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Brian De Palma foi um dos diretores da Nova Hollywood que se deu melhor na década de 80. “Blow Out”, 1981, talvez seja, entre tantas obras primas, o seu grande trabalho. Um filme que soa quase como uma homenagem ao poder do audiovisual, só poderia ter sido realizado pelo cineasta que melhor entende o potencial da arte cinematográfica.

Em uma noite remota, num parque, Jack Terry, um sonoplasta, está captando sons para o seu filme. Repentinamente, um carro derrapa e cai no rio. Jack pula na água e consegue salvar Sally, mas não a outra pessoa. No hospital, ele descobre que o falecido era McRyan, principal candidato à presidência. Para piorar, ao revisar o áudio gravado, Jack percebe que, antes do estouro do pneu, houve um tiro. Este é o filme de De Palma em que o roteiro, assinado pelo próprio, e a encenação melhor dialogam entre si. O protagonista é um homem que se choca contra o sistema, lutando contra assessores que querem abafar o caso, policiais acomodados, seres gananciosos e outros agentes do mal. Jack não consegue esquecer e seguir em frente; sua inquietude diante da névoa que cobre a sociedade é implacável. No passado, quando trabalhou disfarçado na polícia, ele foi atingido pela sujeira da corrupção. A relação com Sally é formada para trazer à tona o fantasma da perda e incrementar sabores distintos à narrativa. Ingênua, Sally é incapaz de captar a gravidade de certas ações e não cansa de se diminuir. Na primeira interação entre os dois, os close ups e o tema romântico salientam que, mais do que um parceiro, Jack será o protetor de Sally, que é maquiadora; ou seja, estamos falando de um casal que representa imagem e som – a química perfeita.

Antes do resgate, De Palma cria uma ligação entre o protagonista e McRyan, a partir do uso de Split Screen e Split Diopter. Pouco diretores pensam a imagem com tamanha inventividade, brincando com o potencial das ferramentas estéticas/narrativas. De Palma destaca a engenhosidade do trabalho de Jack e, através de planos-detalhe, insere o espectador na realidade “reduzida” e atenta do sonoplasta. Como ele constrói a prova de que aquilo foi armado, não um acidente? Juntando as imagens publicadas na revista com o som que captou – audiovisual; cinema. Quando Jack nota que sua fita foi apagada, De Palma gira a câmera pela sala, fomentando um clima de angústia crescente. O plongée, que nos permite ver o ambiente por completo, marca o envolvimento do protagonista com o caso e sua vulnerabilidade. O jogo de cores também é meticulosamente elaborado. O azul ressalta a frieza do antagonista, um assassino calculista. As transições, por vezes, privilegiam contrastes, indo do vermelho, que celebra a aura romântica, para o azul; todavia, o vermelho também simboliza a sanguinolência e “entrega” personagens envolvidos na trama macabra, como, por exemplo, Manny. O Split Diopter, citado acima, uma das marcas de De Palma, é utilizado várias vezes, sendo essencial para “clarear” a visão do espectador e aproximar/conectar personagens.

Burke, o antagonista, é contratado pelo opositor de McRyan para tirar fotos comprometedoras e pregar peças. As coisas saem de controle, já que Burke idealiza um plano particular. John Lithgow o interpreta como um sujeito implacável, que está sempre à frente dos demais. A entonação monotônica e os trejeitos calculados são sutilezas que engrandecem sua composição. Tudo é arquitetado para um desfecho memorável, que combina o preciosismo de De Palma e uma carga emocional poderosa; o espetáculo e a tragédia. O arco de Jack caminha para duas direções: o expurgo de demônios internos e a chance de viver algo realmente especial ou o desabamento num vazio imensurável. A bandeira norte-americana ganha um significado amargo: a terra da injustiça, onde o sistema engole quem tenta expô-lo. John Travolta nunca esteve tão bem; seus suspiros de dor atingem como disparos no peito. Não satisfeito com a épica sequência dos fogos, De Palma termina o filme com uma cena que reforça a qualidade de seu roteiro, preocupado em estabelecer rimas com o que havia sido introduzido bem no início. Pino Donaggio é um dos grandes colaboradores de sua carreira. Suas trilhas sonoras, de tendências melodramáticas, casam lindamente com o estilo pomposo de De Palma.

“Blow Out” é uma maravilha.

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