Skip to main content

A fumaça e os corpos suados não mentem: “Body Heat” carrega o calor em seu tema, intenção e atmosfera. É o tipo de filme em que um personagem, dominado pelo tesão, arremessa um móvel na janela, quebrando-a para se atracar com a amada no chão da casa. Um filme que não tem vergonha de ser safado e luxurioso, contendo diálogos como:

— Vou até limpar para você.

— Não prefere lamber?

Um filme em que as figuras centrais agem pela carne, com a força de quem está prestes a devorar o outro. Lawrence Kasdan respeita as tradições do Noir clássico, ao mesmo tempo em que introduz características comuns à década de 80. A trama lembra bastante a de “Double Indemnity”, de Billy Wilder. Ned é um advogado mulherengo. Para ele, a melhor companhia é aquele para uma noite prazerosa, não para uma vida enfadonha. Eis que surge Matty, que é uma espécie de Phyllis Dietrichson oitentista. Ela é sedutora, inteligente e mais perigosa do que parece. Ao permitir que o desejo fale mais alto, Ned ignora as probabilidades adversas, acreditando na palavra de uma mulher que personifica os mistérios que levam homens prudentes a saírem da linha.

Os dois, então, decidem que, para ficarem juntos, precisam matar Edmund Walker, marido milionário de Matty. Assim como em “Double Indemnity”, o plano envolve um certo nível de ganância, já que, graças a um acordo pré nupcial, o divórcio não renderia nada a Matty. Depois do assassinato, fica claro que o protagonista se meteu com uma mulher ardilosa e manipuladora, capaz de qualquer coisa para conseguir aquilo que deseja. Kasdan reforça que, quando guiados pela libido desenfreada, adultos tendem a deixar rastros e a não tomarem cuidados básicos – é quase como se os personagens estivessem em transe. Os amigos de Ned, que conhecem seu lado galanteador, não demoram a suspeitar de um possível envolvimento dele no caso, investigando com um misto de apreensão e curiosidade. As sombras dividem, por exemplo, o rosto de Peter, deixando em dúvida suas reais intenções – está ali para proteger ou condenar?

Dito isso, o que realmente empolga é a ambientação, guiada por um excepcional trabalho de fotografia. Todos os lugares pulsam de tanto calor, remetendo a saunas que foram desreguladas por um curto circuito. Os personagens estão sempre suando, com as roupas grudadas em seus corpos e as testas brilhando. Não à toa, em várias situações, vemos ventiladores. Nos bares, o vermelho traz um outro tipo de calor, que conversa com a intensa neblina esfumaçada que invade a noite. Em “Body Heat”, o calor metereológico se confunde com o calor dos corpos que se atraem e com a excitação pelo crime infalível. Na primeira vez em que se encontram, Matty usa um figurino branco, contemplando a ideia de uma Dama Noir, que projeta uma imagem e manipula seus cordeirinhos. No segundo encontro, sua saia é vermelha, o que ressalta suas intenções com Ned. Kasdan extrai algumas das composições mais eróticas da história do cinema, filmando o casal entrelaçado ou abraçado. A trilha sonora, que começa com batidas jazzísticas e vai ficando cada vez mais densa, confere um forte clima de sensualidade e tensão. 

William Hurt é um dos poucos atores que evoca aquele ar de astro hollywoodiano. Ele passa a aura de um William Holden moderno, o que é fundamental para a concepção da atmosfera idealizada por Kasdan. O mesmo vale para Kathleen Turner, que, com poucos gestos, tem a capacidade de seduzir e imobilizar. “Body Heat” é uma das grandes heranças do saudoso cinema oitentista americano.

O que você achou deste conteúdo?

Média da classificação / 5. Número de votos:

Nenhum voto até agora. Seja o primeiro a avaliar!