“O Espírito da Colmeia” é o tipo de filme que gera uma revolução naquele que o assiste. Victor Erice não subestima o espectador, dando, ao mesmo tempo, tudo e nada. Quase nada de concreto acontece, mas há tanto significado em cada plano. Talvez seja o retrato mais sofisticado da perda da inocência. Uma inocência que não é aniquilada, mas que sofre transformações brutais. Onde tudo começa? No cinema, um lugar que, para aquelas pessoas, que vivem num vilarejo abandonado na Espanha, representa um luxo, uma viagem a terras mágicas. O que falar da tela pintada na parede, onde o filme é projetado? Como é belo o esforço e triste constatar tais condições. Os olhos, dos adultos e das crianças, ficam vidrados, atentos às ações do Monstro (a sessão exibe “Frankenstein”, de James Whale).
“Isabel, por que ele a matou?”, pergunta a pequena Ana. O cinema é um catalisador de signos e conceitos, principalmente para as crianças, que, presas num mundo seguro e ingênuo, têm a chance de se deparar com as dualidades da trajetória humana. Isabel, sua irmã, responde: “Te contarei depois”. A partir daí, concluímos que, apesar de terem a mesma idade, tratam-se de jovens bastante diferentes. Ana é encorajada pela novidade, sofrendo uma revolução que aguça sua imaginação. Isabel, igualmente curiosa, parece se intrigar mais pela possibilidade de fazer aquilo que não parece certo, de brincar com conceitos sérios que, para seu cérebro, ainda subdesenvolvido, podem ser vistos como brincadeiras. Não à toa, na cena mais angustiante do filme, ela quase estrangula um gato – é a maldade inocente, que precisa ser investigada antes que os ciclos se acelerem. A morte é um dos motes narrativos. Em outro momento, Isabel simula a própria morte, com a intenção de despertar pânico e desorientação na irmã. Ana quer entender a morte; o que leva alguém a tirar a vida do outro; quer aprender a distinguir o bem e o mal, numa ótica real, não cartunesca. De um lado, o prazer por subverter a ordem; do outro, um mergulho num universo em que moral e ética estão prestes a dar um nó em sua cabeça. Ana é uma folha em branco, começando a ser escrita por tintas, letras e palavras de diferentes tons, cores e tamanhos.
O que rege suas existências? O silêncio. No pequeno vilarejo, nada acontece. Não há nada além de um vazio constante e da sensação de que aqueles seres, como abelhas presas às suas colmeias, estão fadadas a um fim pouco lisonjeiro. Os planos abertos das vastas paisagens cinzentas apresentam um contraste: um mar de possibilidades para mentes férteis e uma solidão absoluta, quase irreversível. As perdas da Guerra Civil ecoam pelos cantos e rostos, obrigando as crianças, com destaque para Ana, a tirarem suas próprias conclusões. O pai é um sujeito taciturno que cuida mais de sua colmeia do que da família. Ele passa mais tempo com as abelhas do que com as filhas. Em casa, há uma forte luz amarela, que salienta sua paixão pela apicultura, ao mesmo tempo em que estabelece uma espécie de redoma protetora; afinal, o amarelo é uma cor quente, convidativa. O arco de Ana é justamente sobre abandonar a colmeia e desvendar os mistérios das terras perigosas. Outro detalhe curioso é a janela da casa, cujo formato é idêntico ao de uma colmeia, fechando este simbolismo lindamente ilustrado por Erice – a fusão que vai do rosto do pai à janela fala por si. Viemos à terra em busca de respostas. O cinema é essa porta de abertura. O cinema diz aquilo que é ignorado pela sociedade.
A mãe é uma grande sofredora, que guarda uma carta nunca entregue a um amante que faleceu na guerra. As refeições são votos de silêncio. Não existe proximidade entre o casal. Isabel, no seu mundo de subversões, brinca com o fogo – metafórica e literalmente. Quando Ana a vê pulando uma fogueira, como se desafiasse o fogo punitivo, ideias sobre bem e mal surgem. Ela conhece a própria irmã? Não sei, mas confia a ponto de acreditar que o monstro, de “Frankenstein”, é real. Todos os dias, a protagonista vai a um celeiro abandonado, onde há um poço. Depois de tanto insistir, Ana encontra um homem foragido. Ele aponta a arma; ela oferece uma fruta. Enfim, monstro e criança se encontram. O resultado: a bondade está no coração daqueles que a presenciam. Ana é a pureza. O relógio do foragido toca uma música, num gesto que salienta o carinho mútuo. Ouvimos tiros. O homem foi abatido. O pai recuperou seu relógio, roubado alguns dias atrás. Quem é o verdadeiro monstro? Ana se pergunta, questiona se está num lugar realmente protegido e se pode confiar em pessoas que não conhece profundamente. Ah, a inocência. Ela continua em sua alma, olhar doce e modo de andar. Sua mente… bem, sua mente foi atormentada pelo fantasma da realidade. Seu pai é um cogumelo comestível ou venenoso? Suas bordas são achatadas ou certinhas? Ele a ensinou a distingui-los. E a fusão que vai do cogumelo ao fogo? Seria um julgamento sobre Isabel?
Erice narra essa “fábula” com uma rigidez extrema, trabalhando com planos estáticos, a observação mundana e close ups que examinam uma transformação. Entre as camas das irmãs, há uma vela, um ursinho e uma imagem de Cristo – proteção e pureza -; símbolos que, aos poucos, são questionados. Passamos pouco tempo com a mãe; todavia, um plano estático dela na cama, sozinha, é poderoso o bastante para entendermos sua situação. A magia de “O Espírito da Colmeia” está na suspensão das informações. A perspectiva infantil e os adultos “amordaçados” nos obrigam a imaginar, a expandir nossa percepção acerca de gestos e escolhas estéticas sutis. Erice conseguiu realizar uma obra densa, instigante, poética e melancólica sem se escorar em normas padrões ou clássicas. Seu filme existe em uma categoria particular. Um filme que capta a desesperança do espaço e o transforma numa extensão de seus personagens. A curiosidade não tem palavras, apenas ações e pensamentos – é isso que vemos, é isso que nos move aqui. A trilha sonora, a princípio, apropriada para um conto infantil, ganha em incerteza. Os créditos iniciais são pinturas de crianças; já os finais…
Ana Torrent oferece uma das performances infantis mais maduras e sensíveis de todos os tempos. Ela encontra o balanço perfeito entre contenção e força; mistério e doçura. “O Espírito da Colmeia” permanecerá eternamente como uma obra que evita conclusões definitivas, sendo um atestado do empoderamento do espectador. O cinema espanhol pode se sentir orgulhoso por ter este filme em sua história.



