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Ao assistir “if….”, de Lindsay Anderson, eu entendi por que Stanley Kubrick sempre teve Malcolm McDowell em mente para o papel de Alex DeLarge. Nesse sentido, o filme, para mim, um fã inveterado de “Laranja Mecânica”, ganhou contornos ainda maiores. Aqui, nasceu a energia irreverente e rebelde de um dos grandes protagonistas da história do cinema. Outro motivo que me aproxima de “if….”, é que sinto que este filme deveria ser obrigatório em qualquer escola – não me refiro ao passatempo após uma prova insuportável, mas a algo a ser amplamente estudado e discutido.

Em um internato masculino, na Inglaterra, os jovens vivem numa espécie de regime fascista, em que o diretor e os professores dão carta branca para os veteranos agredirem – física e psicologicamente – os calouros, fomentando um ciclo de tirania. Os ternos, obrigatórios, marcam a padronização comportamental e a impossibilidade de ser jovem. A elegância do figurino é proporcional à opressão e ao rigor dos educadores. Mick Travis surge com um chapéu e um cachecol enrolado no rosto, escondendo o bigode. Os quartos, impessoais, como quase tudo aqui, ganham vida pelas decorações postas pelos alunos nas paredes. A imagem de “O Grito”, de Edvard Munch, é uma representação artística que serve de contraponto a qualquer regime totalitário. O mesmo vale para uma foto de Che Guevara, que salienta a aura revolucionária de alguns. Todavia, os grandes símbolos de liberdade são a motocicleta roubada por Mick e os pôsteres de belas mulheres. A moto, mais do que os carros, é um veículo que remete a movimentos libertários e à ideia de “pegar a estrada”, fugindo do mundo. As mulheres estão diretamente associadas à noção de prazer, algo impossível naquele espaço, não apenas por ser um internato masculino, mas pelo esforço dos líderes em manter a “disciplina”. Não à toa, a única personagem feminina de “fora do sistema” aparece na fuga de Mick, em que rouba a moto. Ela não tem nome, sendo creditada como “The Girl”, o que a confere um caráter ainda mais alegórico – seria ela real ou fruto de um delírio jovial? A repressão sexual não se limita à heterossexualidade; Anderson e os roteiristas deixam nítido que há uma homossexualidade silenciosa.

O colégio opera dentro de uma lógica viciante e doentia. Os calouros sofrem, aprendendo a importância da obediência e da disciplina. Depois, já veteranos e moldados àquele padrão, eles têm a oportunidade de se juntar ao “clube”. É como uma fábrica de procriação fascista de alta escala. O que torna o sistema tão forte é a resignação dos “mais fracos”, que, sem uma liderança rebelde, aceita o que lhes é imposto. Mick Travis é esse líder – imaginem Alex DeLarge, com todo seu carisma, agindo em prol de uma causa nobre. A área do colégio é enorme, cercada por construções antigas, reforçando o desejo de manter as tradições do passado vivas. A não ser na sequência em que Mick rouba a moto, Anderson não mostra o lado de fora; sua câmera sempre está do lado de dentro da fortaleza. “Um perigo para a moral da Academia”. Quando três alunos são punidos por Rowntree, o veterano principal, o cineasta mostra as “varetadas” somente em Mick, pontuando seu protagonismo e liderança dentro do grupo. O teor de denúncia se confunde com a ironia do texto: após a agressão, os calouros agradecem e são “bem respondidos” – a formalidade inglesa é zombada com muito bom gosto.

Enquanto os poderosos jantam numa mesa decorada com velas e frutas e tomam banho em banheiras, os plebeus se amontoam num refeitório e fazem fila para uma rápida ducha. Até o Padre, que deveria ser uma figura acolhedora, é extremo em seus sermões. Se o objetivo é formar homens capazes de se defender, podemos dizer, ao fim, que este foi alcançado com louvor. O discurso inflamado do soldado acaba sendo ofuscado pela fumaça, em outra belíssima tirada irônica dos realizadores. A guerra acontece ali, com direito a tiros, bombas e algumas perguntas. “Um homem pode mudar o mundo com uma bala no lugar certo”. A alternância abrupta da fotografia em cores para o preto e branco chega a ser enigmática. A fim de destacar as ações libertárias e subversivas de Mick e seus amigos, o cineasta decidiu ser livre e subversivo na forma, aderindo, inclusive, ao surrealismo, alinhando, brilhantemente, estética à narrativa. Embora guie o espectador através de capítulos, a montagem segue uma linha de “descontinuidade” similar.

Malcolm McDowell é um poço de carisma e carrega o filme com seu olhar expressivo. A parceria com Anderson deu tão certo, que seguiu em outros dois projetos, nos quais McDowell interpreta diferentes versões do mesmo personagem. “if….” é um grande exemplar do intenso cinema britânico das décadas de 60 e 70.

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