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Folhas Mortas (1956)

Lançado em 1956, “Autumn Leaves” é um dos trabalhos mais subestimados do mestre Robert Aldrich. Um filme que abraça o melodrama sem medo, contando com uma das atrizes que melhor traduziu suas nuances. A música tema, cantada por Nat King Cole, nos guia para um universo belo e melancólico. 

Milly é uma mulher solitária, que parece ter aceitado tal condição como um destino incontornável. Ela é secretária, mas prefere trabalhar em casa, usando a máquina de escrever para preencher as lacunas do tempo. Em um concerto, ao escutar o piano, Milly se recorda de um relacionamento do passado. Há algo em sua alma que a impede de ser feliz – ela precisa entender que não é uma pessoa amaldiçoada. Eis que, num despretensioso jantar, surge Burt, um jovem que faz questão de puxar conversa e de se sentar ao seu lado. Aldrich retrata o desconforto da situação por meio de uma dinâmica de plano e contraplano, abrindo o quadro, num plano conjunto, quando Milly finalmente relaxa. Burt é sedutor, cheio de vida e dono de uma rara característica: gosta de escutar o que os outros têm a dizer. Há um princípio de romance, mas a protagonista, como de costume, faz questão de dificultar as coisas. À sua visão, Burt merece uma mulher mais jovem, que compartilhe das mesmas ânsias etárias. Milly psicologiza demais, sempre jogando contra si – suas decisões visam um retorno à conhecida solidão. Por que? Medo do compromisso? Milly acredita ser altruísta, capaz de fazer um bem a todas as partes, quando, na verdade, o resultado é exatamente o oposto. Ela acaba cedendo às investidas de Burt, acreditando, enfim, no amor. 

A divisão estrutural em “Autumn Leaves” é evidente. Primeiro, temos um estudo de uma personagem que pensa ter se comprometido com a solidão, negando qualquer possibilidade contrária. Depois, casada, Milly incorpora uma força impressionante, levando a ideia do matrimônio às últimas consequências. Na primeira parte, tínhamos vislumbres de Burt, que aparentava ser um jovem gentil e sensível. A vida a dois é reveladora, podendo ser emocionalmente brutal. Certas informações e histórias do passado são trocadas. Burt nasceu em Racine ou em Chicago? Seu pai não estava morto? Ele já foi casado? Aos poucos, percebemos que estamos diante de um homem que sofre de sérios distúrbios psicológicos, potencializados pelos maus tratos de um pai que, além de não entender a vulnerabilidade do filho, traiu sua confiança, ficando com Virginia, sua então esposa. Milly foi uma porta, a chance de assumir uma nova personalidade, expurgando os demônios do passado. Os presentes excessivos, a promoção no trabalho… Burt cria cenário de estabilidade. Milly tem duas possibilidades: o divórcio ou lutar pela sanidade do marido. Na cena em que ela o confronta com a verdade, Aldrich organiza uma mise en scène desconfortável, com os personagens se deslocando pela casa, numa dinâmica de distanciamento e aproximação constante. 

Cliff Robertson está brilhante, justamente por surgir como uma figura doce e inocente para, gradualmente, incorporar toques psicóticos. Aldrich, em seus close-ups, expõe um homem atormentado, completamente fora de si e até agressivo. Em um momento de fúria, o cineasta, a partir de um contra-plongée, destaca seu lado animalesco. As sombras começam a dominar o apartamento, aumentando o peso dramático. Milly decide ser a salvadora, retribuindo o favor; afinal, sem Burt, ela estaria na antiga escuridão. O roteiro aborda com bastante maturidade as questões psicológicas, vistas com preconceito naquele período – um tabu que ainda existe nos dias atuais. A cena em que Burt é carregado para o hospital psiquiátrico é de uma potência enorme, alcançada graças às performances centrais. Os gritos de Robertson ecoam raiva, vulnerabilidade e medo; enquanto Crawford, num misto de tristeza e apreensão, tampa os ouvidos. O amor e a pureza daquela relação são traduzidos logo em sequência. Distantes, em ambientes diferentes, vemos os dois por meio de ângulos holandeses – o cotidiano está desequilibrado; falta algo. O desfecho une tudo que há de essencial e belo nos personagens. 

Joan Crawford é a rainha do melodrama. Seu rosto transmite, simultaneamente, uma série de emoções. Ao ser agredida, ela consegue combinar dor física, melancolia e uma preocupação para fingir que está tudo bem. Seria injusto dizer que o peso da narrativa está nela – Robertson merece muitos elogios -; no entanto, é Crawford quem oferece uma complexidade dramática maior, variando entre força e retenção. 

“Autumn Leaves” é uma obra prima que, injustamente, não tem o devido reconhecimento.

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