Eu não sou uma pessoa religiosa, mas, recentemente, numa missa de sétimo dia, fiquei tocado com o sermão do padre: “Nós estamos aqui para viver, não para sobreviver” (as palavras não foram exatamente essas). Em “Whose Life Is It Anyway?”, de John Badham, embora não tenha dúvida de que o padre desaprovaria a escolha do protagonista, me vi tocado pela mesma questão.
O filme começa num tom harmônico e bem-humorado, com a leveza de um casal apaixonado – até a trilha sonora confere leveza. No entanto, não tarda para que Rex, que é um escultor, sofra um grave acidente de carro e fique tetraplégico. A partir daí, a narrativa praticamente inteira se desenvolve no hospital, onde Rex está fadado a passar o resto de sua vida. Inteligente e espirituoso, o protagonista brinca com a equipe médica, que aguarda alguns meses para confirmar que seus movimentos não retornarão. Aos poucos, Rex abraça um cinismo que, sendo sincero, é mais do que justo. Sua primeira medida definitiva é convencer Pat, sua companheira, a abandoná-lo. Rex não suporta vê-la desperdiçar a própria vida e sabe que, ainda que se esforce, será incapaz de satisfazê-la nos mais variados sentidos. Ele sabe que as mulheres já não o enxergam como um homem, somente como vegetal, o que é enfatizado pela intimidade no trato com as enfermeiras. Pior do que não ser mais “levado a sério” como homem, é ser ignorado enquanto ser humano. Todos carregam pena em suas colocações; se Rex xingar o médico, não receberá reciprocidade, mas palavras de alento e falsa compreensão.
A quantidade excessiva de valium o ajuda a aceitar sua condição? Se até a mente, única parte funcional que lhe restou, será dopada, qual a diferença entre estar vivo e morto? O roteiro, adaptado de um filme televisivo e de uma peça teatral, questiona a diferença essencial entre viver e sobreviver. Os tons frios, as paredes brancas, a pele pálida, as sombras que marcam os rostos e o cenário limitado são símbolos da impessoalidade e do vazio. Cercado por aparelhos, o protagonista percebe que não pode seguir em frente. Rex Harrison, aquele que conhecemos na cena de abertura, faleceu e o que sobrou não é suficiente para ressignificar uma existência inteira. Quando uma psiquiatra tenta convencê-lo a escolher outro tipo de expressão artística, Rex fica furioso, pois sabe que não se troca de arte como se troca de curso na universidade. Viver, àquela altura, tornou-se uma tortura; a cada dia, uma nova evidência de seu naufrágio físico e emocional vem à tona. O protagonista, então, convicto de que a morte é a única saída, contrata um advogado para lhe defender contra o hospital.
Michael Emerson, chefe do departamento, trata a medicina como uma ideologia – doenças são suas maiores inimigas e garantir o bem-estar dos pacientes, seu objetivo. Interpretado pelo lendário John Cassavetes, Emerson é uma figura interessante. Por mais bonito que seja seu discurso, ele é o único incapaz de compreender o lado humano do caso, mantendo-se intransigente em suas ideias, como um cientista que luta para manter sua criação viva. Ignorar o direito de escolha de Rex confirma sua condição vegetativa. A alegação de depressão para impedir que o protagonista tome qualquer decisão chega a ser desrespeitosa, já que, em sua atual situação, o estranho seria estar alegre. Se a mente ainda funciona, ela há de remoer as possibilidades e o que foi perdido – esse é um abismo de saídas limitadas. Não à toa, quando pensa em Pat, o flashback é retratado em preto e branco, salientando a distância daquela realidade. Rex não quer morrer, só quer ser reconhecido como morto. Sua luta é pelo mínimo de privacidade e dignidade.
Clare Scott, doutora responsável pelo protagonista, é quem dialoga melhor entre o profissionalismo e o lado humano. Ela tenta convencê-lo a considerar novas possibilidades; todavia, ao visitar seu estúdio, vívido e repleto de esculturas, percebe que talvez seja impossível. A verdadeira tortura não é o “suicídio”, mas obrigar aquele que exalava vida a observar, minuciosamente, sua decomposição. O filme consegue contornar sua natural morbidez com toques elegantes de humor. As relações que Rex estabelece com a equipe médica são bonitas de se acompanhar, principalmente pelo fato da maioria entender sua dor e fazer o possível para tornar seus últimos dias mais toleráveis.
Richard Dreyfuss é o grande responsável pelo êxito do projeto, controlando seu tom e alma. Ele vai do sarcasmo à dor com uma naturalidade imensa, capturando a tragédia do protagonista. Dreyfuss traz nuances que fazem de Rex uma figura vulnerável, doce e amarga. A raiva em seu rosto é tão palpável quanto a tristeza no olhar. O elenco de apoio também conta com os excelentes Bob Balaban e Christine Lahti.
“Whose Life Is It Anyway?”, assim como seu diretor, merecia um reconhecimento muito maior.



