônico, assim como a sua última fala, que precede o meu desfecho favorito de todos os tempos. Kubrick só realizou finais memoráveis e reflexivos, no entanto, nenhum chega ao nível de “Dr. Strangelove”, que consegue ser épico, engraçado, preocupante e belíssimo.
O filme ainda tem um terceiro núcleo, que é regido pelos pilotos do avião. O mais brilhante aqui é a trilha sonora, que evoca o heroísmo deles, que acreditam que estão salvando a pátria, quando, na verdade, estão prestes a destruir o universo. Os planos-detalhe enfatizam os mínimos preparativos da missão e a montagem é precisa ao gerar uma surpreendente tensão nos momentos derradeiros. A minibíblia e a revista Playboy são sutilezas inteligentes e a imagem do piloto cowboy montado no míssil é inesquecível.
Kubrick realiza planos importantes, alguns de seus ângulos são primordiais para a valorização absoluta das expressões faciais. Sabemos o que Ripper fará, porque o diretor fecha o quadro em seu rosto e revela seus sentimentos, entretanto, o que mais chama a minha atenção é a generosidade de Kubrick – ainda jovem -, que entendeu quem eram as verdadeiras estrelas do espetáculo.
“Dr. Strangelove” é um dos meus filmes favoritos, uma obra prima que alerta para os poderes dados aos líderes, afinal de contas, eles são humanos…

