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Francesco, giullare di Dio (1950)

Roberto Rossellini é o pai do Neorrealismo italiano. Seus filmes operam num registro de tamanha naturalidade que parecem capturar a própria vida, trazendo à tona destruições e tristezas das quais as pessoas já não se recordam. “The Flowers of St. Francis” é encenado de tal forma, mas funciona numa dimensão espiritual – um convite a enxergar o mundo por uma ótica essencialmente nobre, imune a pensamentos mesquinhos. São homens que aparecem na tela; no entanto, não os que conhecemos no cotidiano. Claro, aqueles são apóstolos de Deus; refiro-me a uma empatia básica que se perdeu num mundo de estímulos e “obrigações”.

Rossellini não faz uma biografia de São Francisco de Assis; seu filme é dividido em curtas vinhetas que apresentam situações específicas vividas pelo protagonista e seus irmãos de fé. De um ponto de vista objetivo, pouco acontece; não há nenhum “grande” feito. Tudo é metafísico, um convite a celebrar as palavras divinas, os princípios de Francisco e a vida em comunhão. A própria estrutura, negando uma progressão dramática, serve ao caráter espiritual do filme. Os ambientes solares e a integração entre o homem e a natureza são como uma meditação. Enquanto o protagonista conversa com Deus, a montagem nos leva aos passarinhos na árvore, fomentando uma atmosfera de pureza absoluta. Rossellini reforça a adoração dos irmãos por Francisco ao posicioná-lo no centro do quadro, rodeado de amor. O diretor privilegia planos abertos e uma grande profundidade de campo, o que, além de conferir um visual belíssimo ao filme, ressalta o fato de que a casa daqueles homens é o mundo, a natureza… qualquer lugar onde a palavra divina possa ser pregada. Mais do que isso: Rossellini nos insere num universo em que posses e conceitos materiais são irrelevantes – a profundidade de campo traz esse senso de liberdade, de uma graça inconfundível. 

São Francisco de Assis era filho de um homem rico e decidiu viver em prol dos pobres, distribuindo seus próprios bens. Sua vida foi um ato contínuo de bondade, humildade, carinho e honestidade. Ele era um líder justo e respeitoso, mas que sabia da importância de impor penitências aos seus irmãos. Nazario Gerardi não era um ator profissional – essa foi sua primeira e última aparição nas grandes telas. Ele capta o tamanho da ternura e da solenidade do protagonista sem esforço, mantendo-se sereno, atento aos irmãos e às indicações divinas. Sua corporalidade transmite confiança e um nível de paz que não dialoga com a humanidade que eu conheço. 

Entre as vinhetas, há momentos pequenos, como aqueles em que os personagens cozinham e rezam, que formam uma noção de cotidiano, e outros, de cunho mais simbólico. O episódio em que Francisco, após orar na floresta, depara-se com um homem leproso é o mais arrebatador. É o momento mais sombrio da narrativa. O protagonista demonstra um amor incondicional pelo pobre coitado e o abraça, mas percebe que não pode fazer nada, deixando-o partir em direção à escuridão. Francisco desaba em lágrimas, lamentando por ter “falhado”. Rossellini, então, faz um tilt-up, apontando a câmera para o céu, numa rima visual que se repete no desfecho. Em outra vinheta, Ginepro, o irmão mais agitado, enfrenta a brutalidade de um tirano. Quando o padre local descobre a origem de Ginepro, seus olhos brilham – Francisco é admirado por todos que carregam a palavra de Deus. “Ele é amigo de todos”. O olhar bondoso e a feição imutável do irmão diante do tirano estabelecem um duelo particular entre bem e mal. Rossellini, um autêntico católico, crê na vitória daquele cuja única arma é o altruísmo. Os irmãos sabem que sempre estarão em dívida com Deus e, por isso, não medem esforços para servi-lo. Em outro momento, Francisco é preciso ao afirmar que a maior felicidade de um apóstolo é sofrer ou sentir dor em nome de Deus. 

O maior mérito de Rossellini é inserir o espectador num universo metafísico, banhado em empatia e simplicidade, sem tirar os pés do chão. A dinâmica entre os irmãos não é pesada; pelo contrário, eles riem de forma espontânea. Sua câmera é delicada, evitando movimentos bruscos ou excessivos, salientando aquilo que realmente importa. Essa disciplina estética dimensiona os feitos e a personalidade de um dos homens mais nobres que já pisaram na Terra. 

“Francisco, o Arauto de Deus” é uma obra prima obrigatória para quem deseja reajustar sua visão sobre o mundo.

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