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Apoiado no corrimão, o garoto observa tudo. O plongée destaca a magnitude da residência, contrastando com o tamanho do protagonista. O pai de Philipe, embaixador, raramente está presente, deixando os cuidados gerais para Baines e sua esposa. A relação entre Baines, o mordomo, e Philipe é cheia de afeto. Mrs. Baines, em contrapartida, é rigorosa e pouco simpática. Cansado do “palacete”, Philipe dá uma escapada, deparando-se com o amigo numa situação que foge de sua compreensão. 

Baines mantém um caso com Julie, datilógrafa da embaixada, que, cansada do anonimato, decide voltar para a França. A sequência é interessante justamente por expor pontos de vista distintos: de um lado, o tormento do romance extraconjugal; do outro, a inocência de alguém que ainda desconhece as nuances do coração humano. Baines tenta explicar as condições através de códigos, iniciando uma espiral de segredos que serão o centro da narrativa. Philipe está prestes a adentrar um universo de ruídos e infidelidades, no qual mentiras norteiam adultos que pareciam ser heróis infalíveis. Carol Reed, com sua encenação perfeccionista, não precisa de muito para captar as emoções dos personagens. Quando Baines tenta pôr um fim no casamento, ele se coloca do lado oposto da mesa e se distancia enquanto fala. Eis que, Mrs. Baines, entendendo o que está acontecendo, utiliza-se da ingenuidade do protagonista, extraindo segredos importantes. Philipe é a prova de que, antes de nos infectarmos com a toxicidade cotidiana, os humanos são puros e honestos. Ele não titubeia ao falar que odeia Mrs. Baines e é sincero ao perguntar ao amigo qual o problema de se casar com uma mulher que não seja branca. Metido no caso extraconjugal, Philipe é obrigado a mentir, sofrendo um verdadeiro baque – chega a ser engraçado perceber a confusão que se passa em sua cabeça. 

Antes da virada na trama, Reed introduz ângulos holandeses e sombras mais intensas, fomentando uma atmosfera tensa, preparando o espectador. Mrs. Baines, ao tentar flagrar a traição, cai de uma altura considerável e morre. Não há testemunhas e as pistas direcionam a um assassinato. A partir daí, Reed, que já demonstrava todo o seu talento, prova ser um dos maiores mestres da mise en scène clássica. Os contra-plongées destacam a imponência dos delegados perante Philipe, que, por vezes, aparece coberto ou de costas no quadro – dúvida e medo. A cada pergunta de um oficial, uma resposta diferente. O protagonista foi ensinado a mentir. A fim de ajudar o amigo, ele tropeça nas próprias invenções, idealizando cenários limpos. Nós sabemos o que aconteceu; sabemos que Baines é inocente e que deseja apenas proteger Julie. Bobby Henrey oferece uma das grandes performances infantis de todos os tempos, principalmente no último ato, no qual ele traz um misto de nervosismo e vontade de ser prestativo. Em um curto “interrogatório”, a intensidade dos cortes e o tamanho dos planos conferem uma inquietação   gritante. Ralph Richardson, que dá vida a Baines, também está impecável. Sua caracterização não poderia ser mais “britânica”, fazendo do mordomo um sujeito elegante e discreto, que preza pela contenção emocional. Ao optar pela “encenação da opressão”, em que delegados e outros oficiais rodeiam o trio central, Reed tira algo a mais de Baines – há uma apreensão sutil ali; um medo que não tem a ver com o seu destino, mas com o de sua amada. O jogo de perguntas e a anatomia do crime são um verdadeiro deleite para qualquer apreciador do cinema clássico de investigação, sendo, também, uma oportunidade de acompanhar o desabrochar de uma criança que precisa aprender o momento certo de mentir. Há uma cena envolvendo um aviãozinho de papel que é especialmente tensa. Philipe, um garoto preso no castelo, passa por uma experiência que o faz crescer, tornando-se capaz de entender as linhas tortas pelas quais as pessoas – até os melhores amigos – caminham. 

“The Fallen Idol” é um clássico do cinema inglês. Um filme que encanta pelo domínio exibido por seu diretor.

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