“All That Heaven Allows”, o trabalho mais celebrado de Douglas Sirk, talvez seja, até hoje, o melhor filme sobre relações amorosas entre pessoas de classes sociais distintas – o que diz mais sobre o imenso talento do alemão radicado em Hollywood do que qualquer outra coisa. Assim como tudo que Sirk realizou, este é um filme que revela seu valor na meticulosidade da encenação.
Cary Scott é uma viúva que, integrada à alta sociedade de New England, se vê numa absoluta solidão. Quando a conhecemos, ela veste um suéter cinza, que salienta sua melancolia. Sara, sua melhor amiga, faz o possível para arrastá-la a festas do clube e a coquetéis. O antigo vestido vermelho é um indicativo de que Cary não desistiu do amor e que deseja ser observada; no entanto, ao ser cortejada por Harvey, Sirk opta por um close up, reforçando a pressão sentida pela protagonista, que é basicamente encurralada para se casar de novo. O mesmo vale para os intensos tons de azul que invadem o espaço no qual ela se encontra, fomentando uma atmosfera triste e desoladora. Acontece que, naquele meio, a felicidade pouco importa, bastando a manutenção de uma aparência sólida e elegante. São seres frios, cínicos e insensíveis, que se colocam no direito de definir a vida alheia. Cary, indo na contramão, se apaixona por Ron Kirby, seu jovem e gentil jardineiro.
Ron não tem interesse naquele universo; sua luta é justamente para apresentar à amada uma felicidade mais palpável, longe de clubes, títulos e posses. As flores marcam a pureza de seus sentimentos, mas são as sombras, que crescem junto com o amor, que determinam o futuro, simbolizando a opressão que impede que o casal vá adiante. Ron, invariavelmente, veste uma camisa vermelha, que funciona como um escudo que protege a protagonista e eleva suas expectativas. Um exemplo do quão sofisticada é a linguagem de Sirk está na forma como ele representa o impacto do primeiro encontro e a passagem do tempo: um tilt up em direção a uma árvore de folhas coloridas, uma fusão em que as folhas caem e a câmera se estabiliza, retornando à superfície. Outro símbolo do amor de Ron é a reforma na casa empoeirada, que ganha contornos modernos e românticos. Quando ele a propõe em casamento, as sombras os devoram e a janela, que era uma fonte de luz, destaca a gelidez da neve. Há espaço para a verdade num mundo de mentiras incontornáveis? Cary se choca contra um muro de indiferença, começando por Kay e Ned, seus filhos, que, diferentes em temperamento, concordam em estragar o momento da mãe. A alta classe se delicia com as fofocas e a chance de destilar seu veneno, destruindo qualquer chance de estabilidade. Cary tenta se convencer de que é dona de seu destino e que tudo ficará bem; todavia, ao posicioná-la entre os filhos, segundos antes deles conhecerem Ron, Sirk deixa claro que a decisão não é exatamente sua.
Cary rejeita a ideia de comprar uma televisão, tida como o símbolo máximo da mulher solteira e solitária. Ned não apenas a presenteia com uma no Natal, ele decreta que a TV será a grande companhia de sua mãe – pelo menos, até que ela se “endireite”. O reflexo de Cary na tela evidencia seu papel secundário na própria existência; uma autêntica prisioneira. Sirk enfatiza tal condição ao colocar a protagonista perto de janelas, observando e imaginando, presa ao que lhe foi imposta. O desfecho é uma prova de coragem, amor ao próximo e por si. Cary, enfim, está em casa.
Eu não poderia deixar de destacar a inconfundível beleza da fotografia em Technicolor, que, além de fomentar tormentos e desalentos, nos insere num mundo de cores exuberantes. A trilha sonora também merece elogios por conferir uma potência a mais à narrativa. Rock Hudson, colaborador habitual de Sirk, está perfeito no papel de Ron, mas é Jane Wyman quem oferece a performance mais arrebatadora, contendo emoções fortíssimas em seu rosto e corpo.
“All That Heaven Allows” é uma das maiores obras primas melodramáticas já feitas.



